Viver em Goiânia não representa hoje um risco radiológico relevante, mesmo após o acidente com o Césio-137, registrado em 1987.
A avaliação de especialistas indica que as áreas afetadas foram descontaminadas e os níveis de radiação estão dentro dos padrões considerados seguros, embora as consequências do episódio ainda estejam presentes na vida de pessoas expostas e na memória coletiva.
Episódio começou com material abandonado
O acidente teve origem quando um equipamento de radioterapia foi retirado de uma unidade desativada e acabou sendo levado para um ferro-velho.
Sem conhecimento sobre o perigo, o material radioativo foi aberto e manipulado, o que permitiu sua dispersão entre moradores.
A substância, que emitia brilho azul, chamou a atenção e acabou sendo compartilhada entre diferentes pessoas, ampliando o alcance da contaminação.
O contato direto levou a casos graves de exposição e mortes registradas semanas depois. O episódio rapidamente se tornou um dos mais graves acidentes radiológicos fora de instalações nucleares, principalmente por ter ocorrido em área urbana e com ampla circulação do material.
Expostos ainda enfrentam problemas
Décadas depois, pessoas que tiveram contato direto com o Césio-137 continuam relatando complicações de saúde.
Donizeth Rodrigues de Oliveira, que trabalhava no ferro-velho onde o material foi aberto, afirma conviver com diversas doenças ao longo dos anos.
Ele descreve histórico de infartos, AVC e problemas em órgãos como rins e tireoide, além de dificuldades no acesso a suporte contínuo.
“Não aguento mais pedir ajuda é como se não tivesse acontecido nada com a gente, espero que o governo faça alguma coisa”, diz.
A experiência dele reflete a situação de parte das vítimas que tiveram exposição significativa à radiação. Os relatos mostram que os impactos não se encerraram com o controle do acidente, permanecendo como parte da rotina de quem esteve diretamente envolvido.
Efeitos variam conforme exposição
O médico Estêvão de Carvalho Aguiar explica que os danos causados pela radiação dependem da quantidade absorvida e do tempo de contato.
A radiação ionizante pode atingir estruturas celulares essenciais, alterando o funcionamento do organismo.
Em situações de alta exposição, os sintomas aparecem rapidamente e incluem problemas gastrointestinais, lesões na pele e queda da imunidade. Em casos mais extremos, pode haver comprometimento de órgãos vitais.
Esses quadros foram observados durante o acidente em Goiânia, especialmente entre pessoas que tiveram contato direto com a substância.
Impactos podem surgir anos depois
Nem todos os efeitos da radiação são imediatos. Em muitos casos, as consequências aparecem ao longo do tempo, com destaque para o aumento do risco de câncer.
“Os impactos psicológicos são muito relevantes, com casos de ansiedade, estresse pós-traumático e dificuldades nas relações sociais”, afirma Aguiar.
Além disso, estudos indicam a possibilidade de outras condições, como alterações na pele, infertilidade e problemas oculares. A intensidade desses efeitos está relacionada ao nível de exposição sofrido.
Por esse motivo, o acompanhamento das vítimas se estende por décadas, com monitoramento contínuo das condições de saúde.
Cidade segue dentro dos padrões seguros
Apesar do histórico, Goiânia não apresenta níveis de radiação acima do considerado normal. Após o acidente, as áreas contaminadas foram isoladas e passaram por processos rigorosos de limpeza.
O material radioativo foi recolhido e armazenado em locais seguros, enquanto órgãos responsáveis mantêm o monitoramento ambiental. Esse controle garante que não haja risco significativo para a população em geral.
A situação atual difere de acidentes nucleares de grande escala, onde a contaminação permanece ativa por longos períodos.
Comparação ajuda a entender cenário
A diferença entre Goiânia e outros acidentes está relacionada ao tipo de material e à forma como ele foi disperso. Em casos como o de Chernobyl, houve liberação contínua de substâncias radioativas no ambiente.
Já em Goiânia, a contaminação foi localizada e controlada em um período relativamente curto. Esse fator permitiu a recuperação das áreas afetadas e a retomada das atividades urbanas.
Outros exemplos, como Hiroshima e Nagasaki, também mostram que nem toda exposição à radiação impede a reocupação de uma região.
Marcas vão além da saúde física
Mesmo com a normalização dos níveis de radiação, o acidente deixou impactos sociais e psicológicos. Parte da população afetada enfrentou estigmatização e dificuldades de reinserção.
Além disso, houve impactos econômicos, como desvalorização de imóveis e retração de atividades em áreas atingidas.
Em entrevista para O Brasilianista, Beatriz Mateus Rodrigues, graduada em Ciências Contábeis e pós-graduada em Auditoria Governamental, afirma que esses eventos não podem ser analisados apenas pelo impacto imediato.
“Quando falamos de desastres nucleares, como o de Acidente de Chernobyl ou o caso do Acidente com Césio-137 em Goiânia, é fundamental entender que os impactos vão muito além da tragédia humana imediata, eles se transformam em choques econômicos profundos, persistentes e multifatoriais”, afirma.

