A Polícia Federal (PF) investiga um esquema de triangulação financeira envolvendo o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, Daniel Vorcaro, do Banco Master, a gestora Reag e o escritório de advocacia de Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal. As informações são dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo.
As apurações indicam que o BRB utilizou operações de aumento de capital para financiar a compra de R$ 21,9 bilhões em carteiras de crédito do Master — das quais R$ 12,2 bilhões são consideradas fraudulentas. Costa é suspeito de viabilizar a entrada de novos acionistas no Banco de Brasília.
Segundo a PF, fundos como Verbier, Cabreúva, Borneo e Delta, criados especificamente para a operação, adquiriram 23,5% do capital do BRB. Esses fundos são vinculados à Reag e ao grupo controlado por Vorcaro no Master.
Investigadores apontam indícios de que Costa teria falsificado documentos e indicado pessoalmente os fundos compradores, mantendo comunicação direta com o dono do Master mesmo após proibições impostas pelo Banco Central.
A relação entre o governo do Distrito Federal e as instituições investigadas inclui transações comerciais do escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria. Em maio de 2024, o escritório do governador vendeu R$ 38 milhões em honorários de precatórios ao fundo Reag Legal Claims (atual Pedra Azul).
O diretor deste fundo, Marcos Ferreira Costa, é o mesmo representante que votou em assembleias do BRB em nome do fundo Borneo. A defesa de Ibaneis Rocha afirma que o governador está afastado das atividades do escritório desde 2018 e que ele não participou de negociações com a Reag.
A Reag e o Banco Master sofreram liquidação extrajudicial pelo Banco Central devido a graves violações de normas financeiras. Além das fraudes bancárias, a Reag é alvo da Operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro.
O rombo bilionário levou a Câmara Legislativa do DF a aprovar um projeto de capitalização de R$ 6,6 bilhões e a cessão de imóveis públicos para evitar a falência ou federalização do BRB. Atualmente, as ações do banco controladas pelos investigados estão bloqueadas pela Justiça Federal.
A participação da Reag

A Reag e seu fundador, João Carlos Mansur, entraram no radar da Polícia Federal (PF) graças a investigações sobre um esquema de fraudes financeiras, desvio de recursos e manipulação de garantias envolvendo o Banco Master, o Banco de Brasília (BRB), postos de gasolina e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Reag, segundo a PF, permitia a circulação de capitais entre essas instituições e empresas de fachada ou parceiras. As investigações ganharam corpo com as operações Compliance Zero e Carbono Oculto, que investiga o uso de refinarias e postos de combustível para lavar o dinheiro do crime organizado.
De acordo com as apurações, o Master emprestou vultosas quantias a empresas que, imediatamente após receberem o crédito, aportavam esses mesmos valores em fundos geridos pela Reag. O Banco Central (BC) e a PF suspeitam que essa triangulação servia para “inflar” o patrimônio da Reag e ocultar a origem e o destino dos recursos.
João Carlos Mansur é identificado pela PF como o articulador dessas movimentações junto a figuras como Vorcaro, porque teria viabilizado um aporte de R$ 1 bilhão no BRB, operação que levantou suspeitas de favorecimento e falta de transparência sobre a origem do capital.
Mansur passou a ser investigado pela PF por sua proximidade com operadores financeiros que também são alvo dos agentes federais e por sua participação em negociações que envolveram aportes bilionários. Fundos ligado à Reag, como o Hans 95, são investigados por registrar ganhos milionários em operações com títulos sem liquidez.
A PF suspeita que esses fundos eram usados para lavar dinheiro ou gerar prejuízos artificiais em algumas pontas para garantir lucros exorbitantes em outras. A atuação da Reag e de Mansur gerou efeitos, um deles na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que paralisou a análise de processos envolvendo o registro de novos fundos e ofertas públicas ligados ao grupo Master até a conclusão das investigações.
Outro efeito da atuação da Reag foi sua liquidação extrajudicial pelo BC no dia seguinte a uma operação da PF mirar a empresa. A liquidação ocorreu após o Banco Central descobrir que a corretora possuía ativos sem garantia real, que a empresa facilitou operações que não seguiam os protocolos de conformidade (compliance) e ouvir do Master que garantias ligadas a ativos da Reag não têm lastro.
O BRB e o Master

A relação entre o BRB e o Master fundamentou-se em operações enovolvendo “ativos podres“. O banco de Vorcaro repassou ao BRB o risco das carteiras de crédito de baixa qualidade para transformá-lo em liquidez.
O interesse do BRB nessas transações levantou questionamentos sobre a governança e os critérios técnicos adotados pela diretoria do banco estatal ao aceitar ativos que outros players do mercado evitavam.
As investigações apontam que a conexão entre o BRB e o Master era sustentada por um grupo de influenciado por Vorcaro. Enquanto o Master utilizava o BRB para dar vazão e liquidez a certas operações, o Banco de Brasília usava o parceiro para estruturar negócios de alta complexidade que auxiliavam na expansão de seus números contábeis.
Em alguns casos, o Master utilizava sua experiência em estruturação de fundos para “maquiar” a qualidade desses créditos antes de oferecê-los ao BRB. Essa relação entrou no radar das autoridades de controle, como o Banco Central e o Ministério Público, devido ao risco sistêmico e ao potencial dano ao patrimônio público do Distrito Federal.
Esse contexto alimenta o temor de que o rombo do BRB junto ao Master seja maior do que o divulgado, pois o Banco de Brasília pode ter que arcar com outros R$ 21 bilhões comprados de Vorcaro porque essas carteiras não estão sendo compradas.
O que se sabia até então é que o BRB teria que absorver um rombo de R$ 8,9 bilhões em carteiras de títulos podres compradas do Master — a dívida inicial era pouco maior do que R$ 12 bilhões, mas parte desse montante foi devolvido ao banco de Daniel Vorcaro.
Como isso afeta Ibaneis?

Ibaneis Rocha é citado como o principal fiador político da gestão do BRB liderada por Paulo Henrique Costa. Sob o governo Ibaneis, o banco estatal adotou uma estratégia de expansão agressiva e nacionalização da marca, o que incluiu parcerias e operações de crédito com o Banco Master.
As investigações da PF apuram se essa proximidade permitiu que o Master utilizasse o BRB para dar vazão a ativos de baixa qualidade, os chamados “ativos podres”, em troca de apoio e influência no cenário político do Distrito Federal.
Essas apurações motivaram a oposição a Ibaneis na Câmara Legislativa do DF a pedir o impeachment do governador. Mas Ibaneis Rocha tem a seu favor a aliança com a presidência da Casa, ocupada por Wellington Luiz.
Luiz tem dito à oposição na CLDF que os pedidos de impeachment apresentados contra Ibaneis estão parados na procuradoria da Câmara e que só vai liberar a tramitação dos processos após a análise técnica pelos advogados da Casa.
A situação de Ibaneis evidencia o custo político do Master, pois as investigações sugerem que o governador do DF sabia dos movimentos de Vorcaro. A menção ao nome de Ibaneis Rocha nas investigações foca na omissão política para que negócios de risco fossem levados adiante.

