O avanço recente de pedidos de recuperação extrajudicial por grandes companhias voltou a chamar atenção para a saúde financeira das empresas no país.
Como apurado pelo O Brasilianista, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) busca renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas, enquanto a Raízen tenta reestruturar aproximadamente R$ 65 bilhões em compromissos.
Esse tipo de mecanismo permite reorganizar débitos diretamente com credores, evitando um processo judicial mais amplo e mantendo as operações em funcionamento.
Modelo depende de acordo prévio com credores
Em exclusiva para O Brasilianista, Max Mustrangi, especialista em reestruturação de empresas e CEO da Excellance, explica que a recuperação extrajudicial exige articulação antes mesmo do pedido formal.
Segundo o especialista, “ele é muito planejado nos bastidores, com os principais credores”, o que torna o processo dependente de negociação antecipada.
O especialista destaca que esses credores são, na maioria dos casos, instituições financeiras com grande participação na dívida.
“Esses principais credores geralmente são bancos e eles têm que ter um percentual muito alto da dívida”, afirmou.
Concentração facilita renegociação
De acordo com Mustrangi, a concentração da dívida em poucos agentes facilita a construção de soluções negociadas. “Em geral, acima de 60% ou 80% da dívida está concentrada”, explicou.
Esse cenário permite ajustes em prazos, condições de pagamento e garantias, com maior previsibilidade para ambas as partes.
Contrapartida financeira é exigida
O especialista afirma que a aceitação do plano depende de concessões por parte da empresa devedora. “Os bancos não vão aumentar o risco deles a troco de nada”, disse.
Segundo ele, é comum que os controladores façam aportes financeiros como parte do acordo. “Vai ter que ter contrapartida de cash dos controladores”, afirmou. Esse elemento é considerado essencial para viabilizar a reestruturação e reduzir o risco para os credores.
Pequenos negócios não acessam o mecanismo
Apesar da expansão do modelo, o acesso não é uniforme entre os diferentes portes de empresa. Segundo Mustrangi, micro e pequenas empresas não conseguem atender às exigências necessárias para esse tipo de negociação.
“Microempreendedor nem entra na brincadeira”, afirmou. Ele explica que a composição das dívidas nesses casos é diferente, com maior presença de obrigações fiscais, trabalhistas e com fornecedores.
Estrutura financeira limita alternativas
Essa característica impede que empresas menores consigam negociar com grandes credores de forma concentrada.
“Muitas vezes a principal dívida não é com banco”, explicou o especialista. Sem esse perfil, não há base para acordos estruturados como os observados em grandes grupos. O resultado é a limitação das opções disponíveis para reorganização financeira.
Dados mostram avanço da modalidade
Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Orbe), citado pelo O Brasilianista, foram registrados 78 casos em 2025.
O número representa crescimento de 20% em relação ao ano anterior. O aumento indica maior utilização do mecanismo em momentos de dificuldade financeira.
No caso do GPA, parte relevante dos recursos foi destinada ao pagamento de despesas financeiras. Entre 2024 e 2025, mais de R$ 3,3 bilhões foram usados para cobrir custos relacionados a dívidas.
A companhia também registrou receita de aproximadamente R$ 20,6 bilhões, insuficiente para equilibrar suas obrigações.
Tendência aponta continuidade
A expectativa do mercado é de que novos pedidos de recuperação extrajudicial continuem surgindo. O modelo é visto como alternativa mais ágil em comparação a processos judiciais tradicionais.
Ainda assim, o acesso permanece restrito a empresas com maior capacidade de negociação e estrutura financeira consolidada.
Segundo Mustrangi, “quando a gente fala de micro, pequena e média empresa, elas estão totalmente alijadas dessas condições”.
Cenário limita recuperação financeira
Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica, o nível atual de juros ainda impõe restrições relevantes ao funcionamento das empresas, especialmente as de menor porte.
Como divulgado pelo O Brasilianista, a Selic permanece em 14,75% ao ano, o que mantém elevado o custo do crédito no país e reduz a capacidade de financiamento.
Nesse contexto, segundo avaliação do especialista Max Mustrangi, o alívio provocado pela redução é limitado diante do volume de dívidas acumuladas e da pressão sobre o caixa, dificultando a retomada e a reorganização financeira de pequenos negócios.

