Ao longo dos anos, o universo de ficção científica descreveu a radiação como uma ótima opção para ganhar “superpoderes” e participar dos mais icônicos grupos de super-heróis já vistos pela cultura pop.
O Dr. Bruce Banner se transformou em Hulk após um experimento falho com radiação gama. O resultado? Um gigante verde capaz de destruir — ou salvar — todos que estão ao seu redor.
Já os membros do Quarteto Fantástico também garantiram seus poderes por meio da radiação cósmica, que se revelou em capacidades extraordinárias, oferecendo a chance desse grupo salvar o mundo em diversos quadrinhos, séries ou filmes.
Para além da fantasia e dos roteiros cinematográficos, os efeitos da radiação, a depender da quantidade são altamente perigosos para o corpo humano. Um caso real não vai muito longe: há quase quatro décadas, o Brasil viveu um dos piores episódios dessa exposição, com o acidente com Césio-137, em Goiânia.
O acidente começou em setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia. O material acabou sendo vendido a um ferro-velho, onde a substância radioativa foi manipulada e distribuída sem que houvesse conhecimento dos riscos.
Roseli Kunzel, Doutora em Física, do Departamento de Física da Unifesp, conta ao O Brasilianista que, em geral, as pessoas não possuem muito conhecimento sobre radiação e proteção radiológica. Nesse contexto, filmes, séries e até mesmo quadrinhos podem influenciar o imaginário, especialmente em crianças, adolescentes e pessoas sem formação científica, a uma exposição a elementos “curiosos” que podem ter efeitos graves.
“Não diria que a ficção é a principal causa de comportamento perigoso. O problema maior é quando a ficção reforça ideias erradas: que material radioativo sempre brilha, que a radiação pode transformar os seres vivos de modo ‘fantástico’ e que alguém pode manipular uma fonte desconhecida por curiosidade sem sofrer danos”, afirma Kunzel.
O risco real, segundo ela, é a pessoa, ao encontrar objetos com o símbolo de radiação, aproximar-se, tocar, guardar, abrir ou manipular esse material radioativo.
Nesse caso, narrativas ficcionais podem atrapalhar quando romantizam a radiação.
“Por outro lado, filmes e séries podem ajudar se forem usados para educação científica, explicando que radiação ionizante não dá superpoderes, que manter distância e ficar pouco tempo próximo à fonte são formas de se proteger, e que um objeto desconhecido com o símbolo de radiação nunca deve ser manipulado”, avalia.
Exposição e efeitos no organismo
Em entrevista para esta matéria do O Brasilianista, o médico Estêvão de Carvalho Aguiar, especialista em Medicina de Família e Comunidade e atuante no Hospital Estadual de Urgências de Goiás (HUGOL), explicou que o impacto da radiação depende principalmente da dose e do tipo de exposição.
Em geral, a radiação pode danificar estruturas importantes das células e DNA, alterando o funcionamento dos sistemas do corpo e contribuindo para o desenvolvimento de doenças ao longo do tempo.
Os impactos da radiação variam conforme a intensidade e o tempo de contato. Em situações mais graves, os sintomas podem surgir rapidamente.
Por sua vez, a física reitera que deve-se sempre evitar exposições desnecessárias, pois pode haver aumento da probabilidade de efeitos tardios, como câncer. Esses efeitos, chamados de estocásticos, não ocorrem necessariamente, mas a chance de ocorrência aumenta com a dose.
“Em doses altas, especialmente aquelas recebidas em um curto intervalo de tempo, podem ocorrer efeitos agudos nos tecidos e órgãos. Entre os efeitos estão vermelhidão, queimaduras, náuseas, vômito, bem como a morte”, revela a especialista.
Por outro lado, a radiação não ionizante normalmente não tem energia para ionizar átomos, mas a exposição excessiva à radiação ultravioleta — emitida pelo Sol, por exemplo — sem proteção é o principal fator de risco para câncer de pele.
A população brasileira não tem conhecimento de proteção radiológica
Profissionais que trabalham com radiação precisam realizar cursos e treinamentos específicos para lidar com essas exposições.
Entretanto, Roseli Kunzel, da Unifesp, reforça que a população em geral possui pouco conhecimento sobre radiação e normalmente associa esse tipo de exposição apenas a bombas nucleares ou acidentes nucleares como Chernobyl e o acidente de Goiânia.
“Em geral, não associa as aplicações benéficas, como no caso das imagens médicas e do tratamento de patologias”, relembra.
Isso pode gerar um efeito em cadeia para os riscos. Mesmo sabendo que a radiação pode oferecer riscos, muitas vezes as pessoas não compreendem quando ela é perigosa, quando é controlada, quais fontes fazem parte do cotidiano e quais atitudes devem ser tomadas diante de uma fonte desconhecida.
Onde as pessoas têm mais contato com radiação sem perceber?
“Estamos constantemente expostos à radiação“, diz Kunzel. A radiação pode ser classificada em ionizante e não ionizante.
Dentro do grupo das chamadas radiações não ionizantes, de acordo com a Doutora em Física, estão a luz emitida pelas lâmpadas e pelo Sol.
“A maior parte da luz emitida pelo Sol não causa danos, mas a parcela dela que possui maior energia, chamada de radiação UV, pode induzir efeitos importantes nos seres humanos, principalmente na pele e nos olhos, como o câncer de pele e a catarata”, informa.
Kunzel também fala da radiação ionizante, mais comuns ao realizar exames como radiografias, tomografias, exames de cintilografia e radioterapia. É importante salientar que, nesses casos, a exposição é controlada e os benefícios para o paciente justificam a exposição.
“Também somos continuamente expostos à radiação natural por meio de fontes naturais como radônio, tório e raios cósmicos. A educação em proteção radiológica deve ensinar que a radiação é extremamente útil na medicina, na indústria e na pesquisa, mas não se deve manipular objetos com o símbolo da radioatividade, e a melhor forma de evitar exposição é manter distância”, acrescenta.

