Há seis anos, a pandemia de Covid-19 iniciava e pedia a quarentena de todos os brasileiros. Para além de ruas vazias, os cerca de dois anos seguintes até a chegada da vacina no país foram marcados por milhões de mortes, sistema de saúde em estado de urgência e diversos efeitos negativos para a economia.
Empresas quebraram, o pedido de auxílio ao governo aumentou e o número de desempregados também saltou. Quatro anos depois do considerado “fim da pandemia”, a possibilidade de uma nova onda de recessão acontecer é real, mas será que o Brasil estaria preparado economicamente para uma nova pandemia?
Janine Alves, conselheira Federal do Conselho Federal de Economia (Cofecon), alega que a pandemia deixou lições claras, mas que ainda não foram plenamente incorporadas. A principal delas é que decisões econômicas precisam estar alinhadas à ciência e à evidência técnica.
“No Brasil, em diversos momentos, isso não ocorreu, contribuindo para prolongar a crise e ampliar seus custos econômicos e sociais. Houve desvalorização do conhecimento científico, com desconfiança em relação às vacinas, ao uso de máscaras e à própria eficácia do distanciamento social como medida essencial até a imunização em massa. Ao mesmo tempo, a disseminação de notícias falsas, sem embasamento científico, ganhou força nas redes sociais, desinformou a população e teve impactos diretos na evolução da pandemia e no número de mortes”, comenta.
Outra lição importante é que saúde pública é um ativo econômico. Segundo ela, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi fundamental para sustentar a resposta à pandemia, mas continua enfrentando restrições financeiras e desafios estruturais. Ou seja, investir em saúde é também investir em estabilidade econômica.
A especialista também menciona que ficou claro a necessidade do Brasil ter cadeias produtivas mais resistentes, capazes de funcionar mesmo em momentos de crise. Hoje, o país ainda depende muito de insumos importados — como peças, componentes e matérias-primas — e, quando há interrupções no exterior, essa dependência vira um problema: faltam produtos, os custos aumentam e muitas empresas precisam reduzir ou até parar a produção.
“Talvez a maior lacuna seja a ausência de um planejamento de contingência estruturado. O Brasil ainda não possui um arcabouço institucional robusto para responder de forma rápida, coordenada e eficiente a crises dessa magnitude”, afirma Alves.
Por que o Brasil foi tão impactado?
O choque da pandemia aconteceu em basicamente três pilares, de acordo com Natalie Verndl, economista e Delegada do Corecon-SP: oferta, demanda e questões de investimento.
Em 2020, por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) apresentou uma queda na magnitude de 4,1%, batendo recorde de desemprego e a quebra do canal de investimento em um momento no qual começava a ganhar protagonismo devido às taxas de juros baixas.
“Então a gente viu um cenário, inclusive, que é realmente perigoso para a economia. A partir do momento em que você tem uma incerteza muito alta aparece uma necessidade de liquidez praticamente imediata, restringindo o consumo e obviamente com o aumento do risco. Isso fez com que todas as empresas acabassem adiando os projetos, as famílias tentassem de certo modo aumentar sua poupança, muitas vezes tendo que gastar mais do que o necessário”, comenta Verndl.
Além disso, ela ressalta que não houve uma precaução com relação ao fiscal, o que reverbera seus efeitos até hoje, com a dificuldade de controlar a inflação, melhorar e pensar numa perspectiva de crescimento.
O país está preparado para uma nova pandemia?
O Brasil está mais experiente, mas ainda não está plenamente preparado de acordo com as especialistas. Isso porque a pandemia deixou aprendizados importantes, mas também revelou fragilidades que continuam presentes.
“Do ponto de vista econômico, o principal desafio hoje é o espaço fiscal limitado. O aumento da dívida pública durante a pandemia reduziu a capacidade do governo de implementar políticas emergenciais de grande escala, como as que foram adotadas em 2020”, avalia Alves, da Cofecon.
As economistas explicam que ainda persistem problemas estruturais relevantes no Brasil, como a elevada informalidade e as dificuldades na qualificação da mão de obra. Em alguns setores, já se observa há alguns anos inclusive escassez de profissionais qualificados, o que pressiona custos e limita o crescimento.
Em suma, o país demonstrou capacidade de recuperação relativamente rápida da atividade econômica após o pior momento da crise, o que indica algum nível de resiliência — ao que Natalie Verndl afirma que o país foi bom em “apagar incêndios”.
O Brasil está mais preparado do que estava em 2020, mas ainda longe do ideal para enfrentar uma nova crise dessa magnitude.

