Após décadas de uma certa estabilidade desde o fim da Guerra Fria, a quantidade de guerras em andamento voltou a aumentar, alcançando patamares não observados desde o período posterior à Segunda Guerra Mundial. O cenário é grave para os desafios econômicos e demanda decisões mais complexas por parte dos países. A análise é do Fundo Monetário Internacional (FMI), no relatório, World Economic Outlook, publicado na última quarta-feira (08).
Além dos custos humanos, os conflitos provocam impactos econômicos relevantes e duradouros, sobretudo nas nações diretamente afetadas. A atividade econômica nesses países diminui cerca de 3% no início das guerras e acumula perdas próximas de 7% ao longo de cinco anos. Os números superam as registradas em crises financeiras ou desastres naturais severos, com efeitos que podem se estender por mais de uma década.
O relatório indica que impactos extrapolam as fronteiras dos países em guerra. Nações vizinhas ou com laços comerciais intensos também passam por desaceleração econômica, especialmente nos primeiros anos dos conflitos. Já países envolvidos de forma indireta sofrem menos, em parte pela ausência de destruição em seus territórios.
O FMI ainda ressalta que conflitos de grande escala com pelo menos mil mortes em combate pressionam as contas públicas. Além disso, os gastos com defesa, a elevação da dívida e a queda na arrecadação, juntos, fazem com que a produção encolha. Há também dificuldades nas contas externas, com redução das exportações, retração das importações e aumento temporário do déficit comercial, além da saída de capitais.
O quadro favorece a desvalorização cambial, a perda de reservas internacionais e a aceleração da inflação. Com as pressões, bancos centrais costumam elevar as taxas de juros como forma de conter a alta dos preços.
Altos gastos com defesa
As tensões geopolíticas têm levado diversos países a ampliar seus orçamentos militares. O FMI destaca que episódios desse tipo, analisados em 164 países desde a Segunda Guerra Mundial, normalmente duram cerca de três anos e elevam os gastos com defesa em aproximadamente 2,7 pontos percentuais do PIB.
Esse movimento é como um estímulo da demanda no curto prazo e incentiva o consumo e os investimentos, principalmente em setores ligados à defesa. Ainda assim, os efeitos sobre o crescimento tendem a ser moderados, uma vez que o impacto multiplicador depende da forma como os recursos são alocados.
O relatório ressalta ainda que, quando há maior dependência de importações de equipamentos, os ganhos internos são reduzidos e as contas externas se destroem. Por outro lado, investimentos em infraestrutura e produção doméstica ficam fortes para a indústria e favorece ganhos de produtividade no longo prazo.
Gastos militares
De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a expansão dos gastos militares é financiada principalmente por déficits no curto prazo. Esse processo eleva o déficit em cerca de 2,6 pontos percentuais do PIB e aumenta a dívida pública em aproximadamente 7 pontos percentuais em três anos, podendo alcançar 14 pontos em períodos de guerra.
Alternativas como aumento de arrecadação e readequação de gastos também geram impactos, incluindo redução do consumo e possíveis cortes em áreas como saúde, educação e proteção social.
De acordo com o relatório, a retomada depende da manutenção da paz. Quando há estabilidade, a economia volta a crescer, embora sem recuperar integralmente as perdas. Em contextos de novos conflitos, o processo de recuperação geralmente é interrompido.
A retomada acontece principalmente pela reintegração de trabalhadores às atividades civis e pelo retorno gradual de refugiados, enquanto limitações no capital e na produtividade dificultam avanços mais robustos.
Medidas como estabilização macroeconômica, reestruturação da dívida e apoio internacional são essenciais para restaurar a confiança e estimular a economia, especialmente quando combinadas a reformas internas e políticas coordenadas.

