Importante analisar essa situação a partir de três pontos de vista centrais: a chance de escalada nestes próximos dias, o cenário geopolítico envolvendo Lula, BRICS e China, e os reflexos econômicos, especialmente sobre petróleo, acentuando o que isso representa para o Brasil.
1) Escalada e a janela de 72 horas
Já saímos de uma crise administrável e entramos em um cenário que pode escalar para uma guerra maior, rapidamente. Estamos assistindo a movimentos de grande porte dos EUA e de Israel na terra iraniana. O discurso na capital norte-americana está falando em mudança de governo no Irã, e a resposta do regime iraniano está sendo sentir. Isso está colocando um recado a todos nós de que a situação deixou de ser controlada e passou a ser tratada como um conflito existencial.
A chance de um conflito se tornar uma guerra multifrontal existe. Além do conflito direto entre EUA, Irã e Israel, Líbano, Síria, Iraque e Iêmen podem se envolver por meio de grupos que se alinham ao regime iraniano e atacam bases norte-americanas, infraestrutura de energia e interesses israelitas ou ocidentais.
Para os próximos dias, a questão central é que, se os iranianos chegarem à conclusão de que o objetivo real é derrubar seu regime, eles vão abandonar a contenção e ir para uma escalada consciente que torne o conflito mais custoso para EUA, Israel e seus aliados.
2) Cenário político: sem saída fácil
Politicamente, os atores principais estão atados a situações difíceis de se revertê-las sem um preço interno. A retórica dos EUA apela à destruição das capacidades militares iranianas, ao mesmo tempo em que apela explícita e inequívocamente à mudança de regime no Irã, enquanto o regime iraniano apela à resistência de longo prazo e responde com ações militares concretas.
Os mecanismos de negociação discretos quase se paralisaram. A Europa não se concentra em construir soluções de longo prazo, mas em garantir que a situação não saia completamente das mãos de todos. Há um vácuo de ‘saídas negociadas’, mas ao mesmo tempo se torna mais relevante a atuação dos países que conseguem se aproximar dos EUA, Irã, Rússia, Europa e China, mesmo sem garantias de resultados imediatos.
3) Lula e Trump: Tarifas, Minerais Críticos, Narcotráfico e o Fator Irã
A conversa entre Lula e Trump originalmente se concentraria em três questões técnicas – Tarifas, Minerais Críticos e Narcotráfico. O Brasil tem um interesse direto nessa questão devido ao acesso aos mercados, à construção de cadeias de valor dos minerais críticos e à cooperação em inteligência e controle de fronteiras.
Com o agravamento da situação no Irã, há agora uma nova camada de percepção dos EUA. O histórico de relacionamento amistoso do Brasil com o Irã e com os BRICS pode se tornar relevante num cenário no qual os EUA precisarão aumentar a pressão política e diplomática sobre o regime iraniano.
Isso tende a afetar a conversa em três dimensões. Em primeiro lugar, no clima político, se o Brasil for considerado muito ambíguo em relação ao conflito, a disposição dos EUA para fazer concessões em questões sensíveis como tarifas ou projetos de exploração de minerais estratégicos tende a diminuir.
Em segundo lugar, na agenda de prioridades, no clima de guerra, questões de segurança e alinhamento estratégico tendem a dominar, enquanto questões econômicas tendem a passar para um segundo plano.
No clima político doméstico nos EUA, se houver a percepção de que o Brasil está “demais próximo” de um país com portas abertas para o Irã, isso pode ser explorado politicamente nos EUA.
Por outro lado, uma postura brasileira bem calibrada, que defenda soluções políticas e o respeito ao Direito Internacional, mas mantenha uma postura pragmática e empresarial perante o tema de tarifas, minerais críticos e narcotráfico, ajuda a evitar que o diálogo com o Irã se torne um bloqueio geral.
A capacidade do Brasil de dialogar com vários lados pode ser apresentada como um ativo diplomático, aumentando o universo de interlocução sem se comprometer com um dos lados.
4) BRICS e China: onde o Brasil se encaixa
No contexto dos BRICS, há uma tendência clara de condenar o uso exagerado da força e defender soluções políticas, cada um com sua própria interpretação. A Rússia tende a enfatizar o impacto na ordem internacional. A China destaca o cessar-fogo, a soberania e o retomo às negociações, mantendo uma imagem de um ator que valoriza soluções políticas e estabilidade.
O Brasil é o país que tradicionalmente defende o multilateralismo, o diálogo e o fortalecimento do internacionalismo. Além disso, é um dos poucos atores do Sul Global com acesso de alto nível aos EUA durante o conflito. Embora isso possa dar destaque ao Brasil, também pressupõe que o país balance o multilateralismo com o bilateral na sua relação com os EUA.
A partir da perspectiva de Pequim e dos outros BRICS, espera-se do Brasil que se alinhe aos princípios básicos da política externa do país, como a não interferência, solução pacífica de controvérsias e respeito ao Direito Internacional. Embora haja uma clara distinção entre retórica e prática na sua relação com os EUA, é fundamental manter uma linha de atuação consistente.
5) Petróleo, mercados e exposição do Brasil
A situação geopolítica é a gás que aciona o choque de petróleo que estamos assistindo. As tensões no Estreito de Ormuz já afetam os preços do petróleo, o que afeta a inflação esperada e a exposição de risco dos mercados. Se a situação na região piorar, o choque de petróleo que estamos assistindo pode piorar.
Independente do que ocorra na situação específica do Estreito de Ormux, a tendência é uma base mais alta para preços do petróleo, o que afeta derivados como combustíveis, frete, fertilizantes e custos de produção. Se a situação na região piorar significativamente, o choque de petróleo pode piorar, afetando diretamente a inflação global, a política monetária dos países desenvolvidos e a exposição de capitais para emergentes.
Para o Brasil, a situação afeta de duas maneiras. Por um lado, a exposição do Brasil como um grande produtor e exportador de petróleo afeta a política de trocas favoravelmente. Por outro lado, a situação afeta a política monetária brasileira de forma negativa.
O aumento dos preços do petróleo afeta a inflação brasileira. Além disso, a incerteza global afeta a volatilidade cambial brasileira e a exposição de capitais para investimentos brasileiros.
6) Implicações para o Brasil: política, economia e diplomacia
O desafio brasileiro é triplo, especialmente no âmbito econômico, onde governo e empresas precisam rever suas premissas de preços de petróleo, frete e seguro, mapear suas exposições às cadeias de suprimento relacionadas ao Oriente Médio, e considerar os efeitos de um possível ambiente de juros e câmbio ainda mais volátil.
No plano interno, o governo precisará equilibrar os tradicionais princípios da política externa brasileira com a necessidade de manter o diálogo construtivo tanto com os EUA quanto com o BRICS. Será testada a coerência e a previsibilidade do discurso do Brasil em fóruns internacionais e na sua relação com o governo dos EUA.
No plano diplomático, o Brasil tem uma oportunidade qualificada para se apresentar como o mediador capaz de falar com todos e, em particular, com o Irã, sem precisar apoiar nenhuma das partes. Ele pode se concentrar em assuntos como as negociações nucleares e a segurança regional, ao mesmo tempo em que lida de forma pragmática com as tarifas, os minerais e o combate ao narcotráfico com o EUA.
Se o Brasil lograr essa posição, o histórico de relações cordiais com o Irã e sua participação no BRICS podem ser vistos como uma vantagem para o diálogo e não como uma desvantagem.
Para o setor privado brasileiro, em especial no setor de energia, agronegócio, logística e cadeias globais, o caminho é reforçar a análise de risco geopolítico, as premissas de preços de insumos e o acompanhamento da dinâmica de juros e câmbio.

