Publicidade
Geopolítica

Lula e a guinada pragmática: da ONU ao telefonema com Trump

Os acontecimentos indicam uma mudança significativa e estratégica na política externa brasileira

Lula sanciona LDO de 2026 com veto a reajuste do Fundo Partidário

A passagem do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por Nova York durante a 80ª Assembleia Geral da ONU, em setembro, foi bem-sucedida, e o resultado disso foi a ligação recebida do presidente americano, Donald Trump, na manhã da última segunda-feira (06)

Publicidade

O discurso na Assembleia Geral da ONU e o apoio do Brasil ao plano de Trump para Gaza, até a conversa direta entre os dois presidentes, indica uma mudança significativa e estratégica na política externa brasileira, que deixa de lado a retórica ideológica para adotar uma postura mais pragmática e voltada à realidade.

A abertura da Assembleia Geral da ONU manteve a tradição seguida desde 1955, fazendo com que o líder brasileiro fizesse o discurso inicial, entretanto, ofereceu uma mensagem de equilíbrio inédita. Lula propôs a revisão da Carta da ONU, defendeu a reforma do Conselho de Segurança e posicionou o Brasil como protagonista climático ao anunciar a COP30, que acontecerá em Belém como a “COP da verdade“. Em um tom mais conciliador e sem citar Donald Trump, o presidente do Brasil criticou as “sanções arbitrárias e unilaterais”, atitude que mostrou interesse em um diálogo.

No plano das interações bilaterais, dois momentos se destacaram

Durante os bastidores da Assembleia da ONU, Lula e Donald Trump se encontraram por cerca de 20 segundos, momento de troca rápida de gestos, mas que trouxe consigo um forte simbolismo político. Diante disso, Trump declarou ter estabelecido uma “boa química” com o líder brasileiro, além disso, o momento estabeleceu promessas de um encontro próximo. As informações são da CNN Brasil.

Outra ocasião foi o encontro de Lula com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que também aconteceu durante a passagem do líder brasileiro por Nova York, na semana da Assembleia da ONU. A conversa, que durou cerca de 40 minutos, rendeu um convite de Zelensky a Lula, para visitar a Ucrânia – gesto que simboliza reaproximação após meses de tensão provocados pela viagem de Lula a Moscou. O presidente da Ucrânia também agradeceu o “posicionamento claro” brasileiro pelo cessar-fogo. 

Apoio ao Plano de Gaza

A verdadeira guinada pragmática, porém, manifestou-se dias após a ONU. Em 1º de outubro, durante audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o chanceler Mauro Vieira anunciou que o Brasil apoiava publicamente o plano de paz para Gaza apresentado por Trump.

Lula, que em setembro chamara as ações de Israel em Gaza de “genocídio” e “limpeza étnica” do púlpito da ONU, agora apoiava a proposta. 

Segundo o g1, Vieira se justificou: “O Brasil está acompanhando, e somente ontem, no final da tarde, tomamos conhecimento de todos os detalhes do plano que foi lançado. E, sem dúvida nenhuma, vamos aplaudi-lo publicamente, possivelmente ainda no dia de hoje” e acrescentou: “O objetivo do plano é justamente o que nós sempre defendemos desde o início do conflito”.

A ligação telefônica 

O presidente Donald Trump realizou na manhã desta segunda-feira (06), uma ligação para o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Por cerca de 30 minutos, os líderes mantiveram o diálogo em “tom amistoso” e relembraram o encontro durante o evento da ONU, em Nova York.

Além disso, Lula pediu para que o governo dos Estados Unidos retirasse a tarifa imposta em agosto, para produtos nacionais, sendo sinalizado por Trump, que o assunto seria tratado com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Trump também recebeu o convite para participar da COP30, que acontece em novembro, em Belém (PA). 

O Brasil e os Estados Unidos parecem estar passando por uma virada diplomática importante. Até agosto/setembro, a relação entre os dois países era considerada pelos analistas como “a pior crise em 200 anos”, com o chamado “tarifaço” de até 50% imposto pelos EUA sobre produtos brasileiros, sanções a autoridades brasileiras e forte tensão diplomática.

Em vez de aprofundar uma retórica de confronto, aderindo a discursos ideológicos ou alinhamentos automáticos contra Washington, o governo Lula tem optado por dialogar, buscar negociações e retomar canais de entendimento.

No caso de Gaza, o Brasil escolheu apoiar o plano imperfeito mas viável que pode salvar vidas hoje, em vez de esperar solução perfeita que nunca virá. Essa mudança reflete também uma estratégia mais bilateral: valorizar negociações diretas com os EUA e outros atores poderosos, não depender apenas de fóruns multilaterais como BRICS, ONU ou CELAC para definir seus rumos.