A reaproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump criou expectativas no governo brasileiro sobre a redução de tensões comerciais e a possível diminuição dos impactos das tarifas impostas a produtos do Brasil. O movimento, porém, está longe de representar uma mudança estrutural no relacionamento entre os dois países.
Avaliações feitas por integrantes da diplomacia indicam que o gesto não assegura ganhos automáticos nem no campo econômico nem no político. Apesar do discurso otimista adotado pelo Planalto, parte significativa das exportações brasileiras continua sujeita a taxas elevadas no mercado americano.
Segundo avaliação do ex-embaixador Rubens Barbosa, a decisão de retirar a sobretaxa de 40% sobre alguns produtos do Brasil partiu exclusivamente dos Estados Unidos e não decorreu de um acordo bilateral, conforme afirmou em entrevista à VEJA. Para ele, “Isso não é resultado de uma negociação. Foi uma ação direta americana dentro da defesa do interesse deles”. Atualmente, cerca de 20% das vendas brasileiras ao país seguem taxadas em percentuais que podem chegar a 50%.
Gestos diplomáticos e cálculo político
Mesmo sem um acordo formal, o governo Lula tenta transformar a reabertura do diálogo em sinal de prestígio internacional. A estratégia busca reforçar a imagem do presidente como um líder capaz de dialogar com figuras políticas de campos ideológicos distintos.
Esse posicionamento pode render apoio de setores empresariais e do agronegócio, que foram diretamente impactados pelo tarifaço. Ainda assim, analistas veem cautela nesse movimento, uma vez que a decisão americana não envolveu contrapartidas negociadas com o Brasil.
Riscos e temas sensíveis no radar
A aproximação, no entanto, não elimina pontos de atrito. O perfil imprevisível de Trump é apontado como um fator de instabilidade, especialmente em temas considerados sensíveis para os Estados Unidos.
Questões como Venezuela, combate ao narcotráfico e regulação de grandes empresas de tecnologia podem reacender conflitos. Sobre o caso venezuelano, Barbosa avalia que “é um problema interno americano” e não deve avançar por meio de uma mediação brasileira, apesar das sinalizações diplomáticas feitas pelo governo.
Para o ex-embaixador, o principal alerta é a ausência de avanços concretos. Sem um acordo formal e com investigações ainda em andamento nos Estados Unidos, a relação entre Lula e Trump segue marcada por fragilidade e incertezas.

