O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou uma nota, nesta sexta-feira (6), detalhando tudo o que fez enquanto relatou a investigação envolvendo o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro. Toffoli foi relator da Operação Compliance Zero de 28 de novembro de 2025 a 12 de fevereiro de 2026, quando foi substituído por André Mendonça, após muita pressão por sua saída.
No texto, Toffoli rebate as acusações que recebeu sobre impedir o acesso da Polícia Federal (PF) às provas coletadas nas operações. O ministro conta que prorrogou a pedido da PF o inquérito do Caso Master por 60 dias em 16 de janeiro de 2026 e que só recebeu o material um mês depois.
“Embora tenha determinado em 12 de janeiro que a Polícia Federal encaminhasse o material extraído dos aparelhos para garantir o acesso das defesas conforme a Súmula Vinculante 14, nada havia sido enviado ao tribunal até 12 de fevereiro de 2026”, diz Toffoli.
A PF pediu mais tempo para analisar o material alegando o volume apreendido: “dez celulares, computadores e oito terabytes de arquivos”. As provas só foram entregues pela PF após a segunda fase da Compliance Zero.
Em 6 de janeiro, diz Toffoli, foram autorizadas “centenas de quebras de sigilo bancário e fiscal, buscas e apreensões”, além da prisão temporária de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e o “bloqueio de mais de dois bilhões de reais em bens”. A segunda fase da operação foi deflagrada em 14 de janeiro, e Toffoli diz que “ordenou que o material apreendido fosse enviado aos agentes investigatórios”.
O ex-relator do Caso Master cita também o recebimento do processo enviado pela 10ª Vara Federal de Brasília, onde a ação judicial contra a instituição financeira e seu dono começou a tramitar. Toffoli afirma que os documentos “foram recebidos em 19 de dezembro de 2025 sem informações sobre o conteúdo de aparelhos celulares” e que o “inquérito foi autuado no Supremo Tribunal Federal em 22 de dezembro”.
Caso Master

O Caso Master desdobrou-se em uma série de investigações que revelaram desde fraudes financeiras bilionárias até a existência de uma estrutura clandestina de intimidação. A crise culminou na liquidação judicial da instituição pelo Banco Central (BC), em novembro de 2025, e com a prisão de Vorcaro em duas ocasições, no ano passado e neste mês.
As investigações da PF apontaram que o banqueiro liderava uma milícia privada chamada de “A Turma”. A organização criminosa servia para ameaçar desafetos, monitorar autoridades e influenciar publicações na imprensa e nas redes sociais mediante pagamentos regulares.
Mensagens extraídas de aparelhos celulares revelaram ordens de Vorcaro a Luiz Phillipi Mourão, capanga conhecido como “Sicário”. O dono do Master falava em agredir um jornalista de O Globo, simulando um assalto para “quebrar os dentes”.
Sicário, apontado pela PF como o operador da “milícia” de Vorcaro, foi preso na operação desta semana e morreu logo após ser preso, após uma tentativa de suicídio na prisão que está sendo investigada pela Polícia Federal.
Fraudes e Colapso Financeiro

A fraude do Master é estimada em dezenas de bilhões de reais. A primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, apurou a venda de carteiras de crédito falsas ao Banco de Brasília (BRB) e estimou um rombo de R$ 12 bilhões — que hoje pode chegar a R$ 30 bilhões.
A última fase da investigação resultou no bloqueio de R$ 22 bilhões em bens do grupo capitaneado por Vorcaro. Até agora, só o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) gastou cerca de um terço de seu caixa para cobrir prejuízos de R$ 37,2 bilhões a 650 mil credores.
Mas nem todos os negócios feitos por Vorcaro são garantidos pelo FGC, como as operações em letra de crédito firmadas entre o Master e fundos de pensão de servidores públicos municipais e estaduais, do Executivo e do Judiciário.
Essas operações com fundos de pensão levaram fizeram a investigação atingir a Política e o Judiciário. Mensagens de Vorcaro demonstraram o trânsito do banqueiro no Congresso, no Governo e no STF. A defesa de Daniel Vorcaro nega todas as acusações, afirmando que o empresário sempre colaborou com as autoridades e que as mensagens foram tiradas de contexto.

