O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) tem impulsionado a construção de data centers em escala global, levantando questionamentos sobre os impactos ambientais, energéticos e econômicos desse crescimento.
Especialistas ouvidos pelo O Brasilianista apontam que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como a expansão vem sendo conduzida, especialmente diante da demanda por energia e recursos naturais.
Consumo de energia
A doutora Francyne Elias-Piera, cientista ambiental e presidente do Instituto Gelo na Bagagem, afirma que o crescimento dos data centers já começa a gerar efeitos concretos sobre recursos essenciais.
“Quando a gente fala de data center, eles não são vilões só porque eles existem. Na verdade, eles estão se tornando isso à medida que eles estão crescendo”, afirma.
Ela explica que essas estruturas exigem grande volume de energia e água, principalmente para sistemas de resfriamento, o que amplia a pressão sobre a infraestrutura disponível.
Esse aumento de demanda ocorre de forma simultânea ao avanço da inteligência artificial, que depende de processamento intensivo.
Segundo ela, há projeções de impacto direto sobre o custo da energia, com estimativas de aumento de até 8% na conta de luz em algumas regiões, refletindo a competição por recursos entre diferentes setores da economia.
Risco energético existe, mas tende a ajustes
De acordo com o advogado João Azevedo, especialista em Direito Tecnológico e membro da International Association of Privacy Professionals, o crescimento do consumo elétrico é um ponto de atenção relevante.
Ele explica que a expansão da infraestrutura pode pressionar redes elétricas e influenciar tarifas. Ainda assim, Azevedo afirma que esse tipo de desequilíbrio tende a ser ajustado ao longo do tempo.
“A atuação das forças de mercado, como investimentos em eficiência energética, inovação em hardware menos intensivo em energia e a expansão de fontes renováveis, combinada com uma regulamentação sensível e bem calibrada, pode mitigar riscos de aumentos exagerados de preços”, explica.
Ele acrescenta que a combinação entre inovação tecnológica e regulação pode reduzir impactos sociais e ambientais, desde que haja coordenação entre os diferentes agentes envolvidos no setor.
Uso de energia define impacto ambiental
Francyne Elias-Piera destaca que o principal fator de risco está na matriz energética utilizada para sustentar o crescimento dos data centers.
“Se o crescimento desses data centers depender somente de energia fóssil, aí a conta vai chegar muito mais rápido”, destaca.
Ela ressalta que o uso intensivo de fontes não renováveis pode elevar emissões de gases de efeito estufa, ampliando o impacto sobre o aquecimento global.
Além disso, a pressão sobre o sistema energético pode afetar diretamente a população em cenários de escassez.
A especialista também aponta que soluções já existem, incluindo o uso de energia renovável e maior eficiência energética, mas que essas escolhas dependem das empresas e dos países que lideram o desenvolvimento da tecnologia.
Debate sobre bolha e excesso de investimento
O ritmo acelerado de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial também levanta discussões sobre possível desalinhamento entre oferta e demanda.
Francyne avalia que o risco não é apenas financeiro. “Se a demanda não acompanhar, não é só prejuízo de mercado, a gente tem um desperdício ambiental em escala gigantesca”, enfatiza.
Ela explica que a construção de grandes estruturas pode resultar em ativos subutilizados, com consumo contínuo de energia e recursos mesmo sem utilização plena. Esse cenário ampliaria o impacto ambiental sem retorno proporcional.
João Azevedo também reconhece a possibilidade de ajustes no mercado. Ele afirma que o volume de investimentos pode gerar expectativas que não se concretizem, levando a correções naturais.
“Esse desalinhamento investimento e retorno pode levar a uma correção de mercado, provocando perdas, consolidações e cortes de custos”, avalia.
Crises localizadas são o principal risco
O cenário mais provável, segundo especialistas, não envolve um colapso global, mas sim impactos regionais.
Francyne afirma que os efeitos tendem a aparecer de forma desigual. “A gente vai ter sim um risco real, mais silencioso, mais perigoso, que são as crises localizadas”, diz.
Entre esses efeitos estão falta de energia em determinadas regiões, aumento de custos e pressão sobre recursos hídricos. A concentração de infraestrutura em poucos locais também pode ampliar desigualdades.
O risco maior está em regiões com menor planejamento energético, onde a expansão dos data centers pode gerar competição direta com outros consumidores por energia disponível.
Papel da regulação e oportunidades para o Brasil
O Brasil possui vantagens competitivas por contar com matriz energética majoritariamente renovável e potencial de expansão sustentável. A definição de políticas públicas é apontada como fator decisivo para aproveitar esse cenário.
Estudos indicam que o país pode receber entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em investimentos em data centers até 2030, o que amplia a necessidade de regras claras para orientar esse crescimento.
João Azevedo destaca que segurança jurídica e regulação adequada são essenciais para atrair investimentos sustentáveis.
Ele aponta que normas bem estruturadas podem reduzir riscos e incentivar práticas mais eficientes no uso de energia e recursos.
Crescimento exige planejamento e responsabilidade
Francyne Elias-Piera reforça que o avanço da inteligência artificial não deve ser interrompido, mas precisa ser conduzido com critérios claros. “A IA não é o problema, o problema é como a gente está escolhendo crescer com ela”, afirma.
Ela defende que o planejamento deve considerar uso de energia limpa, reaproveitamento de água e eficiência operacional, como forma de reduzir impactos ambientais.
A especialista destaca que decisões tomadas agora vão definir o equilíbrio entre desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade, especialmente em um cenário de expansão acelerada da infraestrutura digital.

