O uso de inteligência artificial (IA) por lideranças políticas tem ampliado o alcance das campanhas, mas também introduz novos riscos relacionados à manipulação de informação, intimidação digital e distorção do debate público.
A aplicação dessas ferramentas vai além da automação e passa a interferir diretamente na forma como eleitores recebem e interpretam mensagens políticas.
Segundo Marcelo Branquinho, CEO da TI Safe, empresa especializada em cibersegurança de sistemas críticos, a tecnologia tem caráter ambivalente e exige atenção quanto aos impactos na confiança pública.
“Ao mesmo tempo em que pode aumentar eficiência e personalização da comunicação, também amplia o risco de desinformação em escala industrial”, afirma.
Ferramentas digitais criam novas vulnerabilidades
A aplicação de inteligência artificial em campanhas permite que lideranças ampliem a comunicação com eleitores por meio de conteúdos automatizados e adaptados a diferentes públicos. Esse processo envolve análise de dados, geração de mensagens e distribuição em larga escala.
Segundo Branquinho, essa capacidade técnica altera o padrão tradicional da comunicação política e exige maior controle sobre a autenticidade das informações.
“Ferramentas como deepfakes e geração automatizada de conteúdo tornam mais difícil distinguir o que é autêntico, o que afeta diretamente a confiança pública”, explica.
O uso intensivo de algoritmos amplia a capacidade analítica das organizações, mas também cria desafios relacionados à governança e ao controle de dados.
O especialista aponta que a dependência excessiva dessas tecnologias pode comprometer decisões e aumentar riscos sistêmicos.
Além disso, a disseminação de conteúdos manipulados pode ocorrer em diferentes formatos, incluindo vídeos, áudios e textos, dificultando a identificação por parte do público e ampliando a circulação de informações enganosas.
Pressão sobre eleitores
O uso da inteligência artificial permite que campanhas políticas atuem de forma mais direcionada sobre o comportamento do eleitor, utilizando dados para prever reações e adaptar discursos. Esse modelo altera a dinâmica da influência política.
“A IA permite microsegmentação de eleitores, análise comportamental e otimização de mensagens, o que pode direcionar percepções e decisões individuais”, afirma Branquinho.
A combinação entre tecnologia e análise de dados exige competências como pensamento crítico e inteligência emocional por parte das lideranças.
Além da personalização, Branquinho aponta que a tecnologia pode ser utilizada para práticas mais agressivas, como intimidação digital, ataques coordenados e produção de conteúdos satíricos com potencial de distorcer a imagem de adversários.
Esse tipo de uso amplia o alcance de estratégias de engenharia social, que passam a operar em escala maior e com maior grau de sofisticação, dificultando a identificação e o combate por parte das instituições.
Regras eleitorais e limites legais no Brasil
O uso de inteligência artificial em campanhas não é proibido no Brasil, mas está sujeito a regras específicas estabelecidas pela Justiça Eleitoral. As normas buscam limitar abusos e garantir transparência no processo eleitoral.
“No Brasil, o uso de IA não é proibido, mas é regulado. O Tribunal Superior Eleitoral permite o uso de tecnologias digitais, incluindo IA, desde que respeitem regras como identificação de conteúdo manipulado, proibição de deepfakes enganosos e transparência na propaganda”, destaca Branquinho.
A governança da tecnologia envolve princípios como rastreabilidade, responsabilidade e controle de riscos. A instituição aponta que o desenvolvimento de normas acompanha a evolução das ferramentas digitais.
Apesar da regulamentação, o avanço tecnológico impõe desafios contínuos à fiscalização. A produção e distribuição de conteúdos podem ocorrer fora dos canais oficiais, o que dificulta a aplicação das regras existentes.
Efeitos sobre a confiança pública
O uso de inteligência artificial em campanhas políticas já foi registrado em diferentes países, com efeitos diretos sobre a percepção pública e o funcionamento das instituições. A adoção dessas ferramentas ocorre em contextos variados, com impactos semelhantes.
“Países como Estados Unidos, Índia, Irã e membros da União Europeia já registraram uso de IA em campanhas, seja para automação de mensagens, seja em casos controversos de deepfakes”, afirma Branquinho.
A perda de confiança em sistemas baseados em informação pode gerar efeitos amplos, que ultrapassam o ambiente digital.
O especialista destaca que a integridade dos dados é um dos principais desafios da era da inteligência artificial.

