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Geopolítica

Na guerra contra o tráfico, Brasil pode virar uma Venezuela?

Embora facções criminosas cresçam, instituições fortes e contextos distintos podem reduzir o risco de colapso institucional

Na guerra contra o tráfico, Brasil pode virar uma Venezuela?

Muitos discursos políticos hoje vêm carregados de uma simples frase: o Brasil vai virar uma Venezuela. Mas a questão é até onde essa afirmação pode ser verdade. O tema ganhou força após a possibilidade dos Estados Unidos colocar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de grupos terroristas. Especialistas já ouvidos pelo O Brasilianista destacaram que os contextos dos dois países são distintos e que comparações diretas podem ser equivocadas.

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Em entrevista, Raquel Gallinati, diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (ADEPOL), diz que a ideia de que o Brasil corre risco imediato de se tornar uma Venezuela, como a prisão de Nicolás Maduro, ex-presidente do país, não tem base técnica.

“No caso venezuelano, houve vínculo direto entre o alto escalão do Estado e estruturas do narcotráfico. Aqui, o debate é sobre a classificação jurídica de facções criminosas, não sobre envolvimento institucional do governo com essas organizações”, afirmou à publicação. Segundo Gallinati, misturar os contextos cria ruído, em vez de análise concreta.

Ação militar norte-americana

A especialista ressalta que o Brasil enfrenta facções organizadas, como o PCC e CV, com atuação nacional e conexões internacionais. Ainda assim, o país mantém instituições funcionais e capacidade operacional das forças de segurança.

“O risco existe no avanço do crime organizado, mas não em uma transposição automática de cenários entre países com dinâmicas diferentes”, detalhou.

Gallinati defende que o combate a essas organizações exige reforço nas investigações financeiras e internacionais, como o rastreamento de ativos, bloqueio de fluxos financeiros, cooperação internacional e responsabilização de redes de apoio, que já existem, mas necessitam de atenção maior.

Agências como o FBI possivelmente podem se envolver com troca de inteligência e apoio técnico, caso necessário, mas sem previsão de ação militar direta no país. A possibilidade de interferência dos Estados Unidos, seja via pressão diplomática ou econômica, também é avaliada.

Para Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, o país é internacionalmente visto como politicamente estável, o que torna improvável qualquer ação militar direta.

Em entrevista ao O Brasilianista, ele explicou que medidas externas tendem a se dar por sanções e pressões comerciais, especialmente em períodos eleitorais, como 2026, quando o tema de segurança pública ganha maior relevância.

A inclusão do PCC e do CV na lista de grupos terroristas pelos EUA mudaria a percepção internacional sobre o crime organizado brasileiro, permitindo ações simbólicas e mecanismos de pressão diplomática, mas sem indicar intervenção militar direta.

Amaral ressalta que a política externa americana visa principalmente endurecer o combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado na América Latina, instrumento estratégico mais do que operacional.

Comparação com o México

No cenário comparativo com o México, onde a pergunta é “podemos virar um novo México?”, Gallinati observa que o país vizinho enfrentou, desde 2006, forte combate direto aos cartéis, resultando na fragmentação das organizações e aumento da violência territorial e homicídios.

Entre 2015 e 2022, os assassinatos relacionados ao crime organizado passaram de cerca de 8 mil para aproximadamente 20 mil por ano, segundo dados do Institute for Economics & Peace.

Apesar das semelhanças estruturais com os cartéis mexicanos, Gallinati destaca diferenças significativas: o PCC apresenta governança horizontal, estatutos internos e violência seletiva, enquanto o CV é mais fragmentado. Já os cartéis mexicanos mantêm estrutura paramilitarizada, hierarquia rígida e uso extremo e público da violência, incluindo confrontos armados de grande escala.

O governo brasileiro, mantém diálogo com países latino-americanos como Colômbia e México para discutir estratégias de combate ao crime organizado e tentar evitar que os EUA classifiquem PCC e CV como grupos terroristas.

O Planalto informou que o tema deve ser tratado diretamente com o presidente estadunidense, Donald Trump, em negociação diplomática.

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