A crise global de petróleo e gás ocasionada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz já é considerada a mais grave das últimas décadas, superando os choques de 1973, 1979 e 2022 juntos. A avaliação é do diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, que descreveu o cenário como um “choque triplo” devido a alta nos preços de petróleo, gás e alimentos, além de atingir de forma direta a economia do mundo.
Em entrevista ao jornal Francês Le Figaro, Birol afirma que a interrupção ocorre em uma das principais rotas do comércio global, e que isso afeta não apenas combustíveis, mas também cadeias produtivas ligadas a fertilizantes e insumos industriais. Segundo ele, a liberação de estoques estratégicos por países da Ásia, Europa e América do Norte ajuda a reduzir a pressão imediata, mas não resolve o problema estrutural.
De acordo com a AIE, o impacto tende a ser mais severo em países em desenvolvimento, que enfrentam aumentos, ao mesmo tempo, de custos energéticos e alimentares, inflação elevada e risco de crescimento da dívida externa. Ainda segundo Birol, embora a crise atual tenha efeitos imediatos negativos, ela também deve acelerar mudanças no sistema energético global, como já ocorreu em episódios anteriores, principalmente em 2022.
Para o diretor executivo a solução é a abertura do Estreito.
Crise de 1973
A crise de 1973 aconteceu ainda na Guerra Fria e foi um resultado da Guerra do Yom Kippur. Segundo a BBC News, após o apoio dos Estados Unidos a Israel, países árabes exportadores decidiram reduzir a produção e impor um embargo a aliados de Tel Aviv. Até então, o petróleo era relativamente barato e considerado abundante. Esse cenário mudou rapidamente com o corte coordenado da oferta.
Na época, o preço do barril saltou de US$ 2,90 para US$ 11,65 em poucos meses, provocando um choque imediato nas economias dependentes. Nos Estados Unidos, o impacto foi visível no cotidiano: escassez de combustível, filas em postos e racionamento em diversos estados.
Analistas afirmaram que o episódio revelou que o petróleo poderia ser utilizado como instrumento de pressão política e econômica. O choque também teve efeitos estruturais. De acordo com especialistas, ele marcou o fim da era do petróleo barato, fortaleceu a atuação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e levou países a repensarem sua dependência energética, incentivando investimentos em eficiência e fontes alternativas.
Revolução de 1979
A crise de 1979 ocorreu na Revolução Iraniana que levou à queda do Xá (monarca) Mohammad Reza Pahlavi, o último monarca do país e a reorganização do setor petrolífero no país. Segundo o Federal Reserve (FED), a produção iraniana caiu cerca de 4,8 milhões de barris por dia, o que correspondia a 7% da produção mundial da época.
Embora a redução da oferta tenha sido relevante, o aumento dos preços foi aumentando pelo temor de novas interrupções e pela forte demanda global. O Fed concorda que esse ambiente gerou uma onda de especulação que fez o preço do petróleo mais do que dobrar entre os anos de 1979 e 1980.
Nos Estados Unidos, os efeitos se manifestaram principalmente na inflação. Segundo o banco central, a alta dos preços da energia se espalhou para outros setores da economia, contribuindo para um cenário de estagflação, combinação de crescimento baixo com inflação elevada.
O Fed inicialmente havia uma postura cautelosa na elevação dos juros, com medo dos impactos sobre o emprego. Mas, segundo a instituição, a estratégia foi insuficiente para conter a inflação.
A mudança só a aconteceu com a nomeação de Paul Volcker, que elevou agressivamente as taxas de juros, chegando a 19% em 1981. A medida ajudou a controlar os preços, mas provocou uma recessão significativa.
Guerra, gás e resposta acelerada de 2022
A crise de 2022, citada por Birol, foi desencadeada pela guerra na Ucrânia causada pela Rússia e pela redução do fornecimento de gás russo à Europa. Segundo a AIE, o episódio colocou em evidência a vulnerabilidade energética de países altamente dependentes de importações.
De acordo com a AIE, a resposta foi mais rápida do que em crises anteriores. A instalação de energias renováveis, como solar e eólica, avançou muito rapidamente, chegando a triplicar em relação ao período pré-guerra. Países também passaram a diversificar fornecedores e buscar alternativas ao gás russo.
Segundo Birol, esse processo foi uma inflexão na transição energética global. Além das renováveis, houve maior atenção também na energia nuclear e ao desenvolvimento de veículos elétricos, especialmente em regiões com alta demanda por petróleo.

