Líderes europeus decidiram manter uma reunião de emergência nesta quinta-feira (22), na Bélgica, para tratar das declarações e movimentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, relacionados à Groenlândia. O encontro ocorre mesmo após o norte-americano afirmar que não pretende usar força militar para assumir o controle da ilha e recuar da aplicação de tarifas contra países europeus.
A decisão reflete a avaliação de que o tema ultrapassa o campo retórico e envolve riscos diretos à soberania e à estabilidade política do bloco. A preocupação central é a possibilidade de mudança no status do território, que hoje integra o Reino da Dinamarca, além dos impactos na relação entre Europa, Estados Unidos e Otan, segundo o G1.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que os chefes de Estado e de governo devem discutir garantias à integridade territorial, apoio político à Dinamarca e à Groenlândia e os efeitos do atual impasse sobre o acordo comercial entre União Europeia e Estados Unidos.
Mensagens, discursos e reação diplomática
A reunião foi convocada na terça-feira, no mesmo dia em que Trump divulgou uma mensagem privada enviada pelo presidente francês, Emmanuel Macron. No texto, Macron disse não entender a postura do norte-americano em relação à Groenlândia.
Ainda na terça-feira, durante discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Macron afirmou que este “não é momento para imperialismos e colonialismos”. O líder francês também defendeu que a União Europeia não se submeta à “lei do mais forte” e criticou práticas de “bullying” entre países.
No dia seguinte, Trump discursou no mesmo evento e voltou a endurecer o tom contra a Europa e a Otan. Apesar de reafirmar que não usaria força militar para tomar a Groenlândia, o presidente declarou que poderia retaliar a aliança militar.
Otan, negociações e interesse estratégico
No discurso, Trump classificou a Dinamarca como “ingrata”, disse que a Europa “não está indo na direção correta” e voltou a mencionar a Groenlândia como “um pedaço de gelo”. Ele também afirmou que a ilha deveria ter passado ao controle dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, período em que tropas americanas ocuparam o território.
Após a fala, Trump se reuniu com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Antes do encerramento do encontro, o presidente publicou em uma rede social que Estados Unidos e Otan haviam avançado em um acordo sobre a Groenlândia.
Sem detalhar os termos, Trump afirmou que o eventual acordo seria “para sempre” e atenderia aos interesses dos Estados Unidos e da Europa. Reportagem revelou que, na conversa com Rutte, foi discutida a possibilidade de cessão de pequenas áreas da Groenlândia aos norte-americanos para a instalação de bases militares.
Trump sustenta que a ilha é estratégica para a segurança dos Estados Unidos, inclusive para o projeto do chamado “Domo de Ouro”, sistema militar planejado para interceptar mísseis direcionados ao território norte-americano.
Impactos comerciais e resposta europeia
Com o avanço das negociações, Trump anunciou a desistência da imposição de tarifas de 10% contra Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia. As taxas seriam uma retaliação à oposição desses países aos interesses dos Estados Unidos.
Ainda assim, a crise evidenciou um desgaste na relação entre aliados históricos. Trump tem recorrido a pressões econômicas como instrumento político, enquanto a União Europeia avalia respostas coordenadas.
Na quarta-feira, o Parlamento Europeu suspendeu a análise de um acordo comercial com os Estados Unidos que previa, entre outros pontos, a retirada de tarifas sobre produtos industriais americanos. Dias antes, em reunião de emergência, a França sugeriu o uso de um mecanismo anticorrupção conhecido como “bazuca comercial”.
Esse instrumento permitiria ao bloco elevar tarifas sobre produtos norte-americanos e impor restrições a investimentos, serviços e comércio com empresas dos Estados Unidos. A União Europeia também estuda aplicar tarifas que podem chegar a 93 bilhões de euros sobre importações americanas, com possibilidade de entrada em vigor já em fevereiro.
O enviado comercial dos Estados Unidos ao Fórum Econômico Mundial afirmou que o acionamento da chamada bazuca comercial “não seria prudente” e teria “consequências naturais”. Paralelamente, autoridades europeias defendem ampliar o debate sobre a redução da dependência do bloco em relação aos Estados Unidos, especialmente na área de segurança.

