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Geopolítica

Além do Césio-137: conheça outros acidentes com radiação semelhantes ao de Goiânia

Episódios na América, Ásia e Europa mostram padrões semelhantes de exposição silenciosa e falta de controle de materiais perigosos

Além do Césio-137: conheça outros acidentes com radiação semelhantes ao de Goiânia

Como divulgado pelo O Brasilianista, o acidente com o césio-137 em Goiânia, em 1987, é frequentemente lembrado como um dos maiores desastres radiológicos em área urbana do mundo.

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No entanto, situações semelhantes ocorreram em diferentes países, com características em comum, falhas no controle de materiais radioativos, desconhecimento da população e demora na identificação dos riscos.

A partir desse episódio brasileiro, o médico Estêvão de Carvalho Aguiar, que atua em urgência e emergência no Hospital Estadual de Urgências de Goiás (HUGOL), analisa como outros acidentes ao redor do mundo ajudam a entender os impactos da radiação na saúde pública.

“Quando analisamos acidentes radiológicos e nucleares, um dos pontos centrais é o impacto na saúde da população local. Esses efeitos podem aparecer de forma imediata ou anos depois”, afirma.

O caso de Goiânia deixou quatro mortos diretos e centenas de pessoas com sequelas, além de mais de 100 mil indivíduos submetidos a triagem na época.

Ciudad Juárez

O caso de Ciudad Juárez, conhecido como “Chernóbil mexicano”, é um dos principais exemplos citados pelo médico para ilustrar como a radiação pode se espalhar de forma silenciosa. O acidente ocorreu nos anos 1980 após uma fonte de cobalto-60 ser vendida como sucata.

“Milhares tiveram algum nível de exposição, mas como a radiação foi mais dispersa e em doses menores, não houve um número confirmado de mortes imediatas”, explica Aguiar.

O médico ressalta, que de acordo com a Comissão Nacional de Segurança Nuclear e Salvaguardas do México, cerca de 4.000 pessoas foram expostas, e toneladas de aço contaminado foram distribuídas em construções pelo país.

O episódio evidencia uma falha estrutural, a ausência de controle sobre equipamentos médicos descartados. Sem fiscalização adequada, o material radioativo acabou integrado à cadeia industrial.

Kramatorsk

Outro caso emblemático ocorreu em Kramatorsk, na Ucrânia, onde uma cápsula de césio-137 ficou presa na parede de um apartamento por quase uma década, contaminando moradores sem que soubessem.

“No acidente radiológico de Kramatorsk, o impacto foi silencioso, famílias viveram anos ao lado de uma cápsula radioativa escondida na parede”, destaca o médico.

Crianças e adultos desenvolveram leucemia e outras doenças hematológicas antes da origem da contaminação ser identificada.

O caso só foi descoberto após nove anos, quando medições de radiação foram realizadas no imóvel, revelando a presença do material.

Samut Prakan

Na província de Samut Prakan, na Tailândia, um acidente em 2000 reforça como atividades cotidianas podem desencadear crises graves. Catadores de sucata desmontaram um equipamento contendo cobalto-60 sem saber do risco.

“No acidente radiológico de Samut Prakan, dez pessoas foram internadas com doença aguda da radiação e três morreram”, afirma Aguiar.

De acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), quase 2.000 pessoas que viviam próximas ao local podem ter sido expostas a diferentes níveis de radiação.

O episódio só foi identificado semanas depois, quando médicos suspeitaram da origem dos sintomas, incluindo queimaduras, vômitos e queda de células sanguíneas.

Geórgia

Já na Geórgia, após o fim da União Soviética, materiais radioativos foram deixados em uma base militar abandonada, expondo soldados durante anos sem diagnóstico correto.

“Esses efeitos podem aparecer de forma imediata ou anos depois”, reforça Aguiar, ao comentar casos de exposição prolongada.

Militares apresentaram queimaduras e sintomas típicos de radiação antes que a origem fosse descoberta. A contaminação foi atribuída a fontes utilizadas em treinamentos que não foram devidamente removidas ou sinalizadas após a desativação da base.

Impactos que vão além da radiação

Embora diferentes entre si, os casos citados pelo especialista compartilham consequências semelhantes, que vão além da exposição física ao material radioativo.

“No caso do acidente radiológico de Goiânia, houve pessoas com síndrome aguda da radiação, queimaduras severas e falência de órgãos nos casos mais graves”, afirma.

Acidentes radiológicos também geram impactos psicológicos duradouros, como ansiedade, estigma social e transtornos mentais.

Além disso, a falta de acompanhamento médico de longo prazo, como ocorreu no México, dificulta a mensuração real dos danos causados à população.

Três tipos de impacto na saúde

Ao comparar os episódios, o médico destaca que os efeitos da radiação tendem a seguir um padrão, independentemente do país ou contexto.

“Em resumo, a saúde da população é afetada de três formas principais: primeiro, pela radiação direta; segundo, por doenças futuras como câncer; e terceiro, pelo trauma social e psicológico”, conclui.

A maioria desses acidentes poderia ter sido evitada com controle rigoroso, rastreamento de materiais e fiscalização contínua.

A repetição de falhas em diferentes regiões do mundo reforça que, apesar dos avanços tecnológicos, o principal risco ainda está na gestão inadequada de fontes radioativas, muitas vezes fora de ambientes industriais ou nucleares formais.

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