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Política

Cidade de Deus x Cidade dos Homens: como esses dois mundos coexistem em Brasília?

O conceito vem do teólogo Santo Agostinho, mas pode explicar muito sobre o que 2026 e 2027 prometem na política brasileira

Cidade de Deus x Cidade dos Homens: como esses dois mundos coexistem em Brasília?

Brasil de 2026 evidencia com total clareza que a política não é um espaço de procedimentos e regras. Segundo o colunista do O Brasilianista e cientista político Murillo de Aragão, ela é um espaço em que a direção das vontades define se o sistema funciona ou entra em colapso.

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Nesse cenário, ainda de acordo com Aragão, há dois mundos que coexistem em Brasília atualmente: a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens.

A Cidade de Deus, conceito político criado pelo teólogo Santo Agostinho, “oferece um referencial conceitual mais valioso para compreender a Brasília de hoje do que a grande maioria das análises políticas que circulam nos jornais”. Essa primeira é uma comunidade guiada pelo amor ao bem comum e à dignidade humana.

Por sua vez, a Cidade dos Homens é formada pela busca de prazeres mundanos, poder, riqueza e autossuficiência. Brasília em 2026 é a Cidade dos Homens em plena operação, afirma o cientista político.

Brasília vive a Cidade dos Homens

Exemplos recentes, como a fraude do INSS, ajudam a entender melhor a situação atual da política brasileira. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) foi alvo de um esquema de descontos irregulares que desviou cerca de R$ 6 bilhões de aposentados.

“Não se tratou de uma falha técnica, mas de uma apropriação deliberada de um mecanismo público para proveito privado. Agentes públicos e privados se uniram para tomar recursos que deveriam estar sob proteção do Estado”.

Por sua vez, o Banco Master praticou fraudes que movimentaram bilhões de reais por meio de ativos fictícios, balanços inflados e vínculos com elites econômicas e políticas. Ambos os casos revelam um padrão: o uso sistemático das instituições para fins que se afastam de suas funções originais.

Na conceituação da filosofia de Agostinho, o “problema está no fato de que a vontade está voltada para o ganho imediato e para a preservação de posições de vantagem, e não para o bem coletivo”, de acordo com paráfrase de Murillo de Aragão.

Para ele, esse é um diagnóstico muito mais preciso do que qualquer análise sobre “incentivos institucionais”, pois toca na raiz verdadeira do problema: a orientação ética das pessoas que operam as instituições.

E é exatamente isso que o especialista acredita que o Brasil deve passar em 2026 e 2027. O país construiu um arcabouço legal notável: a Lei da Ficha Limpa, a regulação do financiamento eleitoral, o controle de emendas, investigações em diversas frentes. Tudo isso compõe uma estrutura bem elaborada.

No entanto, a estrutura funciona ou deixa de funcionar em razão de algo que nenhuma norma é capaz de impor: a vontade de quem a opera. “Isso explica por que decisões do Judiciário são “customizadas” de acordo com as circunstâncias”, diz o colunista.

Se a vontade dos que conduzem o sistema está voltada para o poder e a autossuficiência — a Cidade dos Homens —, então a estrutura será utilizada para fins que favorecem o poder, e não a coletividade.

Cidade de Deus coexiste nesse ambiente?

A distinção proposta por Agostinho é que a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens “coexistem e se entrelaçam”. Ou seja, os elementos que expressam princípios emanados da Cidade de Deus — a Constituição, as leis, as instituições — são operados por vontades orientadas para a Cidade dos Homens. O resultado é uma aparência de legalidade com uma prática de não republicana.

Dessa forma, o cientista político sugere que o “problema do Brasil” não é a falta de regulação ou independência do Poder Judiciário, mas na orientação das vontades de quem opera as estruturas.

Na projeção de 2026 e 2027, o sistema político brasileiro entrará em colapso ou se sustentará não porque as regras melhoram, mas porque as vontades que as operam se reorientam — ou não — para o bem coletivo.

“O diagnóstico agostiniano é, portanto, ao mesmo tempo desalentador e libertador. Desalentador porque indica que o problema não está no desenho institucional — algo que pode ser corrigido —, mas na vontade humana, que não se corrige por decreto. Libertador porque oferece uma explicação coerente para o fracasso das reformas: elas não transformam as vontades, apenas os procedimentos que as vontades, em seguida, contornam”, explica Aragão.

Brasília em 2026 é a expressão perfeita da análise de Agostinho: a Cidade dos Homens vestida com as roupas da Cidade de Deus.

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