A alta do petróleo provocada pelo conflito envolvendo o Irã tem impacto menor na China quando comparada a outros países asiáticos. Isso ocorre porque o país acumulou aproximadamente 1,2 bilhão de barris em reservas estratégicas e comerciais, volume suficiente para cobrir entre três e quatro meses de consumo interno e funcionar como uma proteção diante de choques no mercado internacional.
De acordo com analistas do OCBC, divulgado pelo Times Brasil, mesmo com o preço do barril ultrapassando US$ 100, a China apresenta menor vulnerabilidade a um eventual bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz do que vários de seus vizinhos na Ásia.
O país ainda depende dessa rota para cerca de 40% a 50% do petróleo que importa por via marítima, porém apenas 6,6% de todo o seu consumo de energia passa efetivamente pelo estreito, o que limita os efeitos diretos de uma interrupção.
Atualizações na matriz energética
Nas últimas duas décadas, Pequim vem adotando medidas para reduzir riscos associados a rotas marítimas sensíveis. Entre as principais iniciativas estão a construção de oleodutos terrestres, a ampliação da lista de fornecedores de petróleo e o investimento em novas fontes de energia. O objetivo é que, até 2030, as fontes não fósseis representem 25% do consumo energético do país, acima dos 21,7% estimados para 2025.
A transformação também é visível no setor de transporte. Atualmente, mais da metade dos veículos vendidos na China já pertence à categoria de elétricos ou de “nova energia”, que inclui carros, caminhões e motocicletas urbanas.
Outra frente importante é a geração de eletricidade. Petróleo e gás natural têm participação limitada (4% da matriz elétrica) enquanto carvão e fontes renováveis concentram a maior parte da produção. Em 2024, aproximadamente 80% do aumento na demanda por energia elétrica foi atendido por fontes limpas.
Foco na energia limpa
Segundo o Gizmodo, produtos como painéis solares, baterias e veículos elétricos possuem custos mais estáveis do que os combustíveis fósseis, o que amplia a competitividade da China no exterior. A indústria chinesa já produz mais do que o dobro da quantidade de painéis solares que o mercado global consegue absorver em um ano.
Paralelamente, baterias e veículos elétricos fabricados no país estão se expandindo rapidamente para regiões como Europa, Oriente Médio e América Latina. O setor de energia limpa responde por cerca de 11,4% do PIB chinês. Dentro desse segmento, veículos elétricos e baterias representam 44% do impacto econômico.
Em 2025, a China instalou aproximadamente 315 gigawatts de capacidade solar e 119 gigawatts de energia eólica, números superiores aos do restante do mundo somado.
Dependência global
Mesmo com a expansão das fontes renováveis, o país continua entre os maiores importadores de petróleo bruto do planeta. O Irã é responsável por cerca de 20% dessas compras, embora parte desse volume possa ser substituída por petróleo proveniente da Rússia, segundo o analista Ano Kuhanathan, da Allianz Trade.
O principal risco logístico continua sendo o fluxo de aproximadamente 5 milhões de barris por dia que chegam à China vindos de outros países do Oriente Médio e passam pelo Estreito de Ormuz.
Em meio às tensões recentes, o país elevou suas importações em quase 16% enquanto ampliava seus estoques estratégicos, que atingiram um recorde de 580 milhões de toneladas métricas em 2024.
Impactos econômicos
Para especialistas, o grande volume de reservas e a diversificação de fornecedores permitem que a China reduza ou adie os impactos econômicos de crises externas, enquanto a eletrificação do transporte e a expansão das energias renováveis diminuem a dependência do petróleo.
Para analistas, episódios de instabilidade no mercado energético também reforçam a estratégia chinesa de transição e ampliam sua competitividade em tecnologias limpas.
Essa posição vai de encontro com economias como a dos Estados Unidos, onde a dependência do petróleo ainda é mais elevada, deixando o país mais exposto a choques nos preços da energia.

