O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump lançou a ideia do Conselho da Paz como um mecanismo inicialmente voltado ao acompanhamento de cessar-fogo e reconstrução da Faixa de Gaza, território palestino afetado por sucessivos confrontos armados.
A proposta ganhou projeção internacional após o presidente americano sugerir que o conselho teria condições de substituir a Organização das Nações Unidas (ONU).
O anúncio ocorreu em um momento de forte instabilidade geopolítica, marcado por guerras regionais e dificuldades de consenso nas instituições multilaterais tradicionais. As informações são da CNN Brasil.
O que é o Conselho da Paz?
Como apurado pelo O Brasilianista, o Conselho da Paz é um organismo desenhado pela Casa Branca para funcionar como instância política superior às estruturas executivas criadas especificamente para a Faixa de Gaza.
O plano prevê a concentração de decisões estratégicas em um grupo reduzido de países e líderes, com possibilidade de atuação futura em outros cenários de conflito internacional.
A proposta não nasce de um tratado multilateral, mas de uma iniciativa política dos Estados Unidos, o que limita seu reconhecimento formal no sistema internacional.
Declarações de Trump
Segundo o portal Veja, em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, formalizou a criação do chamado Conselho da Paz.
Durante a cerimônia, Trump afirmou: “Eu acabei com oito guerras e nunca precisei falar com as Nações Unidas sobre isso. Eles poderiam ter acabado com essas oito guerras mas não conseguiram, tremendo potencial que não tem sido totalmente aproveitado”.
Como divulgado pelo O Brasilianista, Trump, também em entrevista na Casa Branca, que o Conselho de Paz criado por seu governo poderia assumir atribuições hoje exercidas pela Organização das Nações Unidas.
Trump sustentou que não utilizou a ONU em negociações conduzidas por sua gestão e avaliou que a organização ficou aquém do papel esperado.
Efeitos sobre o papel da ONU
De acordo com a CNN, a criação do conselho reacende discussões sobre o enfraquecimento da centralidade da ONU. A França, por exemplo, citou possível incompatibilidade com a Carta das Nações Unidas ao justificar a decisão de não integrar o novo grupo.
A ONU, fundada em 1945, reúne Estados soberanos e atua em diversas frentes, como saúde, educação, direitos humanos, refugiados e patrimônio cultural.
Principalmente por meio de agências especializadas como Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Organização Mundial de Saúde (OMS) e Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
A substituição dessa estrutura ampla por um organismo restrito encontra resistência entre países que veem risco de fragmentação das regras internacionais.
Analistas lembram que a dificuldade da ONU em tomar decisões rápidas decorre, em grande parte, do poder de veto no Conselho de Segurança, exercido por cinco países permanentes, entre eles o próprio Estados Unidos.
Esse impasse cria um vazio político em crises prolongadas, abrindo espaço para ações unilaterais ou fóruns alternativos de negociação, como o Conselho da Paz proposto por Washington.
Mesmo assim, especialistas ressaltam que a limitação decisória da ONU não elimina sua legitimidade jurídica nem seu papel como referência normativa global.
Reação de lideres mundiais
Conforme o portal G1, convites foram enviados a cerca de 60 países, incluindo o Brasil, governado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A iniciativa foi interpretada por diplomatas como uma possível “ONU paralela”.
O temor é de enfraquecimento da Organização das Nações Unidas, hoje reconhecida como fórum central do multilateralismo.
O modelo concentra poder na liderança americana. O estatuto prevê mandato vitalício para Trump. Há cobrança de US$ 1 bilhão por assentos permanentes.
Segundo o professor Oliver Stuenkel, a estrutura é personalista e amplia riscos de desequilíbrio institucional. O desenho levanta dúvidas sobre transparência, controle e conflitos de interesse.
Ainda assim, como divulgado pelo O Brasilianista, a participação no Conselho de Trump foi confirmada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, além dos governos da Argentina, Hungria, Marrocos e Azerbaijão.
Impacto no mundo
De acordo com a CNN, uma minuta da carta de criação do conselho indica que o órgão teria como missão promover a paz global e atuar na resolução de disputas armadas.
Todavia, permanecem indefinidos pontos centrais, como base jurídica, poder decisório e instrumentos para impor acordos.
Essas lacunas colocaram o grupo no centro das discussões diplomáticas, especialmente entre países que defendem o multilateralismo formal.
A professora de Relações Internacionais, Priscila Caneparo avalia que o conselho simboliza um afastamento das normas que estruturaram a ordem internacional desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
Segundo a especialista, o modelo proposto privilegia negociações diretas entre grandes potências, em detrimento de regras construídas coletivamente em organizações internacionais.
Esse movimento aproxima a diplomacia contemporânea de uma lógica baseada na capacidade de pressão econômica e militar.
Nesse formato, acordos dependeriam menos de normas compartilhadas e mais da força relativa dos Estados envolvidos.
Poder concentrado e legitimidade
O analista internacional Lourival Sant’Anna interpreta a iniciativa como uma tentativa de institucionalizar um poder concentrado, sustentado principalmente pelo peso econômico e militar dos Estados Unidos.
Ele explica que, no multilateralismo clássico, a legitimidade surge não apenas da força, mas também da coerência política e do reconhecimento coletivo. No conselho proposto, esse elemento seria substituído pela figura do próprio presidente americano como árbitro central.
A ausência de mecanismos amplos de convencimento, inclusive entre as partes diretamente envolvidas em conflitos, aparece como um dos principais limites do projeto.
Impacto para o Brasil
Como informado pelo portal Nexo, para o Brasil, o Conselho de Paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, impõe um dilema diplomático. A participação pode afetar a posição histórica brasileira de defesa do multilateralismo.
O Brasil atua tradicionalmente por meio da Organização das Nações Unidas em temas de segurança internacional. A adesão a um órgão paralelo pode gerar atritos com parceiros europeus.
A discussão acontece em meio ao desgaste nas relações entre Washington e a União Europeia, contexto que aumenta a complexidade das escolhas estratégicas do Brasil.
Esse ambiente internacional sensível pode gerar impactos diretos tanto na diplomacia quanto na economia brasileira, sobretudo em um momento decisivo para a consolidação do acordo entre o Mercosul e o bloco europeu.

