No momento em que o Brasil discute a possibilidade de ver o PCC e o Comando Vermelho classificados como organizações terroristas, o cenário do México costuma aparecer como referência, principalmente pelos efeitos de uma escalada no combate ao crime organizado. Desde 2006, o país adotou uma estratégia de enfrentamento direto aos cartéis, com foco na prisão ou eliminação de lideranças.
Segundo o Institute for Economics & Peace, essa política acabou provocando a fragmentação das grandes organizações criminosas, que se dividiram em grupos menores e mais violentos, ampliando as disputas por território e rotas do narcotráfico.
De acordo com o relatório, esse processo está diretamente ligado ao aumento da violência no país. Entre 2015 e 2022, os homicídios relacionados ao crime organizado saltaram de cerca de 8 mil para aproximadamente 20 mil por ano, impulsionados principalmente por confrontos entre facções rivais. Ao mesmo tempo, o número de grupos envolvidos nesses conflitos cresceu significativamente, passando de quatro organizações em 2007 para 25 em 2022.
O cenário atual do narcotráfico no México também passou por mudanças estruturais. Cartéis deixaram de depender majoritariamente de drogas tradicionais e migraram para a produção de substâncias sintéticas, como fentanil e metanfetamina, que são mais lucrativas e mais fáceis de produzir e transportar. Essa adaptação aumentou a capacidade financeira das organizações e ampliou sua presença em diferentes regiões do país.
Além do tráfico de drogas, essas organizações expandiram suas atividades para outros crimes, consolidando controle territorial e econômico em várias áreas. O crime organizado se tornou um dos principais fatores de deterioração da segurança no México, com impacto direto na estabilidade do país.
Brasil, o novo México?
Diferentemente do debate atual envolvendo PCC e CV, os Estados Unidos ainda não classificaram oficialmente os cartéis mexicanos como organizações terroristas, apesar de discussões nesse sentido. Para O Brasilianista, Raquel Gallinati, mestre em Filosofia e diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil, disse que o risco do país seguir um caminho semelhante existe, mas não é inevitável.
“O Brasil já abriga organizações criminosas que operam em lógica semelhante à dos cartéis, como PCC e CV. Essas facções ultrapassaram há muito o modelo clássico de criminalidade: atuam como sistemas organizados, com estrutura hierárquica, musculatura financeira, presença interestadual, conexões internacionais, redes sofisticadas de lavagem de dinheiro e alta capacidade de coordenação”, afirma.
De acordo com Gallinati, isso indica que o problema deixou de ser pontual e passou a ser estrutural. Ambos os países compartilham uma mesma adversidade: o enfrentamento de organizações criminosas complexas, resilientes e economicamente poderosas.
“O que levou o México a um cenário mais crítico não foi apenas a força dos cartéis, mas a combinação de fatores como fragmentação institucional, respostas descoordenadas e ausência de sufocamento financeiro efetivo”, explica.
Riscos de escalada no país
A especialista ainda alerta que o país pode enfrentar um cenário semelhante ao do México caso repita padrões de enfrentamento considerados falhos. Para ela, o risco de escalada é real se esse modelo for reproduzido.
O combate ao crime organizado, segundo a especialista, exige uma série de medidas estruturais, como asfixia financeira das organizações, integração de inteligência entre forças policiais, desarticulação logística das cadeias do crime, rigor penal consistente e políticas públicas contínuas, e não episódicas.
Sem esse conjunto de ações, organizações já estruturadas, infiltradas e com características cada vez mais insurgentes tendem a evoluir para níveis mais elevados de enfrentamento ao Estado. Ao tratar do uso das Forças Armadas na segurança pública, Gallinati avalia que a militarização pode ser útil em cenários específicos, como controle de distúrbios, operações de alta intensidade e retomada emergencial de territórios.
Ainda assim, ressalta que essa estratégia não ataca as causas estruturais do crime organizado, como os fluxos financeiros ilícitos, a lavagem de dinheiro e as cadeias logísticas do tráfico.
Facções x cartéis
Ao comparar PCC e CV com os cartéis mexicanos, Gallinati afirma que, apesar de algumas semelhanças, as estruturas não são equivalentes, embora haja pontos de convergência. Entre os elementos em comum, ela cita a atuação transnacional no tráfico de drogas, a estrutura organizada com divisão de funções e a capacidade de corrupção e infiltração institucional.
As diferenças aparecem principalmente no modelo organizacional. O PCC tem uma estrutura mais horizontalizada, com governança baseada em estatutos internos, conhecidos como “sintonia”, além de forte disciplina e padronização. Já o CV é mais fragmentado e menos centralizado.
Os cartéis mexicanos, por sua vez, apresentam uma estrutura paramilitarizada e, em alguns casos, altamente hierarquizada. No nível de violência, a distinção também é clara. Cartéis mexicanos utilizam violência extrema, pública e performática, com episódios como decapitações e confrontos armados de grande escala.
O PCC prioriza uma violência mais instrumental e seletiva, evitando exposição desnecessária, enquanto o CV oscila mais nesse aspecto, mas ainda não atinge o nível de militarização observado nos cartéis.
“Cartéis possuem armamento de guerra, controle territorial com características insurgentes. No Brasil, embora haja poder de fogo relevante, não há domínio territorial com grau de enfrentamento armado contínuo ao Estado como no México”.
Lula conversa com o México
De acordo com O Brasilianista, o governo Lula tem grande preocupação com classificação do PCC e CV como grupo terrosristas. Para tentar minimizar, Lula tem conversado com com líderes latino-americanos para discutir o combate ao crime organizado e tentar evitar a classificação imposta pelos Estados Unidos.
Segundo o Palácio do Planalto, Lula conversou com os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro e do México, Claudia Sheinbaum, países que enfrentam desafios relacionados ao narcotráfico e à violência. O governo brasileiro também defende que o tema seja tratado diretamente com o presidente estadunidense, Donald Trump.

