A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a deflagração da Operação Indébito, um desdobramento da Operação Sem Desconto, nesta terça-feira (17) mostrou que o grupo que operava a fraude no Ceará usava um escritório de advocacia para lavar o dinheiro roubado.
No centro da investigação no Ceará estão a deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB), o empresário Natjo de Lima Pinheiro e a advogada Cecília Rodrigues Mota. Segundo a Polícia Federal (PF), o trio controlava associações como AAPB, CAAP, AAPEN e PROBASP e usava laranjas para esconder o controle real dos recursos financeiros.
Pereira é apontada pelo Ministério Público Federal (MPF) como a “articuladora política” do grupo junto a órgãos públicos. Em diálogos, Gorete chegou a questionar por que os pagamentos destinados a ela precisavam passar pelo escritório de Cecília, ao que Natjo respondeu que a estrutura de advocacia trazia “moral” e legitimidade para os repasses ilícitos.
Mota é citada pela PF como a articuladora dos pagamentos por meio de seu escritório de advocacia. Mensagens interceptadas revelam que ela coordenava o pagamento de propinas a servidores do INSS cooptados por Pereira, reportando-se diretamente a Natjo.
Natjoé considerado pela Polícia Federal como o “líder e administrador financeiro” da organização. Era ele quem definia as estratégias e enviava recursos para Cecília sob a rubrica “Comissão Brasília BSB”. O dinheiro era usado para corromper agentes públicos.
O empresário também é investigado por supostamente participar do mesmo esquema de lavagem de dinheiro usado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Transferências de pouco mais R$ 33 milhões foram feitas pela empresa Solução Serv e Tecnologia LTDA, ligada a Natjo, à Pima Energia Cegonha Ltda, investigada por suposta relação com o crime organizado.
O esquema, segundo a PF, contava com a participação de André Paulo Félix Fidélis, diretor do INSS. Mensagens extraídas do celular de Cecília Mota revelam fatos o pagamento de vantagens indevidas a Fidélis para viabilizar os descontos nas aposentadorias.
A PF também detalha que Maria Gorete Pereira tinha relação próxima com Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS acusado de participar das fraudes, e com Alan do Nascimento Santos, diretor da Dataprev. Ambos foram afastados das funções públicas a pedido da Polícia Federal.
Vida de rico

com servidores e diretores do INSS (Crédito: Agência Câmara)
A investigação da PF revelou que as fraudes financiavam um estilo de vida nababesco. Cecília Mota manifestou interesse em comprar um jatinho, seguindo os passos de Natjo (veja mais na imagem abaixo). Além disso, o companheiro da advogada, Charles Goes Freitas, teria recebido um Ford Mustang Mach-E GT, avaliado em R$ 400 mil, e transferências que somam R$ 2 milhões.

Mesmo após a deflagração da Operação Sem Desconto, em abril de 2025, o grupo demonstrou “absoluto afronta e destemor”, segundo a PF, pois Cecília teria enviado fotos de um caminhão transportando um automóvel de luxo para uma entrega discreta na residência de um dos investigados.
O veículo foi entregue em 23 de abril de 2025, mesmo dia em que a PF deflagrou uma fase da Operação Sem Desconto. O carro foi entregue (veja mais detalhes na imagem abaixo) depois que os agentes federais deixaram a residência do investigado que não é identificado na decisão proferida por Mendonça na segunda-feira (16).

Maria Gorete também usou bens para dissimular o recebimento de propina. Segundo a PF, a deputada federal usou sua sobrinha, Sofia Lilia Freitas Pereira, para a compra de um apartamento de R$ 4,4 milhões.
A compra foi feita pela empresa de Sofia, a SOP Processamento de Dados, em pagamentos fracionados e ainda inacabados. Os valores dos pagos pela SOP foram de R$ 150 mil, R$ 200 mil, R$ 350 mil e R$900 mil.
Problemas no Paraíso

Apesar da união do trio para fraudar aposentados e pensionistas, disse a PF, houve rusgas entre eles. Numa das conversas com Cecília, entre Natjo afirmou ser absurdo que Gorete ficasse com 70% de uma das entidades usadas nos desvios e que a associação precisava levar uma “cipoadas”.

A PF acusa o trio de formação de organização criminosa estruturada, estelionato previdenciário, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e corrupção ativa. A investigação usa como provas para provar os crimes notas técnicas da Controladoria-Geral da UNIão (CGU), mensagens e arquivos encontrados nos celulares dos investigados, dados obtidos por meio de quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático.
Sem Desconto

As operações Sem Desconto e Indébito investigam descontos feitos ilegamente em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS por meio de associações e entidades de classe de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social.
A investigação começou após uma explosão de queixas de segurados que notaram reduções em seus benefícios sem qualquer autorização prévia. Em abril de 2025, a operação ganhou escala nacional com o afastamento de membros da cúpula da autarquia.
O esquema, segundo a Polícia Federal, era capitaneado pelo Careca do INSS, apelidado dado ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes. CGU e PF estimam que o esquema movimentou, ao menos, R$ 6,3 bilhões de 2019 até 2024. Auditorias apontaram que foram pagos mais de R$ 9 milhões em propinas.
A Justiça Federal determinou o bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em ativos dos investigados para garantir o ressarcimento das vítimas. A investigação foi enviada para o STF devido ao envolvimento de pessoas com foro privilegiado.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todos os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

