O debate sobre a possibilidade de um novo acidente radiológico no Brasil voltou à tona após produção recente da Netflix que reacendeu a memória da tragédia do Césio-137.
A discussão ganha relevância em um momento em que o país mantém atividades nucleares e amplia o debate sobre energia limpa.
Especialista indica que o risco hoje é menor, mas não inexistente, especialmente quando falhas humanas entram em cena.
Origem do desastre
O acidente ocorreu em 1987, em Goiânia, quando um aparelho de radioterapia abandonado foi desmontado e a cápsula contendo Césio-137 acabou exposta.
O material radioativo, que emitia um brilho azulado, atraiu curiosidade e foi manuseado por diversas pessoas, espalhando contaminação.
Segundo dados do Governo de Goiás, o composto tinha alta solubilidade e facilidade de dispersão, o que ampliou rapidamente os impactos. Ao todo, mais de 112 mil pessoas foram monitoradas e centenas tiveram algum nível de contaminação.
Avaliação atual
Ivan Salati, diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), afirma que o cenário mudou significativamente desde então. “Acreditamos que não vamos ter outro acidente com fonte que venha a preocupar”, diz.
Para o portal g1, Salati explica que o país desenvolveu mecanismos mais rígidos de controle e fiscalização. “Qualquer evento que ocorra no Brasil, agentes da Vigilância Sanitária ou dos Bombeiros são treinados para nos ligar”, destaca.
Mudanças no controle
De acordo com a Agência Senado, o Brasil passou a exigir autorização da Cnen para importação de equipamentos com material radioativo. Além disso, foi criado um cadastro nacional de todas as fontes em uso.
O especialista detalha que o sistema funciona de forma contínua. “Hoje há um serviço 24 horas para monitoramento e resposta rápida a qualquer suspeita”, explica Salati.
Outro avanço foi a retirada do Césio-137 de equipamentos médicos. “Hoje usa-se o cobalto, uma pastilha sólida que reduz o risco de desastre radioativo”, afirma.
Falhas humanas permanecem
Apesar dos avanços tecnológicos, o histórico do acidente revela que o principal fator de risco não era a tecnologia, mas a falha humana. O próprio episódio começou com o abandono de um equipamento em área urbana.
Em exclusiva para O Brasilianista, Marcelo Santos Teves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, avalia que erros de gestão foram determinantes. “A grande falha do governo na época foi a de não comunicar de imediato à população para que se houvesse um controle maior da situação”, afirma.
Teves também destaca que o atraso na resposta inicial contribuiu para ampliar a exposição. “Depois disso juntou Judiciário, Secretaria de Saúde e governo para reestabelecer a ordem”, explica.
Impactos que continuam
Mesmo décadas após o acidente, os efeitos ainda são sentidos por vítimas e familiares. Teves relata dificuldades no acesso a serviços básicos. “Quando não tem o remédio que pega na farmácia popular, é muito difícil os pacientes terem condições de comprar”, afirma.
Ele explica que a associação atua para suprir lacunas deixadas pelo poder público. “A gente consegue estar aí repondo essa falta, que é a falta de remédio”, destaca.
Segundo o presidente da entidade, ainda há questões não resolvidas, como reconhecimento de vítimas e acompanhamento médico de longo prazo.
Energia nuclear em expansão
O tema ganha novo peso diante da expansão da energia nuclear no mundo. Segundo a Agência Brasil, mais de 20 países discutem ampliar a geração até 2050 como estratégia para reduzir emissões de carbono.
No Brasil, o sistema conta com duas usinas em operação, Angra 1 e Angra 2, responsáveis por cerca de 2% da eletricidade. Há também planos para ampliar essa participação com Angra 3.
De acordo com a Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares, esse contexto aumenta a necessidade de segurança e fiscalização contínua, especialmente em um país com reservas de urânio e domínio tecnológico no setor.
Riscos e limites
Fernando de Lima Caneppele, professor da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o uso da energia nuclear envolve debate constante. “Devido ao risco de acidente nuclear, gerar energia por meio de elementos nucleares envolve polêmicas”, pontua.
Caneppele explica que, embora os sistemas sejam seguros, não existe risco zero. A combinação de tecnologia complexa com fatores humanos mantém o tema em discussão permanente.
Possibilidades futuras
Salati avalia que o tipo de acidente ocorrido em Goiânia é hoje improvável, mas reforça que a vigilância precisa ser constante. “As pessoas hoje estão mais conscientes em relação à radiação”, afirma.
Já Teves aponta que o aprendizado não foi totalmente aproveitado. “A classe médica perdeu a grande chance de poder estudar essas pessoas pós-acidente”, destaca.

