A derrocada do conglomerado do Banco Master, de Daniel Vorcaro, não aconteceu de forma isolada. Foi resultado de uma sequência de intervenções, liquidações e prisões que se acumularam ao longo de meses.
O fim do Banco Múltiplo, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC) nesta terça-feira (17), é apenas o capítulo final de um processo mais amplo, marcado por decisões regulatórias e perda progressiva de sustentação operacional.
Tudo começou em 2025, quando investigações sobre os negócios do Banco Master passaram a atingir estruturas ligadas ao conglomerado. A partir desse momento, o ambiente de negócios se deteriorou rapidamente, com aumento da desconfiança no mercado.
As apurações avançaram sobre a atuação de executivos e controladores, ampliando o escrutínio regulatório e jurídico. Esse cenário contribuiu para decisões mais duras por parte das autoridades, tanto no campo financeiro quanto no âmbito das investigações.
Intervenções do Banco Central e efeito dominó
Paralelamente às investigações, o Banco Central iniciou uma série de intervenções nas instituições do grupo. O objetivo era conter riscos e tentar preservar parte das operações.
O conglomerado chegou a representar cerca de 0,57% dos ativos do sistema financeiro nacional, o que, apesar de limitado, envolvia um volume relevante de investidores.
As primeiras liquidações atingiram estruturas centrais, como o Banco Master S.A. e outras empresas financeiras ligadas ao grupo.
Também foram impactadas instituições de investimento e a corretora de câmbio, o que reduziu significativamente a capacidade operacional do conglomerado.
Esse movimento desencadeou um efeito dominó, em que cada nova intervenção enfraquecia ainda mais as bases restantes.
Tentativa e queda
O Banco Múltiplo passou a operar sob o Regime de Administração Especial Temporária, criado em novembro de 2025. A medida buscava manter alguma estrutura ativa enquanto se avaliavam alternativas para o grupo.
O foco da estratégia era sustentar a operação da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, considerada a principal controlada naquele momento. Mas a tentativa não se concretizou.
A situação se agravou de forma decisiva em janeiro de 2026, quando a própria Will Financeira entrou em liquidação extrajudicial. De acordo com o Banco Central do Brasil, a queda dessa estrutura eliminou a possibilidade de continuidade das demais operações ainda existentes.
Impacto sistêmico
Sem a principal empresa e já fragilizado por sucessivas liquidações, o Banco Master Múltiplo perdeu sua função dentro do conglomerado. O regime especial chegou ao fim sem sucesso, levando à decretação da liquidação extrajudicial da instituição.
Conforme já apurado pelo O Brasilianista, a decisão encerra a última operação ativa do grupo e conclui o processo de desmonte iniciado meses antes.
O impacto acumulado das medidas também atingiu o Fundo Garantidor de Crédito. Estimativas indicam que os valores a serem pagos podem chegar a R$ 49 bilhões, refletindo o volume de aplicações distribuídas entre as diferentes empresas do conglomerado.
Linha do tempo do colapso do conglomerado
2025
Início do processo de desestruturação do conglomerado financeiro, com liquidação de diferentes empresas ligadas ao grupo, incluindo banco principal, instituições de investimento e corretora de câmbio.
18 de novembro de 2025
Decretação do Regime de Administração Especial Temporária no Banco Master Múltiplo, com duração prevista de 120 dias.
21 de janeiro de 2026
Liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, considerada a principal controlada do grupo naquele momento.
12 de março de 2026
Apresentação do relatório do administrador do regime especial, indicando que não havia mais justificativa para continuidade do Banco Master Múltiplo após a liquidação da Will Financeira.
17 de março de 2026
Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master Múltiplo, encerrando a última instituição ativa do conglomerado.
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Prisões e medidas cautelares
A crise do conglomerado Master também avançou no campo criminal com a deflagração da Operação Compliance Zero, que levou à prisão de Daniel Vorcaro e de pessoas diretamente ligadas a ele. Segundo a Revista Oeste, além do banqueiro, foram detidos Fabiano Campos Zettel, apontado como apoiador direto, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, responsável por obtenção de dados sigilosos e monitoramento, e Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado considerado peça-chave no esquema.
Além das prisões, outras quatro pessoas foram alvo de medidas cautelares. Entre elas estão nomes com ligação ao Banco Central e ao setor privado, como Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor da autoridade monetária, e Belline Santana, servidor do órgão. Também foram atingidos Leonardo Augusto Furtado Palhares e Ana Cláudia Queiroz de Paiva. Todos foram obrigados a usar tornozeleira eletrônica e estão proibidos de manter contato com testemunhas ou deixar suas cidades de residência.
Caso funcionava o Master?
O Banco Master ganhou destaque no mercado ao adotar uma estratégia agressiva de captação de recursos, oferecendo rendimentos acima da média, chegando a 140% do CDI. Esse modelo contribuiu para o crescimento acelerado da instituição, mas também levantou questionamentos sobre a sustentabilidade das operações.
Em março de 2025, a tentativa de venda do banco ao Banco Regional de Brasília abriu uma nova fase da crise. A operação chegou a ser aprovada por órgãos concorrenciais, mas foi barrada pelo Banco Central sob alegação de inconsistências e riscos nos ativos. A decisão impediu a formação de um conglomerado que poderia atingir cerca de R$ 100 bilhões em ativos.
O caso ganhou dimensão ainda maior após a atuação da Polícia Federal, que identificou indícios de fraudes envolvendo cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito. As investigações apontaram a comercialização de ativos irregulares e possível simulação de solidez financeira, inclusive no contexto da negociação com o BRB.
A partir desse momento, o Banco Central avançou com medidas mais duras, incluindo a liquidação extrajudicial da instituição. A decisão marcou o início de uma sequência de intervenções que, meses depois, resultaria no desmonte completo do conglomerado financeiro.

