Na manhã deste sábado (28), regiões iranianas acordaram em meio bombardeios, na mesma semana em que ocorreram negociações em Genebra para minimizar a tensão norte americana sobre o Irã. Especialistas da Chatham House (Royal Institute of International Affairs), influente centro de pensamento independente sediado em Londres, analisam inicialmente os impactos dos ataques.
Sanam Vakil, diretora do Programa para o Oriente Médio e Norte da África, ressaltou que o momento é crítico e que o povo iraniano ainda sofrerá mais retaliações.
“Estamos diante de um momento crítico que remodelará a região e terá profundas repercussões para o próprio Irã. O povo iraniano sofrerá as principais consequências.”
Para a liderança iraniana, a atual disputa ultrapassa a ideia de uma crise temporária ou de incidentes isolados que podem ser pausados e retomados conforme a conveniência. O que está em jogo nesta etapa é a própria sobrevivência institucional do regime, adquirindo um caráter existencial que dificulta qualquer saída diplomática célere.
Embora Donald Trump tenha construído sua base política criticando as intervenções externas dos EUA e a invasão do Iraque em 2003, sua postura em maio de 2025 revelou uma guinada. Durante sua passagem pelo Golfo, o presidente americano assegurou que as políticas de ocupação haviam acabado, mas definiu o embate presente como o desfecho de 47 anos de atritos constantes com a República Islâmica.
O norte-americano sustenta que o governo de Teerã tem agido sistematicamente para solapar a estabilidade regional e os interesses de Washington. A estratégia atual parece ir muito além de uma tentativa de forçar o Irã a retornar às negociações. Trump busca, aparentemente, reescrever as regras desse antagonismo histórico, tentando consolidar uma vitória definitiva que sirva como o pilar de seu legado político.
Alvos militares e a estrutura de poder
As operações militares têm como foco pontos nevrálgicos do país:
- Complexos de desenvolvimento nuclear
- Sistemas de lançamento de mísseis balísticos
- Redes de radares e vigilância
- Centros de alta liderança e comandos militares
O propósito desses ataques não é atingir capacidades secundárias, mas sim desferir um golpe letal na organização governamental e de segurança nacional. Contudo, surge o paralelo histórico com 2003: derrubar a cúpula de um país é uma tarefa menos complexa do que gerir as consequências e reconstruir a ordem política subsequente.
Transição e estabilidade
A utilização do discurso de “liberdade para os iranianos” é uma ferramenta retórica poderosa, mas a realidade prática de implementar mudanças políticas profundas sob o impacto de bombas e fragmentação social é incerta. A força militar externa, embora capaz de debilitar o Estado, não é uma geradora automática de alternativas governamentais sólidas.
Mesmo que a queda de um governo hostil traga benefícios estratégicos imediatos para Israel, não há promessa de paz ou melhoria de vida para a população local. A história demonstra que o intervalo entre a queda de uma autocracia e a formação de uma democracia é, frequentemente, o período de maior perigo para uma nação.
O Irã apresenta características que o afastam do cenário iraquiano de décadas atrás. O país possui:
- Instituições estatais consolidadas
- Uma fundação ideológica profunda
- Redes de influência regional extensas
Apesar de possíveis brechas na cúpula, o regime demonstrou experiência em operar sob cerco. A rapidez da resposta militar iraniana, menos de quatro horas após as primeiras investidas, aponta para um planejamento estratégico e coordenação prévios.
Teatro de operações
A decisão de Teerã de contra-atacar Israel e as monarquias do Golfo indica uma preferência pela ampliação do conflito em detrimento da absorção passiva dos danos. Na visão do regime, se a existência do sistema está ameaçada, não há lógica em manter a guerra contida.
Ao regionalizar a crise, o Irã aumenta o custo para os parceiros dos EUA e sinaliza que o desmantelamento de sua estrutura terá consequências para todo o Oriente Médio, podendo envolver aliados como os houthis.
O risco de uma confusão estratégica aumenta devido aos diversos objetivos simultâneos dos EUA: frear o programa atômico, destruir mísseis e incentivar insurgências populares. Enquanto isso, as nações vizinhas demonstram apreensão com os ataques atribuídos ao Irã, enquanto Teerã tenta rotular esses Estados como cúmplices da ofensiva americana.
O cenário atual reúne todos os componentes de uma guerra de longa duração, contrariando as promessas iniciais de Trump. Mesmo uma eventual remoção do Aiatolá Ali Khamenei pode não ser suficiente para desarticular o poder, visto que a Guarda Revolucionária possui controle econômico e militar para sustentar a estrutura com novos nomes.
Além disso, o apoio externo a manifestantes é incerto. Protestos passados deixaram milhares de feridos sem que surgissem lideranças capazes de conduzir uma transição política.
Rompimento das tradições diplomáticas
Laurel Rapp, do Programa para os EUA e América do Norte, destaca que a declaração de guerra de Trump para derrubar o governo rompe com décadas de tradição diplomática americana. Washington aposta na premissa arriscada de que o povo iraniano se revoltará imediatamente. Se essa sublevação não ocorrer, os EUA ficarão presos entre a retirada desonrosa ou a escalada indefinida.
Embora as ameaças representadas pelo arsenal iraniano sejam reais, o pacto anterior (JCPOA) havia conseguido mitigar os riscos nucleares sem recorrer a custos militares humanos e financeiros. Agora, a busca por vitórias rápidas pode entrar em conflito com o mandato popular de Trump de evitar “guerras intermináveis”.
Marion Messmer ressalta que o uso da força sempre que a diplomacia não atende às expectativas de Washington cria um precedente que pode afastar futuras negociações globais.
Especialistas como Marc Weller argumentam que as justificativas de Trump carecem de base legal no Direito Internacional, uma vez que não havia uma ameaça de ataque iminente contra solo americano ou israelense que configurasse legítima defesa.

