O fim da escala 6×1 tem muito potencial eleitoral. O projeto, segundo o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, deverá ser votado em maio. A depender do trâmite do texto no Senado, a extinção do modelo de trabalho será uma das principais vitrines da campanha presidencial de Lula.
Mas a mudança preocupa empresários, por conta do aumento dos gastos com a folha de pagamento. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que as despesas do setor podem aumentar em quase R$ 180 bilhões, enquanto o Agronegócio aponta que o custo da mão de obra pode aumentar entre 20% e 25%, reduzindo as vagas de emprego em até 2%.
Em entrevista exclusiva a O Brasilianista, o deputado federal Julio Lopes (PP-RJ) afirma que o trabalhador deve ter mais tempo livre para descansar e conviver com a família, mas pondera que o inevitável aumento de custo com o fim da escala 6×1 só poderá ser atenuado por meio de um período de transição.
“Sem esse período de adaptação, muitas empresas fecharão, os gastos aumentarão rapidamente e quem vai pagar é o consumidor final. É necessário um plano de implementação calcado em estudos que analisem a viabilidade da mudança no médio prazo”, diz o deputado federal.
Lopes também tem trabalhado pela criação de um grupo de trabalho que discuta, na Câmara dos Deputados, meios de combater a pirataria e a sonegação de impostos. A previsão é que o colegiado passe a funcionar nos próximos meses.
Segundo o deputado federal, essa é outra pauta que ajuda a Economia, pois o setor privado tem sofrido perdas bilionárias com produtos falsificados, e o Estado tem deixado de arrecadar “R$ 485 bilhões por ano” com a sonegação de impostos.
Formado em administração de empresas, Julio Lopes preside a Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo e está em seu quinto mandato. O parlamentar já presidiu a Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara em 2005 e 2015, e relatou o Marco Geral do Saneamento.
Leia abaixo a entrevista concedida por Julio Lopes a O Brasilianista:
1- O grupo de trabalho que discutirá soluções contra a pirataria e o crime organizado será misto ou formado apenas por deputados federais?
Será um colegiado da Câmara dos Deputados que poderá, por óbvio, contar com contribuições do Senado. Sua criação foi incentivada por diversos representantes do setor privado, como a CNI e a Firjan, que apresentaram estudos sobre o quanto o Brasil perde com pirataria e sonegação. Os dados que temos mostram que a Economia brasileira perde R$ 485 bilhões por ano.
2- Esses crimes dependem de uma fronteira perene. Como fica o papel das Forças Armadas, da Polícia Federal e da Receita Federal nesse enfrentamento?
Precisamos de muitos investimentos na área militar para proteger as fronteiras terrestre a marítima. Também temos que reforçar, com pessoal e tecnologia, a Receita Federal e outros os órgãos ligados, mesmo que indiretamente, à Segurança Pública. Além da pirataria, o Brasil tem outras questões de segurança nacional extremamente importantes, como a exploração do petróleo e proteção da riqueza da Amazônia.
Com maior efetivo, as Forças Armadas também poderiam auxiliar em operações policiais. Quando for feita uma operação policial em área urbana, as Forças Armadas poderiam cercar essas áreas, evitando a entrada ilegal de armas. Isso ajudará a dar mais segurança às forças policiais, que sofrem com a resistência cada vez mais bem armada do crime.
3- Quais setores brasileiros serão mais beneficiados pelo acordo firmado entre Mercosul e União Europeia? Quais setores sofrerão com a maior concorrência europeia?
O setor industrial será o que mais vai sofrer com a concorrência europeia, mas acredito que é um acordo muito benéfico para o Brasil. Já os setores de serviços e o agrícola serão os mais beneficiados. Outros dois setores que podem se beneficiar do acordo são os de fármacos e de e de alta tecnologia, por meio de parcerias entre os dois blocos econômicos. As tarifas impostas pelos EUA deram ao Mundo a oportunidade de melhorar o comércio multilateral e ajudaram o Brasil a se aproximar de novos mercados. Precisamos aproveitar esse rearranjo econômico global para buscar novos parceiros comerciais.
4- O fim da Jornada 6×1 tem sofrido resistências. Empresários temem o aumento de custo com o pessoal, enquanto trabalhadores defendem a mudança para resguardar a saúde mental e o convívio familiar. Como equilibrar esses dois pontos?
A pessoa trabalhar cinco dias e ter outros dois para descansar e conviver com a família é o desejável. Mas é preciso haver um tempo para implantar esse modelo, para que as empresas, principalmente as micro e pequenas, possam se organizar. Isso não significa postergar a mudança por décadas. Porém, sem esse período de adaptação, muitas empresas fecharão, os gastos aumentarão rapidamente e quem vai pagar é o consumidor final. É necessário um plano de implementação calcado em estudos que analisem a viabilidade da mudança no médio prazo, para termos o menor impacto possível.
5- O avanço tecnológico pode ajudar a reduzir os custos temidos pelos empresários?
Sim, mas precisamos saber o nível de desenvolvimento dessas tecnologias para aferir o quanto, e como, elas ajudarão a reduzir custos operacionais. É preciso haver coordenação entre esses movimentos, para não prejudicarmos as empresas, principalmente as menores. A Economia brasileira tem crescido por volta de 2,5% ao ano — o que não é grande coisa, mas é melhor do que foi registrado no passado — e o nível de desemprego está bastante baixo. Esses fatores ajudam, mesmo que minimamente, mas ainda assim são características e circunstâncias que precisam ser administradas a médio prazo para não prejudicarmos a Economia.

