O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia prevê a abertura substancial do comércio de bens, com redução ou eliminação gradual de tarifas que alcançam mais de 90% do fluxo comercial entre os blocos, além da definição de regras em áreas como serviços, investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual, barreiras técnicas e padrões regulatórios.
Para o governo brasileiro, o tratado amplia o acesso de produtos nacionais ao mercado europeu, aumenta a previsibilidade regulatória e fortalece a integração econômica, embora ainda dependa de aprovação do Congresso Nacional para entrar em vigor no país.
No cotidiano dos supermercados e no consumo das famílias, os efeitos tendem a ser percebidos principalmente entre as classes emergentes. De acordo com o CEO da MOOVpay, Nauro Freitas, a expectativa é de impacto positivo sobre os preços e o poder de compra.
Como ficam os supermercados brasileiros?
Estimativas do governo indicam redução de 0,52% no custo de produtos de consumo envolvidos no acordo, com ganho de 0,42% no poder de compra. Para ele, esse movimento deve ser potencializado pela queda nos preços de produtos industrializados e itens de higiene e limpeza, além da maior presença de importados nas gôndolas a valores mais acessíveis.
A ampliação da oferta também deve alterar o padrão de consumo. Produtos antes considerados menos acessíveis podem ser os mais populares entre as classes C, D e E, impulsionados pelo aumento da escala de importação.
“O benefício real para a classe C, D e E será a ‘democratização’ de itens que antes eram vistos como premium. A redução de custos de insumos pode favorecer fabricantes nacionais, enquanto itens básicos, como arroz, feijão e café, continuam condicionados a variáveis como câmbio e safra, sem impacto direto do acordo”, enfatiza.
Vai pesar na cesta básica?
Em relação à cesta básica, o impacto não ocorre de forma direta. O especialista destaca que as commodities seguem dinâmica própria, influenciadas por fatores externos ao acordo, como variações cambiais, condições de safra e demanda global.
No caso das proteínas, a competitividade do Brasil como exportador pode gerar, em um primeiro momento, pressão sobre preços de cortes premium, em função do estímulo às exportações, embora a tendência seja de acomodação no médio e longo prazo.
O crédito ao consumidor aparece como instrumento para suavizar oscilações e manter o acesso a uma alimentação mais completa.
“O acordo vai afetar o consumo de massa. Se o produtor local de massas ou laticínios não tiver apoio para se modernizar, ele será trocado pelo produto europeu que chegará com preço de massa. O desafio é não deixar que a abertura comercial destrua o emprego local, o que acabaria tirando a renda do próprio consumidor”, conclui.
O setor para o supermercadista
Para o empresário regional e do atacarejo, o acordo amplia as opções de fornecedores, sendo a concorrência vista como positiva. A expectativa é de entrada de marcas próprias europeias e produtos de menor preço, o que deve contribuir para reduzir a pressão sobre margens atualmente apertadas.
Também está previsto o acesso a novas tecnologias, incluindo maquinários, equipamentos de logística e sistemas de refrigeração, com impactos sobre a infraestrutura e a sustentação das lojas. Segundo Freitas, apesar das oportunidades, o acordo também impõe desafios.
A maior abertura comercial pode intensificar a concorrência sobre produtores regionais de pequeno porte, especialmente nos segmentos de massas e laticínios. A abertura comercial, segundo o executivo, pode avançar sem comprometer conquistas já consolidadas, desde que acompanhada de medidas que sustentem o desenvolvimento econômico e a inclusão no mercado de consumo.
Principais pontos do acordo UE-Mercosul
Negociado ao longo de mais de duas décadas, o acordo avança como um dos maiores tratados comerciais do mundo ao conectar economias que somam mais de 700 milhões de pessoas e ampliar a integração entre os blocos, como detalha O Brasilianista.
A proposta prevê redução de tarifas, novas regras comerciais e mudanças que impactam desde a indústria até o agronegócio e os investimentos.
Entre os principais pontos do acordo, estão:
- Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos produtos comercializados entre os blocos;
- A eliminação de impostos de importação para 91% dos produtos europeus no Mercosul em até 15 anos;
- Fim das tarifas para 95% dos bens do Mercosul exportados à União Europeia em até 12 anos;
- Ampliação do acesso da indústria, com destaque para setores como máquinas, automóveis, químicos e equipamentos de transporte;
- Criação de cotas para produtos agrícolas sensíveis, como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol;
- Possibilidade de a União Europeia retomar tarifas temporariamente em caso de aumento excessivo das importações ou queda de preços;
- Inclusão de compromissos ambientais, com restrições a produtos ligados ao desmatamento ilegal;
- Manutenção de regras sanitárias e fitossanitárias rigorosas para garantir a segurança alimentar;
- Redução de barreiras para investimentos estrangeiros e maior previsibilidade em setores como serviços financeiros, telecomunicações e transporte;
- Abertura de compras públicas, proteção à propriedade intelectual e redução de custos e burocracia para empresas, especialmente pequenas e médias exportadoras.

