A Venezuela viveu, nos últimos anos, um dos piores episódios de hiperinflação da história moderna. Em 2018, segundo o professor Steve Hanke, da Universidade Johns Hopkins, em repercussão da BBC, os preços no país chegaram a subir 65.000% em 12 meses, fazendo com que a população precisasse de maços de bolívares para comprar itens básicos como carne e pão.
Mesmo após o lançamento do “bolívar soberano”, cortando cinco zeros da moeda, o problema não foi resolvido. Apesar disso, a Venezuela não foi o primeiro país a enfrentar uma crise desse tipo: ao longo da história, nações de diferentes continentes viveram o colapso de suas moedas e aprenderam, muitas vezes com dor, como reconstruir a estabilidade econômica. Abaixo, veja 5 países que já enfrentaram superinflação e o que fizeram para sair dela:
Hungria, 1946
Em julho de 1946, os preços na Hungria subiam 207% por dia, e dobravam a cada 15 horas, segundo informações da Gazeta do Povo. Foi o pior caso de hiperinflação já registrado.
A Segunda Guerra Mundial devastou o país: 40% da riqueza nacional foi perdida e 80% da capital, Budapeste, estava destruída. Sem recursos e obrigada a pagar altas reparações de guerra aos soviéticos, a Hungria passou a imprimir dinheiro descontroladamente. A nota de maior valor chegou a 100 trilhões de pengos húngaros.
A recuperação veio com a criação de uma nova moeda, o forint húngaro (HUF), em agosto de 1946. O plano marcou o início da estabilização econômica.
Brasil, década de 1980
O Brasil enfrentou 15 anos de inflação de dois dígitos ao mês, que chegou a 82% em dezembro de 1989. Comerciantes remarcavam preços diariamente, e os consumidores corriam para gastar o salário antes dos reajustes.
A crise foi causada por emissões excessivas de moeda para financiar o déficit público e desvalorização cambial para manter a competitividade externa. Produtos desapareciam das prateleiras e o poder de compra despencava. A estabilidade só voltou com o Plano Real, em 1994, que criou uma nova moeda e encerrou a correção monetária, marcando o fim da hiperinflação brasileira.
Zimbábue, 2008
A hiperinflação no Zimbábue chegou a 79 bilhões por cento ao mês em novembro de 2008. Os preços dobravam a cada 25 horas.
A crise começou após uma reforma agrária desastrosa promovida por Robert Mugabe no fim dos anos 1990, que reduziu drasticamente a produção agrícola e afugentou investidores. Com a queda na arrecadação, o governo passou a imprimir dinheiro para financiar gastos e pagar aliados políticos.
A situação piorou com a intervenção do país na Guerra do Congo, em 1998, e aos efeitos das sanções que os Estados Unidos e a União Europeia impuseram em 2002 ao país. O país chegou a emitir notas de 100 trilhões de dólares zimbabuanos.
Em 2009, o Banco Central abandonou a moeda local e dolarizou a economia, permitindo o uso de moedas estrangeiras como o dólar americano e o rand sul-africano.
Alemanha, 1923
Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi obrigada a pagar pesadas reparações de guerra e começou a imprimir dinheiro para comprar moedas estrangeiras. O resultado foi uma inflação de 29.500% ao mês, com preços dobrando a cada três dias.
Em outubro de 1923, um pão que custava 250 marcos passou a custar 200 bilhões de marcos, destacou a BBC. Trabalhadores recebiam salários diariamente e corriam para gastar antes que o dinheiro perdesse valor.
A solução veio com a criação do rentenmark, moeda lastreada em propriedades rurais e ouro, além da renegociação das dívidas e do controle rígido dos gastos públicos.
República Federativa da Iugoslávia, 1994
A Iugoslávia era um país formado após a Primeira Guerra Mundial por o que hoje são Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Eslovênia. Durante a fragmentação da Iugoslávia nos anos 1990, o governo de Slobodan Milosevic imprimiu dinheiro para financiar guerras e aliados políticos, levando o país à terceira maior hiperinflação da história.
Em janeiro de 1994, a inflação mensal chegou a 313 milhões por cento, o que equivalia a 65% ao dia, os preços dobravam a cada 34 horas. A crise foi agravada por sanções da Organização das Nações Unidas (ONU), corrupção e paralisação da produção. A saída veio com a criação de uma nova moeda, o novo dinar, atrelada ao marco alemão e a reservas de ouro. A estabilização só se consolidou após a queda de Milosevic, em 2000.
Nota-se um ciclo
Como visto nos relatos acima, imprimir dinheiro para resolver crises não solucionou a questão. As hiperinflações surgem quando governos perdem o controle sobre a política fiscal e a confiança na moeda desaparece. A recuperação, em todos os casos, exigiu reformas estruturais, austeridade fiscal e novas moedas.

