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Justiça

Saiba como fica Macapá após Dino afastar prefeito e vice por corrupção na Saúde

Decisão de Flávio Dino, do STF, afastou Dr. Furlan e Mario Rocha de Matos Neto por 60 dias

Saiba como fica Macapá após Dino afastar prefeito e vice por corrupção na Saúde

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou na quarta-feira (4) o afastamento imediato do prefeito de Macapá (AP), Antônio Paulo de Oliveira Furlan (Dr. Furlan), e do vice-prefeito, Mario Rocha de Matos Neto, por 60 dias. Dino explicou que o afastamento é necessário para interromper a reiteração criminosa e evitar a obstrução das investigações.

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A decisão também liberou busca e apreensão nos endereços dos investigados, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Furlan, da primeira-dama e de outras 10 pessoas no período de 2024 a 2026, e proibiu os políticos e servidores afastados de frequentarem as dependências da prefeitura ou de acessarem sistemas municipais.

Além dos chefes do Executivo, foram afastados a secretária de Saúde, Érica Aranha de Sousa Aymoré, e o presidente da Comissão Especial de Licitação, Walmiglisson Ribeiro da Silva. Dino tomou a decisão com base em investigações sobre um esquema de direcionamento de licitações para desvio recursos federais destinados à construção do Hospital Municipal da capital do Amapá.

A investigação da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) integra um conjunto de apurações sobre o uso de R$ 128,9 milhões enviados a Macapá nos últimos anos por meio de “transferências especiais”.

Saques em espécie

Segundo relatórios da Polícia Federal citados na decisão, uma licitação de quase R$ 70 milhões foi organizada para ser um “simulacro de competição”. A PF encontrou 117 Composições de Custo Unitário (CCUs) na proposta da empresa vencedora, Santa Rita Engenharia Ltda., que eram rigorosamente idênticas ao orçamento interno da prefeitura.

A perícia técnica afirmou que a probabilidade estatística de isso ocorrer sem acesso privilegiado é “virtualmente nula”. Outras licitantes, como a Fourdigi Soluções e a CJC Construções, não possuíam histórico no ramo de engenharia pesada e apresentaram propostas tecnicamente inaptas, servindo apenas para dar aparência de legalidade ao certame.

O edital proibiu a participação de consórcios e exigiu qualificações técnicas irrelevantes para a obra, o que, segundo a investigação, serviu como um “filtro indevido” para beneficiar a Santa Rita Engenharia.

A PF e o MPF detalharam uma sistemática “anômala” de movimentação financeira logo após os repasses da prefeitura à construtora. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, os sócios da Santa Rita Engenharia, Rodrigo de Queiroz Moreira e Fabrizio de Almeida Gonçalves, realizaram saques que somam quase R$ 10 milhões em espécie.

Em um dos episódios monitorados, a PF registrou um saque de R$ 400 mil realizado em 23 de maio do ano passado por Rodrigo Moreira. O dinheiro foi transportado em uma mochila preta para um laboratório de propriedade de um ex-senador, local de acesso restrito e sem relação com as obras.

Relatórios de inteligência indicam que veículos de propriedade do prefeito Dr. Furlan e funcionários de uma empresa a ele vinculada (Instituto de Medicina do Coração Ltda.) teriam sido utilizados no transporte desses valores ilícitos.

Desdobramentos políticos

Com o afastamento simultâneo do prefeito Dr. Furlan e do vice-prefeito Mario Rocha, quem assumiu interinamente o comando da Prefeitura de Macapá foi o presidente da Câmara Municipal da capital, vereador Pedro DaLua (União Brasil).

Pedro DaLua tomou posse na manhã da quarta-feira (4), poucas horas após o afastamento dos titulares pela Polícia Federal. O ato ocorreu na sede da Câmara Municipal e, em seu pronunciamento, o vereador destacou que sua gestão interina visa “garantir a continuidade dos serviços públicos” e que está apenas cumprindo o rito legal previsto na Lei Orgânica do Município.

A ida de Pedro DaLua para o Executivo fez com que a presidência da Câmara Municipal de Macapá passe a ser exercida pela vice-presidente da Casa, a vereadora Margleide Alfaia (PDT).

Logo após o afastamento, o prefeito Dr. Furlan enviou uma carta de renúncia à Câmara Municipal. Na justificativa, o ex-prefeito afirmou que a decisão visa atender a “anseios públicos” para que ele concorra a Governador do Amapá nas eleições de 2026. Legalmente, para disputar o governo estadual, o gestor precisaria renunciar ao cargo de prefeito até seis meses antes do pleito (desincompatibilização).

Embora a decisão de Dino tenha fixado o afastamento por 60 dias, a renúncia formal de Dr. Furlan altera o cenário político, podendo consolidar a vacância definitiva do cargo. Caso o vice-prefeito Mario Rocha consiga reverter seu afastamento, ele seria o próximo na linha sucessória; caso contrário, o presidente da Câmara segue no comando da prefeitura até que novas definições jurídicas ou eleitorais ocorram.

Cruzada contra as emendas

ministro do STF, Flávio Dino

As decisões de Flávio Dino sobre o pagamento de emendas parlamentares e uso de verbas federais têm marcado um dos maiores embates institucionais recentes entre o Judiciário e o Legislativo. Atuando como relator de ações que questionam a falta de transparência no uso desses recursos, Dino impôs uma série de restrições que reconfiguraram o Orçamento da União.

Em agosto de 2024, Flávio Dino determinou a suspensão total do pagamento de emendas impositivas (aquelas que o governo é obrigado a pagar). O argumento central, referendado pelo plenário do STF, era que o modelo atual violava os princípios constitucionais de publicidade e moralidade.

O foco foi as transferências especiais, conhecidas como “Emendas Pix”, nas quais o recurso cai diretamente na conta de estados e municípios sem a necessidade de convênios prévios, dificultando o rastreamento do destino final do dinheiro. O ministro estabeleceu que “dinheiro público não pode ser secreto” e que a execução orçamentária deve permitir que qualquer cidadão saiba quem indicou o recurso, para onde ele foi e como foi gasto.

Após meses de impasse, em março de 2025, o STF homologou por unanimidade um acordo entre o governo federal e o Congresso Nacional para destravar os pagamentos. O combinado prevê que o pagamento das “Emendas Pix” exige que a prefeitura ou o governo estadual cadastrem previamente um plano de trabalho no sistema do governo federal, detalhando o objeto do gasto.

O acordo também delimita que parlamentares são obrigados a registrar nominalmente a autoria das indicações, inclusive emendas de bancada e comissão, acabando com a prática de ocultação de “padrinhos” políticos. O combinado entre STF, Câmara dos Deputados e Senado define ainda que direcionamento de novos recursos deve priorizar a conclusão de projetos já em andamento.

Mas o acordo não foi suficiente, tanto que novas decisões proferidas por Dino neste mês endureceram ainda mais o controle sobre o fluxo financeiro das emendas. O ministro proibiu saques em dinheiro de contas que recebam recursos de emendas parlamentares para impedir que o dinheiro “desapareça” do sistema bancário, facilitando a lavagem de dinheiro e o pagamento de propinas.

Dino decidiu também que pagamentos a fornecedores e de salários devem ser feitos exclusivamente por meios eletrônicos rastreáveis (TED, PIX ou cartões magnéticos específicos). O ministro proibiu ainda a liberação de emendas para obras que gerem degradação ambiental ou que possuam indícios de irregularidades junto aos órgãos de fiscalização (como Ibama ou ICMBio).