Recentemente, o Grupo Pão de Açúcar e a Raízen anunciaram pedidos de recuperação extrajudicial para renegociar bilhões de reais em compromissos financeiros. Conforme noticiado pelo O Brasilianista, as empresas chegaram à situação atual pelo aumento descontrolado de suas dívidas e pelo momento de maior pressão sobre seus caixas.
O cenário chama atenção para o impacto da alta dos juros sobre grandes empresas, que têm visto suas dívidas crescerem cada vez mais e enfrentado dificuldades para atrair novos investimentos. Levantamento realizado pela RK Partners, empresa do setor de reestruturação de dívidas, observou que 24% das companhias brasileiras abertas não têm mais caixa suficiente para pagar os juros de suas dívidas.
Segundo informações do Jornal de Brasília, a alta dos juros tem impactado diretamente no nível de endividamento das empresas. Os dados, obtidos a partir da avaliação de 282 empresas com ações listadas na bolsa de valores, mostram que 23% têm alavancagem entre três vezes e seis vezes a relação dívida líquida/ebitda anual, já 24% têm alavancagem acima de seis vezes.
Segundo o sócio da RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher, os níveis de endividamento vão continuar sendo impactados enquanto a Selic permanecer elevada. “Essa é uma tendência enquanto a Selic tiver alta. As empresas estão com o balanço muito machucado. Vão ter de fazer um esforço para reestruturar o capital”, disse.
Taxa Selic
Atualmente mantida em 15% ao ano, a taxa Selic está em seu maior patamar em 20 anos. As expectativas do mercado apontam que nesta próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que acontece na terça-feira (17), pode haver uma redução de 0,25 ponto percentual nos juros. Entretanto, essas estimativas não consideravam a alta do petróleo influenciada pelo conflito entre os Estados Unidos e o Irã.
“O juro alto brasileiro está criando uma safra de empresas zumbis. A empresa zumbi é aquela que está viva, consegue operar, mas a geração de fluxo de caixa dela começa a ficar incapaz de pagar aquilo que ela tem de despesas financeiras”, afirma o presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon/SP), Haroldo da Silva.
Recuperação GPA e Raízen
No pedido de recuperação extrajudicial apresentado pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA), um dos principais varejistas alimentares da América do Sul, a empresa prevê a renegociação de R$ 4,5 bilhões em compromissos financeiros. O movimento ocorre em um cenário marcado pelo fechamento de bandeiras e de diversas lojas ao longo dos últimos anos.
Resultados apontam que, nos últimos dois anos, a companhia precisou destinar R$ 3,3 bilhões para o pagamento de encargos financeiros. Em 2025, a dívida bruta total alcançava o patamar de cerca de R$ 4 bilhões.
No mesmo sentido, a Raízen chega ao atual momento com a expectativa de pagar R$ 65 bilhões em compromissos financeiros, em um cenário influenciado pela deterioração do crédito. Em 2025, o endividamento líquido de uma das maiores produtoras de etanol e biomassa de cana-de-açúcar do mundo chegou a R$ 55,3 bilhões. As perdas financeiras registradas pela companhia se somaram ao aumento dos juros no país.

