O retorno de Donald Trump à Casa Branca trouxe de volta uma estratégia polêmica na política externa dos EUA: classificar organizações criminosas como grupos terroristas.
Desde o início de seu novo mandato, o governo americano já aplicou esse rótulo a 14 organizações da América Latina e do Caribe, e agora avalia fazer o mesmo com duas facções brasileiras — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). As informações são do InfoMoney.
A possibilidade abriu uma frente de tensão diplomática com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e pode ter impacto direto na cooperação internacional contra o crime organizado.
O que é o rótulo de terrorista?
Nos Estados Unidos, a classificação como organização terrorista estrangeira amplia significativamente o alcance das autoridades americanas. Entre as principais consequências estão:
- Congelamento de ativos financeiros ligados à organização ou a seus integrantes.
- Sanções e bloqueios financeiros contra pessoas ou empresas que tenham relação com o grupo.
- Proibição de apoio material, como envio de dinheiro, armas ou treinamento.
- Cancelamento de vistos e restrições de viagem para membros ou colaboradores.
- Ampliação do compartilhamento de inteligência entre países aliados.
Na prática, a designação transforma organizações criminosas em alvos prioritários da política de segurança americana, permitindo investigações mais agressivas e pressão econômica sobre suas redes.
Autoridades da diplomacia dos Estados Unidos disseram considerar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como ameaças relevantes à segurança regional. O Departamento dos Estados Unidos afirmou que tomará as medidas cabíveis contra grupos envolvidos com terrorismo, mas não informou se ou quando as facções brasileiras poderão ser oficialmente incluídas nessa lista.
Por que PCC e CV entraram no radar?
Americanos afirmam que o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho representam ameaças transnacionais, especialmente pelo envolvimento com tráfico internacional de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Segundo o Departamento de Estado, os EUA consideram as facções brasileiras uma ameaça significativa à segurança regional, embora ainda não haja decisão formal sobre a designação.
O que preocupa o governo brasileiro?
A proposta gera resistência em Brasília por diferentes razões. Uma delas é o impacto diplomático, já que o tema passou a ser considerado sensível nas discussões sobre um possível encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em Washington.
Também há preocupação com a possibilidade de ampliação da atuação dos Estados Unidos, já que organizações classificadas como terroristas costumam se tornar alvo de medidas mais duras por parte do governo americano. Além disso, diplomatas citam precedentes recentes na região: grupos como o Tren de Aragua, da Venezuela, e diversos cartéis mexicanos já receberam esse mesmo rótulo.
O debate por trás da medida
Ao tratar facções como terrorismo muda o enquadramento jurídico do problema. Em vez de crime organizado, a ameaça passa a ser tratada como segurança nacional e terrorismo internacional, o que amplia os instrumentos de combate — mas também pode gerar conflitos diplomáticos.
Se confirmada, a designação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho colocaria o Brasil no centro de uma nova fase da estratégia americana contra o crime organizado transnacional.
Corolário Trump à Doutrina Monroe
Recentemente, os EUA ameçaram “agir sozinho” nos países da América Latina. Uma fala que ganhou ainda mais peso e dilema político porque, na ocasião, o secretário americano vinculou a iniciativa ao chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, que sustenta a ideia de predominância dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Algo que, historicamente, já foi usado para justificar intervenções políticas, conflitos e ações militares na América Latina.
Como noticiado pelo O Brasilianista, para o Brasil, a nova postura de Washington traz implicações diplomáticas e estratégicas. Historicamente, o país separa as ações policiais de combate ao crime organizado das operações de defesa militar, evitando a participação direta de forças estrangeiras.
Ao mesmo tempo, a pressão dos Estados Unidos ocorre em um momento de fortalecimento de organizações criminosas transnacionais que atuam em rotas de tráfico na região amazônica. Esse cenário pode ser utilizado por Washington como argumento para ampliar sua presença na América Latina.

