O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) divulgou nesta quarta-feira (8) a ata da última reunião do Federal Open Market Comittee, que definiu a política monetária do país nos dias 17 e 18 de março. Na ocasião, os diretores mantiveram a taxa básica de juros estável na faixa de 3,50% a 3,75%.
O documento mostrou que cresce cada vez mais um grupo dentro do Fed que apoia o aumento da taxa de juros para combater a inflação que continua a exceder a meta de 2% do banco central, de acordo com o InfoMoney. A inflação vem causando problemas aos consumidores estadunidenses desde o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
“Alguns participantes julgaram haver um forte argumento a favor de uma descrição bilateral das decisões futuras do Comitê (Federal de Mercado Aberto) sobre a taxa de juros na declaração pós-reunião, refletindo a possibilidade de que ajustes para cima na faixa da meta para a taxa dos fundos federais podem ser apropriados se a inflação permanecer em níveis acima da meta”, afirma a ata.
A decisão anterior já tinha declarado a incerteza que a guerra havia introduzido nas perspectivas econômicas.
Por outro lado, muitos participantes não veem uma grande necessidade de seguir nos cortes de juros para o combate à inflação, visto que um possível conflito prolongado no Oriente Médio causaria danos suficientes ao crescimento econômico para justificar ainda mais cortes.
“A maioria dos participantes levantou a preocupação de que um conflito prolongado no Oriente Médio poderia levar a um abrandamento ainda maior nas condições do mercado de trabalho, o que poderia justificar cortes adicionais nas taxas, já que os preços do petróleo substancialmente mais altos poderiam reduzir o poder de compra das famílias, apertar as condições financeiras e reduzir o crescimento no exterior”, disse a ata.
Vale lembrar que a ata do Fed em relação à reunião realizada em março foi divulgada um dia após os EUA e o Irã terem concordado com um cessar-fogo de duas semanas. De acordo com o InfoMoney, a notícia fez o preço do petróleo tombar mais de 15% para cerca de US$92 por barril.
Política monetária em modo defensivo
A sinalização de apenas um corte de juros por parte do Fed não deve ser interpretada como resposta a uma crise aguda, na avaliação de Wagner Moraes, economista e CEO da A&S Partners, uma venture builder financeira, em entrevista exclusiva à esta matéria do O Brasilianista.
O comportamento da autoridade monetária americana revela prudência diante de uma economia ainda resiliente. Em cenários de crise mais severa, a tendência seria de cortes mais rápidos e intensos para estimular a atividade econômica.
“Se estivéssemos diante de uma crise mais aguda, o movimento seria outro cortes rápidos, mais intensos, para sustentar atividade. Não é isso que está acontecendo.”
Assim, conforme o especialista, a postura atual indica que o banco central prefere evitar um afrouxamento prematuro que possa precisar ser revertido posteriormente.
“O que temos hoje é uma economia americana ainda resiliente, com inflação acima da meta e um banco central que prefere errar pela prudência do que antecipar um afrouxamento que pode ter que ser revertido depois. Em resumo, não é crise. É política monetária ainda em modo defensivo.”
Embora o conflito no Oriente Médio tenha elevado o nível de incerteza global, o especialista avalia que ele não é o principal fator por trás da postura mais rígida do Fed. O economista ainda ressalta que a inflação americana continua sendo o elemento central da equação.
Há risco de acontecer o mesmo da crise de 1929?
Apesar do ambiente de maior aversão ao risco, Moraes descarta uma repetição da Crise de 1929, que teve início com a quebra da Bolsa de Nova York e evoluiu para uma depressão econômica global. Para ele, hoje, o cenário é distinto. O sistema financeiro conta com instrumentos de liquidez, regulação mais rigorosa e seguros de depósito, fatores que ampliam a capacidade de resposta a choques.
“Eu não vejo um cenário comparável a 1929. Pode haver estresse, volatilidade forte, correções relevantes e até recessões localizadas, mas o sistema financeiro global hoje é incomparavelmente mais protegido do que era naquela época. Em 1929, o colapso foi agravado por falências bancárias em massa, ausência de seguro de depósitos e uma resposta de política econômica muito mais precária”, justifica.
O economista ressalta que, diferentemente daquele período, há hoje maior atuação dos bancos centrais e um arcabouço prudencial mais robusto.
“Hoje existem bancos centrais mais atuantes, instrumentos de liquidez, arcabouço prudencial e seguros de depósito que não existiam naquele mundo”, acrescenta.
Embora afaste um colapso semelhante ao de 1929, Moraes alerta para um cenário prolongado de instabilidade moderada, caracterizado por inflação persistente, crescimento mais fraco e volatilidade elevada.
“O risco que eu vejo não é repetição de 1929; é uma combinação mais moderna e mais plausível de inflação persistente, crescimento fraco e volatilidade global elevada. É menos ‘Grande Depressão’ e mais risco de um ambiente prolongado de baixo conforto macroeconômico”, conclui.

