O J. Safra Macro Day, realizado nesta segunda-feira (30), reúne autoridades, economistas e especialistas para discutir os principais fatores que influenciam o ambiente de investimentos no Brasil e no mundo. O evento abordou temas centrais no radar do mercado, como política monetária, cenário eleitoral atual, geopolítica e os impactos da inteligência artificial na economia.
A menos de seis meses das eleições presidenciais de 2026, o cenário político brasileiro caminha para uma disputa marcada por maior polarização, menor previsibilidade e mudanças nas formas de influência sobre o eleitorado.
De acordo com o sócio da Arko Advice, Lucas Aragão, o comportamento histórico de governos em anos eleitorais indica, em geral, um aumento na popularidade dos incumbentes. Segundo ele, esse movimento esteve tradicionalmente associado à ampliação de programas sociais.
“Historicamente, se pegar todos os governos desde a redemocratização, normalmente em quase todos os ciclos, podemos ver um aumento de aprovação em ano eleitoral. Isso é natural que aconteça. Mas por que que acontecia antes, qual tem algum catalisador nessa subida de popularidade dos presidentes dos incumbentes, sendo eleitoral, normalmente, ancorado em aumento de programas sociais”, enfatiza.
Ainda segundo Aragão, esse mecanismo perdeu força ao longo do tempo, à medida que políticas sociais passaram a ser percebidas como políticas de Estado, e não mais como iniciativas exclusivas de governos. O analista indica que o governo atual pode buscar alternativas para estimular a popularidade fora do orçamento tradicional, com maior uso de instrumentos de crédito e atuação de bancos públicos.
“Eu percebo que o governo deve apostar mais em medidas ligadas às contas públicas, com maior uso de bancos e ampliação do crédito, além de tentar puxar o debate para promessas futuras. Nesse cenário, também pode haver espaço para o fortalecimento de uma candidatura da oposição, como a de Flávio”, analisa.
Aragão também aponta uma mudança estrutural na relação entre Executivo e Legislativo, com o enfraquecimento do modelo tradicional de coalizão e a adoção de negociações mais fragmentadas.
“A governabilidade clássica dos anos 2000 não existe mais. Aquela lógica de formar uma coalizão com cinco, seis ou sete partidos e garantir uma base fixa de votos com o governo deixou de existir. Hoje, a governabilidade é construída semana a semana, mês a mês, tema a tema, sem aquela coligação tradicional, muito por causa do fortalecimento do Congresso nos últimos anos”, comenta Aragão.
De acordo com Aragão, esse novo arranjo torna o processo decisório mais complexo e eleva os custos políticos de cada medida, já que decisões tendem a provocar reações imediatas em diferentes grupos. Segundo o analista, a política externa também deve ganhar protagonismo no debate eleitoral, algo incomum em disputas anteriores.
“Eu acredito que essa deve ser uma das primeiras vezes em que a política externa vai se tornar um fator relevante na eleição, algo que dificilmente vimos ganhar tanto espaço nas disputas da nossa democracia”, finaliza.
AtlasIntel aponta fragilidade do governo Lula
A avaliação apresentada durante o evento mostra que fatores como inflação, percepção de aumento de impostos e comunicação digital vão ter um papel central na definição do resultado eleitoral, já que o ambiente mostra ter maior volatilidade e menor fidelidade do eleitorado.
Yuri Sanches, Head de Análise Política da AtlasIntel, apresentou os últimos dados da instituição que indicam um cenário de maior fragilidade para o governo federal, com níveis de desaprovação superiores aos de aprovação. De acordo com Sanches, o atual patamar de aprovação tende a limitar o desempenho eleitoral do presidente, inclusive em cenários de segundo turno.
A última pesquisa do AtlasIntel/ Bloomberg destacou um cenário de forte polarização e desafios para a gestão do presidente Lula. Atualmente, a desaprovação ao desempenho do presidente atinge 53,5%, enquanto a aprovação é de 45,9%. Na avaliação geral do governo, o índice de “Ruim ou Péssimo” chegou a ser de 49,8%, contra 40,6% que consideram a gestão “Ótima ou Boa” e 9,6% que a definem como “Regular”.
O levantamento também detalhou que o apoio ao presidente é mais expressivo entre as mulheres (53,9%) e na região Nordeste (55,6%). Já a desaprovação é acentuada entre os homens (63,1%), eleitores evangélicos (85,5%) e aqueles com ensino superior (63,5%).
Em uma simulação de repetição do cenário eleitoral de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro aparece numericamente à frente com 44,8% das intenções de voto, seguido por Lula, com 42,7%. Outros nomes como Ciro Gomes (5,3%) e Simone Tebet (1,4%) também foram citados, enquanto brancos, nulos e indecisos somam 3,4%.
Segundo Sanches, os dados indicam uma margem restrita de crescimento, com desempenho semelhante entre intenção de voto e avaliação de governo. Sanches enfatiza que simulações de segundo turno apontaram crescimento mais expressivo de candidaturas da oposição, enquanto o avanço do presidente se mantém limitado.
Em sua avaliação as mudanças na percepção do eleitorado é em relação às políticas econômicas, principalmente no que diz respeito à tributação e concessão de benefícios.
Presença nas redes sociais
Os analistas políticos destacaram o papel das redes sociais na percepção pública sobre o governo Lula. Segundo Yuri Sanches, o momento de fragilidade do Executivo é amplificado pelo ambiente digital, onde denúncias e operações envolvendo figuras próximas ao presidente circulam rapidamente, moldando a opinião de diferentes segmentos do eleitorado.
Entre os fatores que poderiam gerar apoio ao governo, como programas sociais e medidas fiscais, Sanches observa que nas redes sociais essas ações tendem a ser percebidas como básicas, enquanto, erros, como a chamada “taxa das blusinhas”, ganham repercussão imediata, atingindo desde a classe alta até a base tradicional do PT.
Lucas Aragão ressaltou que decisões políticas agora são avaliadas voto a voto, tema a tema, e que o Congresso tem maior autonomia. Para ele a “governabilidade é igual ao Uber: se está chovendo, está mais caro, se não, está barato. Não há mais aquela coligação clássica”. Nas redes sociais, cada decisão do governo é rapidamente analisada e comentada e isso influencia diretamente na percepção pública.
Os especialistas apontam que a comunicação do governo será determinante para seu desempenho político. Erros e acertos circulam com velocidade nas plataformas digitais e isso molda narrativas que atingem tanto eleitores fiéis quanto segmentos ainda em disputa.
No campo eleitoral, avaliam que Renan Santos, pré-candidato à presidência, tem mostrado ascensão nas redes sociais. Sua presença digital tem gerado repercussão e influência na polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, reforçando a importância do ambiente online na corrida presidencial.

