Publicidade
Política

Luciano Huck, Silvio Santos e mais: famosos do entretenimento na Presidência realmente funcionam?

Se engana quem acredita que a eleição desses candidatos é completamente improvável

Luciano Huck, Silvio Santos e mais: famosos do entretenimento na Presidência realmente funcionam?

Com as eleições presidenciais se aproximando, surgem os rumores de uma possível candidatura do apresentador de TV Luciano Huck — que também foi cobiçado nas eleições de 2018 e 2022. Ainda que pareça um cenário improvável, ele não é o único famoso do entretenimento que já tentou disputar uma eleição no Brasil.

Publicidade

Silvio Santos, dono da rede SBT e apresentador, concorreu ao Planalto em 1989 pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB), logo nas primeiras eleições diretas após a redemocratização. No entanto, sua candidatura foi anunciada apenas 15 dias antes do primeiro turno, o que levou à rejeição do pleito pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O apresentador e jornalista José Luiz Datena, mais conhecido como Datena, também expressou sua vontade de ser presidente do Brasil, mas nunca concorreu ao cargo. Em 2024, tentou a vaga da Prefeitura de São Paulo, assim como outro famoso, o empresário e influencer Pablo Marçal, mas ambos não seguiram ao segundo turno.

Se engana quem acredita que a eleição de candidatos famosos do entretenimento ou das redes sociais é completamente improvável. Afinal, o próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um ex-apresentador de televisão — de família de empresários da mídia, Trump manteve seu reality show “The Apprentice” por muitos anos.

Mas será que famosos e influencers teriam, de fato, alguma chance na disputa ao Palácio do Planalto no Brasil? E caso ganhassem, o que esperar de um mandato com candidatos que não necessariamente já atuaram na política brasileira?

Democraticamente, esse é um cenário aceitável. Isso porque qualquer cidadão que respeite os termos da Constituição e do TSE podem se candidatar à Presidência.

Para concorrer à presidência da República, é necessário ter 35 anos completos, estar filiado a partido político e ter “ficha limpa” — ou seja, não ter histórico de crimes.

“Numa democracia você coloca o seu nome para ser ou não referendado pelo voto popular. A soberania do poder é do povo, que escolhe diretamente os seus representantes para o Executivo e para o Legislativo. Então, faz sentido [ter famosos nas eleições], mas se a gente pensa na qualidade da política e da representação, provavelmente, essas pessoas deixam muito a desejar por conta, da ausência de experiência, seja no campo político ou de experiência administrativa ou em políticas públicas”, alega Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A visibilidade dos famosos em uma eleição

O Brasil já tem um histórico bastante consolidado de muitos apresentadores de TV que se candidataram e agora uma recente tentativa de influencers. Para o especialista, isso acontece devido à visibilidade desses candidatos, o que garante boa vantagem nas eleições.

“Um elemento a favor é a visibilidade que se tinha especialmente na televisão, que é um veículo que sempre teve preponderância entre todos os outros veículos de mídia no Brasil. Hoje, a televisão ainda continua tendo força, vai mas bem menos do que antes, especialmente entre os mais jovens. E aí também entram os influencers”, avalia.

Na competição, os famosos trazem uma imagem consolidada, comunicada e a capacidade de mobilizar a mídia, gerar debate e trazer temas à tona.

Por outro lado, Prando comenta que eles não estão habituados à lógica e nem ao jogo da política.

“Muitas vezes num debate, muitas vezes quando a vida do candidato sofre um escrutínio, uma investigação por parte dos seus adversários ou mesmo da mídia, isso pode gerar incômodos nessas figuras que não estão habituadas a isso. Ou seja, não estão habituadas a terem suas vidas devassadas publicamente, como muitas vezes acontecem numa campanha, trazendo fatos que ninguém conhecia”, explica.

Além disso, há uma certa fragilidade por não entenderem de políticas públicas, bem como pouca experiência política e administrativa.

O especialista ainda pondera que a remuneração é um ponto relevante para esses candidatos. O segmento de entretenimento e os influencers digitais garantem valores substancialmente maiores do que a remuneração pública de um presidente nas vias da Constituição.

“O que vale ponderar nesse caso é a lembrança recente das várias tentativas e balões de ensaios com o nome do Luciano Huck. Ele acabou por desistindo porque o contrato da Rede Globo era um contrato multimilionário. Ele ganha muito bem e sair desta condição para uma outra de político poderia diminuir substancialmente as finanças familiares ou empresariais”, afirma o cientista político.

Como pensa o eleitor?

O real questionamento se volta a como o eleitor vai tomar a decisão de escolher entre os candidatos, sejam eles famosos ou não. Segundo Prando, o voto dependerá das circunstâncias.

“Por exemplo, durante a pandemia, a maioria dos brasileiros que votaram para as eleições municipais decidiram escolher candidatos já consolidados, políticos já experientes, até porque nós atravessávamos um período pandêmico e de uma crise não apenas sanitária, mas também política e econômica. Então o eleitor decidiu dar o seu voto de confiança àqueles que já tinham experiência”, afirma o especialista.

Por outro lado, recentemente a candidatura à prefeitura de São Paulo do influencer Pablo Marçal mostrou uma real força da internet e plataformas digitais na promoção de uma campanha eleitoral. Prando alega que as chances do empresário eram grandes, mas foi impedido após a publicação de uma fake news sobre outro candidato.

“Acredito que, na grande maioria das vezes, o eleitorado acaba, conhecendo e votando naqueles que já tem certa experiência política, portanto, um nome no campo da política consolidado muito bem comunicado”, pondera.

Um mandato de famoso na Presidência da República

O cientista político reitera, no entanto, que não é possível prever os impactos de um apresentador ou influencer na Presidência. Isso porque é um cenário que nunca aconteceu na história da democracia no Brasil.

Para ele, a depender do tipo de narrativa e dos valores ideológicos que um candidato tem, é possível que esses famosos realizem um excepcional governo. Ao mesmo tempo, podem sofrer resistência da classe política, por falta de traquejo e capacidade de liderança.

“Isso pode criar situações em que esse presidente torne-se autocrático, pouco afeito às regras do jogo e a democracia. […] Então, é muito complicado antever, mas existem evidências de que pode, sem dúvida nenhuma, ter alguém que não tenha traquejo para a política, cada vez mais se isolar e construir uma visão de mundo mais autoritária ou, em outras palavras, pouco democrática”, reitera Prando.

O especialista ainda faz uma comparação com os mandatos de Donald Trump e o que esse cenário pode ensinar ao Brasil. Ele afirma que a noção de negócios que o republicano aplica na política “empobrece a política e traz uma instabilidade não só no país que que ele governa, que são os Estados Unidos, mas também para a ordem mundial”.

“O presidente dos EUA, de certa maneira, despreza aquilo que é fundamental na política, que é a negociação, que são os aspectos de respeito às instituições, as regras do jogo”, avalia Prando.

Siga O Brasilianista