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Geopolítica

Trump pode ter subestimado a capacidade iraniana

Reação de Teerã surpreende Washington e reduz margem de manobra dos Estados Unidos

Trump pode ter subestimado a capacidade iraniana

A dificuldade de transformar lições históricas em decisões práticas colocou Donald Trump diante de um impasse estratégico: sem um acordo, restam alternativas pouco favoráveis: declarar uma vitória de baixa credibilidade ou ampliar o confronto. A avaliação, destacada pela BBC News Brasil, destaca um princípio clássico da estratégia militar formulado pelo prussiano Helmuth von Moltke ainda no século XIX, que diz que nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo.

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O boxeador Mike Tyson popularizou a ideia ao afirmar que todo planejamento se desfaz diante do primeiro golpe. Já o ex-presidente Dwight D. Eisenhower, que liderou o Dia D, defendia que, embora planos sejam descartáveis, o processo de planejamento é indispensável.

Em discurso de 1957, Eisenhower argumentou que situações inesperadas obrigam a revisão completa de estratégias, o que só é possível quando há preparação prévia. Nesse sentido, planejar não garante controle sobre os eventos, mas permite reagir a eles.

A surpreendente resistência iraniana

A medida em que a guerra cresce revela um elemento fora do cálculo inicial de Washington: a capacidade de reação do regime iraniano. Ao contrário do que ocorreu na Venezuela, onde Nicolás Maduro e Cilia Flores foram capturados por forças americanas e substituídos por Delcy Rodríguez sob influência dos Estados Unidos, o cenário no Irã se mostrou mais complexo.

Analistas apontam que houve uma interpretação equivocada das diferenças estruturais entre os dois países. Mesmo após a morte do líder supremo Ali Khamenei no ataque inicial, o aparato estatal iraniano permaneceu funcional e continuou a responder militarmente.

Trump chegou a prever um conflito breve, com desfecho definido por sua própria decisão. No entanto, avaliações críticas indicam que seu círculo político tende a reforçar suas posições, limitando o espaço para contrapontos. Segundo essas análises, a ausência de uma diretriz política consistente compromete o uso eficaz do poder militar americano.

A resistencia iraniana está ligada também a sua estrutura. Consolidado após a Revolução Iraniana de 1979 e fortalecido durante a guerra contra o Iraque, o regime tem uma mistura de instituições duravéis com uma base ideológica que valoriza o “sacrifício”.

Nesse modelo, a eliminação de lideranças tem impacto reduzido. Perdas humanas, inclusive civis, são tratadas como custo aceitável para garantir a continuidade do sistema.

Escalada regional pressiona economia global

Sem capacidade de enfrentar diretamente a superioridade militar de Estados Unidos e Israel, o Irã optou por ampliar o alcance do conflito. Ataques passaram a atingir países do Golfo, bases americanas e o território israelense. Entre os efeitos mais relevantes está o bloqueio do Estreito de Ormuz, rota por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial.

A interrupção gerou instabilidade imediata nos mercados internacionais. De acordo com o general britânico Richard Shirreff, ex-vice comandante da OTAN, exercícios militares já indicavam que Teerã adotaria essa estratégia em caso de ataque direto.

Além da ação convencional, o Irã mobiliza aliados regionais que integram o chamado Eixo da Resistência, como Hezbollah, Hamas e os houthis. Este último grupo retomou ataques contra Israel e pode comprometer rotas estratégicas no Mar Vermelho, especialmente no estreito de Bab el-Mandeb.

Visões divergentes

Ainda de acordo com a BCC, enquanto Trump reage ao desenrolar dos eventos, Benjamin Netanyahu atua com uma estratégia mais definida. Logo no início da guerra, o premiê israelense indicou que o objetivo central é garantir a sobrevivência do país por meio da neutralização da capacidade do regime iraniano.

Em Israel, análises recorrentes sustentam que apenas uma ação conjunta com os Estados Unidos seria capaz de produzir efeitos duradouros contra Teerã. Historicamente, porém, governos americanos evitaram esse tipo de escalada, optando por políticas de contenção.

Redução de alternativas

As tentativas de negociação seguem sem avanços concretos, mesmo com mediações conduzidas por países como o Paquistão. Propostas atribuídas aos Estados Unidos acumulam exigências construídas ao longo dos anos e são vistas pelo Irã como equivalentes a uma rendição.

Em resposta, Teerã estabelece condições como o reconhecimento de seu controle sobre o Estreito de Ormuz, compensações por danos de guerra e a retirada de bases americanas da região. Fontes diplomáticas árabes indicam que havia espaço para diálogo antes do início dos ataques, versão contestada por autoridades americanas, que negam qualquer progresso relevante naquele momento.

Diante desse cenário, Trump dispõe de poucas opções. Uma declaração unilateral de vitória pode desgastar relações com aliados e ampliar a instabilidade econômica global. A alternativa mais plausível, segundo analistas, é a intensificação do conflito.

Os Estados Unidos já mobilizaram milhares de militares, incluindo fuzileiros navais e tropas aerotransportadas. Entre as possibilidades avaliadas está a ocupação de pontos estratégicos no Golfo, como a ilha de Kharg, principal terminal petrolífero iraniano.

Superioridade militar

O conflito tende a evoluir para um modelo de guerra assimétrica, no qual um ator mais fraco recorre a estratégias indiretas para enfrentar uma potência superior. Experiências anteriores dos Estados Unidos, como na Guerra do Vietnã, na Guerra do Iraque e na Guerra do Afeganistão, indicam que superioridade militar não garante vitória estratégica.

Para o regime iraniano, a simples manutenção do poder já representa um resultado favorável. O controle do Estreito de Ormuz amplia sua capacidade de pressão nas negociações. A Casa Branca sustenta que o Irã deve reconhecer derrota militar, sob risco de novos ataques.

Mas, a permanência do regime em Teerã contraria a narrativa de colapso iminente. Sem cessar fogo no horizonte, a expectativa é de intensificação do conflito. Segundo Ali Vaez, do International Crisis Group, os desdobramentos podem alcançar níveis catastróficos.

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