Uma transmissão ao vivo realizada na última segunda-feira (09) pelo streamer e comentarista político Hasan Piker, gerou mais de US$ 56 mil em doações para a campanha de Oliver Larkin, ex-integrante da equipe de Bernie Sanders que disputa as primárias contra o congressista democrata moderado Jared Moskowitz, na Flórida.
Após o encerramento da live, Larkin informou na rede X (ex-twitter) que o valor representou o maior dinheiro já obtido por sua campanha em apenas um dia. De acordo com o Wired, a ação reflete uma mudança no papel dos criadores de conteúdo dentro da política.
Nos Estados Unidos, cada vez mais influenciadores são usados, principalmente, para ampliar mensagens de campanhas políticas e agora também começam a mobilizar suas audiências para arrecadar recursos diretamente.
Casos semelhantes têm surgido em diferentes plataformas. A youtuber Trisha Paytas, que possui mais de 5 milhões de inscritos e é conhecida por conteúdos provocativos, raramente participa de debates políticos. Mesmo assim, em fevereiro ela destinou mais de US$ 10 mil à campanha Creators Against ICE.
A iniciativa foi organizada pelo coletivo Creators for Peace, grupo formado por criadores que mobilizam seguidores nas redes para financiar causas políticas. Esse formato é diferente do modelo tradicional de financiamento político nos Estados Unidos.
Os super PACs, por exemplo, concentram grandes doações e exigem divulgação pública dos financiadores. No caso das coalizões de criadores, o processo é mais descentralizado. Influenciadores utilizam suas redes sociais e ferramentas digitais já disponíveis como Shopify e Tiltify para transformar seguidores em doadores.
Os destaques da internet
Entre esses coletivos, o Creators for Peace se destacou ao reunir influenciadores engajados em diversas pautas, desde ajuda humanitária a Gaza até iniciativas de apoio a imigrantes. Para analistas, esse tipo de mobilização pode alterar a dinâmica das arrecadações populares antes das próximas eleições de meio de mandato.
Hassan Khadair, um dos organizadores do grupo, afirma que muitos criadores passaram a perceber o alcance e o impacto de suas plataformas digitais. Segundo ele, existe hoje uma pressão cultural maior para que influenciadores usem da visibilidade para incentivar mobilizações sociais e políticas.
A origem do coletivo remonta a 2024, quando a criadora Nikki Carreon enviou mensagens diretas a outros influenciadores em um grupo no Instagram com o objetivo de reunir doações para vítimas da guerra em Gaza. A iniciativa cresceu rapidamente e passou a funcionar em um servidor no Discord com mais de 120 participantes, incluindo criadores com milhões de seguidores no Instagram, Twitch e YouTube.
Entre os nomes envolvidos estão Kurtis Conner, Hasan Piker e o grupo Try Guys, que juntos acumulam mais de 15 milhões de seguidores. Em uma das campanhas organizadas pelo coletivo, os participantes divulgaram infográficos para seus públicos e realizaram uma transmissão conjunta, que terminou com mais de US$ 1,6 milhão arrecadados.
Khadair explica que cada nova campanha começa praticamente do zero. Os organizadores entram em contato com diferentes criadores individualmente e estruturam a mobilização. À medida que a iniciativa ganha visibilidade, outros influenciadores passam a aderir espontaneamente. No caso da campanha relacionada à imigração, o objetivo era alcançar públicos além da base tradicionalmente alinhada à esquerda.
Dentro dessa estratégia, criadores considerados menos politizados também foram convidados a participar, como Paytas. A campanha Creators Against ICE arrecadou quase US$ 140 mil destinados ao National Immigration Law Center.
Influenciadores digitais e a política
O envolvimento político de influenciadores digitais vem sendo discutido com mais intensidade desde 2020. Durante os protestos do movimento Black Lives Matter, seguidores passaram a cobrar posicionamentos públicos de criadores que produzem conteúdo em áreas diversas, como moda, humor ou gastronomia. Em muitos casos, a ausência de manifestação passou a ser interpretada como falta de posicionamento ou complacência.
Além das arrecadações diretas, influenciadores também passaram a financiar outras iniciativas. Perfis ligados ao grupo UnderTheDeskNews, por exemplo, levantaram recursos para adquirir apitos usados para alertar comunidades sobre a presença de agentes do ICE, além de apoiar ações de vigilância comunitária.
Outra campanha ocorreu em fevereiro, quando cerca de 80 criadores participaram de uma ação vinculada a uma apresentação do cantor Bad Bunny durante o Super Bowl. Foram vendidos itens como camisetas, bonés e adesivos com o mascote Sapo Concho, personagem associado ao artista. A mobilização arrecadou mais de US$ 100 mil, destinados a fundos de defesa jurídica para imigrantes.
Para Jenny Kay, porta-voz de uma dessas iniciativas, o sucesso desse tipo de campanha está relacionado à facilidade de participação do público. Enquanto eventos beneficentes tradicionais podem cobrar ingressos acima de US$ 250, contribuições menores, como a compra de produtos entre US$ 5 e US$ 50 que tornam a participação mais acessível. Para o Brasil, fica o exemplo e o alerta.

