A escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos acendeu um alerta na indústria de carne bovina do Brasil. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne Bovina (Abiec) calcula que até 40% das exportações brasileiras podem ser impactadas caso os entraves na região se prolonguem.
Atualmente, o Oriente Médio representa uma quantia pequena do volume exportado diretamente (cerca de apenas 10 a 15% do total), mas o peso da região vai além do consumo local.
Sem rotas marítimas diretas para parte do mercado asiático, embarques brasileiros costumam fazer escalas técnicas na região. Portos como os de Bahrein, Catar, Omã e Emirados Árabes funcionam como plataformas logísticas para cargas que seguem rumoa China, principal destino da carne brasileira.
Com o agravamento do conflito, no entanto, companhias marítimas podem recusar cargas destinadas ao Oriente Médio ou que prevejam parada nesses portos. As informações são do Agro Estadão.
O impacto logístico é o principal gargalo
Segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa, o problema não é apenas comercial, mas estrutural.
A região se consolidou como hub estratégico para redistribuição global de cargas. Se essa engrenagem trava, o efeito se espalha por diferentes destinos. Além das interrupções, os custos aumentam.
De acordo com o UOL, as empresas que mantêm operações lá já estão cobrando uma chamada “taxa de guerra”, que pode chegar a US$ 4 mil por contêiner. Soma-se a isso a alta do petróleo, que pressiona fretes, e o encarecimento dos seguros para navios que transitam por áreas consideradas de risco.
A equação se torna ainda mais delicada porque a carne bovina é uma commodity sensível a margens. Pequenas variações logísticas podem comprometer contratos fechados com antecedência.
A guerra pode afetar a “totalidade das carnes que vão para aquela região, 30% até, em alguns casos, 40% do que a gente exporta do mundo todo pode ser impactado pelos efeitos da guerra”, pontuou Roberto.
Risco de excesso de oferta no mercado interno
Segundo cálculos da Abiec, o impacto financeiro pode representar até US$ 6 bilhões de prejuízo ao setor. “Somente para aquela região nós exportamos cerca de US$ 2 bilhões no ano passado, mas por aquela região toda passam de US$ 5 a 6 bilhões, com uma grande dificuldade de realocação”, analisa Perosa.
O Brasil projeta exportar cerca de 3 milhões de toneladas de carne bovina em 2026.
Se até 1 milhão de toneladas tiver o fluxo comprometido, o setor pode enfrentar dificuldade para redirecionar rapidamente esse volume. Isso porque a região do Oriente Médio é também um dos principais destinos da carne brasileira, segmento no qual o país é líder mundial.
Não há, no curto prazo, mercados alternativos capazes de absorver essa quantidade. Caso o impasse persista, frigoríficos podem rever o ritmo de abate para ajustar oferta e demanda, no entanto, esse movimento teria efeito direto sobre o preço de toda a cadeia pecuária, do produtor ao exportador.
“Se esse mercado ficar fechado e tiver problema de logística, como está aparentando ter, nós teremos claramente um problema e não conseguiremos entregar essa carga, causando diversos efeitos no Brasil, sobre a demanda e sobre a oferta, que podem impactar o mercado e toda cadeia pecuária”, finalizou.
O cenário se soma a outros desafios
O momento já era considerado desafiador para a carne bovina brasileira. A limitação de cotas pela China e o ambiente geopolítico mais instável adicionam camadas de incerteza ao comércio exterior.
Quanto mais prolongado, maior a pressão sobre contratos, custos logísticos e planejamento de produção. Por ora, o setor monitora as rotas marítimas e avalia alternativas operacionais.
Mas a dependência logística da região reforça como conflitos geopolíticos podem ter efeitos diretos sobre a cadeia produtiva brasileira; mesmo quando o destino final não está no epicentro da guerra.

