Especialistas não descartam a possibilidade e sugerem que já possa estar ocorrendo uma interferência do presidente estadunidense, Donald Trump, nas eleições brasileiras de 2026, por meio de pressões diplomáticas, alinhamentos ideológicos e influência em meios digitais. Eles avaliam que, caso essa tendência política se confirme, a intervenção ocorreria por métodos convencionais combinados ao uso de táticas tecnológicas mais sutis.
De acordo com o Dr. Luiz Philipe Ferreira de Oliveira, docente de Direito Internacional e advogado, essa incursão dos Estados Unidos na sucessão eleitoral brasileira já se encontra em andamento, ainda que de forma discreta e paralela a outras prioridades da agenda externa norte-americana. O advogado afirma que não há pronunciamentos explícitos nem financiamentos diretos, mas, sim, o uso de ferramentas mais sofisticadas.
O especialista aponta, em contrapartida, que o uso de algoritmos nas redes sociais e a aplicação de pressões indiretas sobre governantes podem influenciar a dinâmica eleitoral e gerar instabilidade institucional.
Oliveira também diz que Donald Trump provavelmente pode evitar uma atuação direta nas eleições brasileiras, preferindo exercer influência por meio da mobilização de canais comunicacionais ligados ao seu espectro partidário e de manifestações públicas de apoio.
Sua atuação seria mais em caráter mais comunicativo e simbólico do que propriamente estatal, ampliando a visibilidade de determinados atores da política nacional que compartilham afinidade ideológica com o ex-presidente dos Estados Unidos.
Conexão política com Flávio Bolsonaro
O docente também destaca que Flávio Bolsonaro pode ter um papel central nesse eventual processo de aproximação com grupos ligados ao trumpismo, principalmente se for eleito presidente. Segundo Oliveira, o parlamentar busca apoio internacional para reforçar sua posição como representante do movimento bolsonarista.
Esse alinhamento inclui a tentativa de obter uma espécie de chancela política de Trump, o que consolidaria sua aceitação perante o eleitorado e, ao mesmo tempo, intensificaria as críticas externas ao Judiciário brasileiro. Assim, o apoio de Trump pode ter efeito de fortalecer candidaturas aliadas e, simultaneamente, ampliaria tensões entre instituições no Brasil.
Na avaliação de sociólogo, mestre em Ciência Política e especialista em Gestão e Avaliação de Políticas Públicas pela Universidad de Deusto na Espanha, Luiz Renato Ribeiro Ferreira, a relação entre Donald Trump e setores da direita no Brasil é mais ideológica do que estrutural.
Ele observa que o fenômeno se expressa principalmente por meio da comunicação digital e das redes sociais, sem a existência de mecanismos oficiais entre governos.
O pesquisador classifica esse movimento como uma forma de populismo transnacional, no qual líderes de diferentes países reproduzem estratégias narrativas semelhantes, marcadas por forte discurso anti-sistema e ampla presença nas redes digitais.
Assim, a influência não ocorreria pelas vias da diplomacia tradicional, mas pela formação da percepção pública em ambientes virtuais.
Um possível “tiro pela culatra”?
Outra questão sensível relacionada à possível participação norte-americana no debate eleitoral brasileiro envolve a segurança pública. O advogado Luiz Philipe Ferreira de Oliveira afirma que o Departamento de Estado dos Estados Unidos avançou em estudos para classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras.
Caso essa medida seja confirmada, a capacidade de influência política dos Estados Unidos sobre pautas internas do Brasil pode aumentar, principalmente em temas ligados à soberania e à defesa. O especialista explica que esse enquadramento gera impactos imediatos na administração pública brasileira, incluindo ampliação de operações de inteligência, mecanismos de sanção e possível bloqueio de ativos.
Segundo Oliveira, uma eventual intervenção externa pode reforçar discursos em defesa da autonomia nacional. Tanto oposição quanto governo também conseguem utilizar declarações de Trump como instrumento político interno.
Enquanto aliados buscariam legitimidade externa, opositores também podem argumentar contra o que considerariam interferência estrangeira.
Perfis e lideranças
A diferença na forma de comunicação entre as administrações também surge como fator de atrito. O especialista observa que, enquanto Trump tende a se manifestar por meio de ações diretas de marketing político e redes sociais, o governo brasileiro adota uma postura mais alinhada ao multilateralismo.
Essa divergência aumenta a possibilidade de ruídos diplomáticos e dificulta a manutenção de fluxos institucionais estáveis, sobretudo em períodos eleitorais.
O diagnóstico conjunto dos especialistas indica que, caso haja interferência de Donald Trump nas eleições de 2026 no Brasil, ela deve ocorrer principalmente de forma simbólica, digital e indireta, sem o uso de medidas governamentais oficiais.
Ainda assim, essa conjuntura tem potencial para influenciar o clima político, intensificar a polarização e moldar narrativas de campanha, especialmente entre figuras com convergência ideológica com o ex-presidente dos Estados Unidos.

