Publicidade
Política

Por que o brasileiro tem a percepção de que o país não vai para frente?

A estrutura política do Brasil está frágil

Por que o brasileiro tem a percepção de que o país não vai para frente?

O brasileiro não acredita mais no sistema político. Isso pode ser medido pela ascensão social, por exemplo. Quanto mais distante entre o indivíduo e o Estado, o brasileiro se sente mais confiante — e não se trata apenas da desigualdade de renda.

Publicidade

De acordo com um levantamento de 2022 da OCDE, apenas 26% dos brasileiros declararam ter confiança alta ou moderada no governo federal. Para o cientista político Lucas de Aragão, em coluna no Brazil Journal, a sociedade de baixa confiança evidencia um problema mais profundo da estrutura política do país.

O brasileiro não desconfia apenas por acreditar que o Estado é desonesto, mas porque não vê o real propósito da sua função. Nesse cenário, a falta de confiança não é apenas moral, com a corrupção, mas operacional, em que a população se questiona se o governo é capaz de entregar, se as políticas de fato se adaptam e se manifestações funcionam para alguma coisa.

Esse segundo caso é particularmente mais difícil de reverter, visto que esse tipo de desconfiança deve ser respondido com décadas de entrega consistente, além de uma relação mais estreita entre a política e a população.

Não é ceticismo sobre a honestidade do governante, segundo Aragão, mas ceticismo sobre a utilidade de participar. Ou seja, a dúvida de muitos brasileiros é “se adianta” participar da política, fazer manifestações, abaixo-assinados, questionar, cobrar melhores estruturas de serviços públicos, entre outros fatores que determinam uma democracia.

Assim, o especialista comentou que isso transforma o problema de governança em problema de expectativa. Uma sociedade que desconfia operacionalmente é mais difícil de alcançar.

Um cenário individualista e processos burocráticos

Instituições consideradas como não confiáveis, nesse contexto, tornam-se inevitavelmente mais frágeis. O sistema também passa a operar com mais atrito, mais burocracia e menos previsibilidade. Isso abre espaço para a corrupção de uma forma natural.

É nesse cenário que surge a sensação de que seguir as regras pode ser, em muitos casos, a pior estratégia disponível. Dessa forma, a capacidade de trocar os serviços públicos por particulares se torna uma exigência para evitar se desgastar em um sistema que não vai ouvir as reivindicações do povo.

Uma sociedade que não confia também não cobra de forma coordenada, com cada grupo buscando sua própria solução, diminuindo o ambiente para projetos coletivos por falta de base social que consiga sustentá-las.

Quando quase metade das transferências federais diretas para municípios e estados passa pelo Legislativo, por exemplo, Lucas de Aragão reiterou que o sentimento é de que o orçamento deixa de ser a expressão de um plano nacional e passa a ser a soma de planos individuais.

Polarização pode piorar o cenário

O atual cenário de polarização completa o quadro. Para o cientista político, se a responsabilidade é sempre do outro lado, as instituições deixam de ser vistas como espaços de solução e passam a ser tratadas como instrumentos de disputa.

A falta de confiança resulta em maior fragmentação, que está diretamente relacionada à menor capacidade de coordenação.

O especialista relaciona ainda a baixa confiança da sociedade com uma democracia que se esvazia por dentro.

Acompanhe mais notícias do O Brasilianista pelas redes sociais