O agronegócio é um dos setores do país que mais tem demonstrado preocupação com o conflito que envolve Irã, Israel e Estados Unidos. O campo teme impactos nas exportações e no aumento dos custos de produção e transporte, já que o Oriente Médio é um mercado relevante para diversos produtos agrícolas do Brasil.
A manutenção da competitividade vai depender da habilidade do setor em lidar com rupturas no comércio e flutuações nos custos de transporte, além da atenção contínua aos mercados estratégicos da região. O risco principal está na possibilidade de interrupção de mercados importantes e no encarecimento das rotas marítimas utilizadas no comércio global de commodities.
Especialistas apontam que a instabilidade em rotas estratégicas e nos mercados de energia podem refletir rapidamente nas cadeias de produção e exportação de diversos setores, incluindo o agronegócio brasileiro. Segundo dados do setor, o Brasil mantém relações comerciais significativas com países da região diretamente afetada pelo conflito.
Exportações e importações do Brasil
Em 2025, as exportações para o Oriente Médio somaram US$ 12,4 bilhões, com o Irã absorvendo 23,6% desse total, seguido por Arábia Saudita (23,3%) e Emirados Árabes Unidos (20,4%). A pauta iraniana é concentrada em milho, que atingiu 9 milhões de toneladas, e soja, enquanto as importações vindas de lá focam em itens de consumo, como analisa Jackson Campos, diretor de Relações Institucionais da AGL Cargo.
“A agenda está bastante concentrada no Irã. Milho e soja sozinhos representam 87,2% das exportações brasileiras para o país em 2025. Açúcar, farelo de soja para crescimento e óleo ainda estão presentes em quantidade significativa. O país importa extremamente pouco do Irã em termos de fertilizantes e esterco e muito de frutas secas ou nozes e pistaches, pois estão em demanda, assim como passas”, comenta.
Já a relação com Israel apresenta uma balança comercial distinta, voltada para a troca de commodities brasileiras por insumos tecnológicos e químicos essenciais para a produtividade nacional.
“Em comparação, a agenda de Israel é mais diversificada. Mas as exportações brasileiras passadas foram impulsionadas por combustíveis minerais, alimentos e animais vivos, bem como matérias-primas não comestíveis. As importações de Israel são muito mais pesadas em fertilizantes e fertilizantes químicos, pesticidas agrícolas e alguns insumos industriais”, diz o especialista.
Logística e segurança alimentar
O setor de aves é um dos mais sensíveis, pois o Oriente Médio absorve 29% (1,5 milhão de toneladas) da produção nacional, e o Brasil é o maior exportador mundial de carne halal (carne produzida e abatida de acordo com os preceitos islâmicos). Apesar dos riscos de um choque de oferta global e do aumento de despesas operacionais com seguros e fretes, a demanda por alimentos tende a ser resiliente em cenários de guerra.
Campos relata que “conflitos armados resultam em uma maior dependência de alimentos do Brasil” e que isso é principalmente visível no Oriente Médio, em cadeias como exportação de frango, açúcar e milho. A região representou 35,2% das exportações brasileiras de aves, 17% das de açúcar e melaço e 16,2% das de milho não moído em 2025.
Mesmo em momentos de instabilidade, os importadores redirecionaram embarques para garantir a continuidade das rotas. O cenário mostra a importância estratégica do Brasil como fornecedor de alimentos, com frango, açúcar e milho permanecendo essenciais para os mercados da região.
Riscos geopolíticos e estratégias de defesa
A ordem executiva de Trump, por exemplo, previa tarifas de até 25% para empresas que negociam com o Irã. Ao mesmo tempo, compradores como Iraque, Catar e Emirados Árabes Unidos buscam novas rotas para manter o fluxo de proteína brasileira sem repasse imediato de preços.
“O mercado mais relevante de preocupação é o Irã, que comprou US$ 2,9 bilhões do Brasil em 2025”. Ele acrescenta que “compradores como Iraque, Catar e Emirados Árabes Unidos têm o modelo de negócios para continuar voltando à proteína brasileira em novas rotas sem aumentos de preço”.
Para mitigar riscos, que envolvem 4,6% das exportações e 2,6% das importações brasileiras, as empresas apostam na diversificação de rotas e no uso de hedge cambial. Para Jackson, existe uma ameaça existencial de reação internacional, mas o protecionismo tem sido geralmente político e regulatório, não apenas resultado de pressão comercial.
Campos aponta três estratégias para proteger o setor:
- Diversificação do mercado para evitar concentração de produtos sensíveis em uma única região;
- Diversificação de rotas e suprimentos (principalmente em fertilizantes, diesel e insumos industriais);
- Fortalecimento da gestão de riscos: com hedge cambial, contratos logísticos mais flexíveis, estoques estratégicos e diplomacia comercial ativa.
Ele lembra que isso é importante porque o Oriente Médio foi responsável por 4,6% das exportações brasileiras e 2,6% das importações em 2025, mas o impacto é muito maior para alguns produtos, como aves, milho e ureia.

