A delação de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, deve atingir diversos núcleos, desde o político, devido à relação do banqueiro com líderes partidários, deputados e senadores, até o da Faria Lima, por conta dos operadores financeiros envolvidos nas fraudes descobertas pela Polícia Federal (PF).
Um dos nomes citados por Vorcaro deve ser o de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) que também negocia delação premiada. A relação entre o dono do Master e Costa garantiu que o BRB cobrisse os rombos do Master, que oferecia investimentos anunciando que a aplicação seria segura por conta do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O uso do BRB para manter o Master funcionando pode implicar também Ibaneis Rocha, ex-governador do Distrito Federal (DF) que sonha em ser senador. Vorcaro já contou às autoridades que se encontrou com Ibaneis. O fato foi confirmado pelo próprio político, que nega ter cometido crimes e diz que sua relação com o banqueiro é superficial.
A possível menção a Ibaneis deve vir acompanhada do nome de Celina Leão (PP), que substituiu o ex-governador do DF no comando do Executivo da capital federal. Leão nega ter com pactuado com irregularidades — mas ela e Ibaneis também podem ser citados na delação de Costa.
Outra pessoa próxima a Ibaneis e que foi ligada ao Caso Master foi o ex-presidente Michel Temer. Padrinho político do ex-governador do DF, Temer foi citado em reportagem por apresentar Vorcaro a investidores estrangeiros que poderiam ter salvo o Banco Master.
O Distrito Federal não deve ser a única unidade federativa a ser impactada pela delação de Vorcaro. O Amapá de Davi Alcolumbre pode sofrer os efeitos das confissões do banqueiro porque o Amapá Previdência, fundo de pensão de servidores estaduais, aportou R$ 400 milhões no Master e está na mira da PF.
Como nada no Amapá é feito sem o aval de Davi Alcolumbre, presidente do Senado, confissões de Vorcaro que envolvam autoridades do estado podem, eventualmente, esbarrar em Alcolumbre. O Rio de Janeiro (RJ), devido aos aportes do RioPrevidência no Master, também deve ser afetado pelos crimes de Vorcaro.
O Rioprevidência, fundo de pensão dos servidores fluminenses, aportou R$ 970 milhões no Master durante a presidência de Deivis Marcon Antunes, nomeado para o cargo pelo ex-governador do RJ Cláudio Castro a mando de Antônio Rueda, presidente do União Brasil.
Essa rede de conexões políticas faz com que os nomes de Castro e Rueda sejam cotados para integrarem a delação de Vorcaro. Mas as menções ao União Brasil não devem se limitar ao presidente do partido. ACM Neto, secretário-geral do União, já admitiu ter relação com Vorcaro.
Só que ACM Neto pode ser um, dentre diversos políticos baianos enrolados pela confissão de Vorcaro, tanto que as lideranças políticas no estado firmaram um pacto de não agressão quando ao Caso Master para as eleições deste ano.
O armísticio parcial foi combinado porque o dono do Master mantinha proximidade com diversos campos ideológicos, como o PT da Bahia, que tem como principais lideranças Rui Costa, ministro da Casa Civil e ex-governador do estado, e o senador Jaques Wagner.
Wagner já afirmou em entrevista ao BNews que não manteve proximidade com Vorcaro e que o mais próximo que chegou do Master foi quando foi procurado por Augusto Lima, ex-CEO do Master, para discutir a implantação do Credcesta, cartão cedido a servidores e que garante acesso a crédito consignado e outros benefícios.
O modelo de consignação foi criado por Augusto Lima e também é usado no Rio de Janeiro. Lima era o principal braço de influência política de Vorcaro e, após ter se casado com Flávia Peres, ex-Flávia Arruda, aumentou sua rede de contatos.
Peres (ex-Arruda) é próxima de Ciro Nogueira, presidente do PP que arquitetou a federação do seu partido com o União Brasil juntamente com Rueda. Ciro é outro político citado nos bastidores de Brasília como nome certo a ser citado por Vorcaro.
Ciro Nogueira, juntamente com Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, foi um dos poucos políticos que divulgou publicamente seu apoio a Dias Toffoli quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) era muito pressionado a abandonar a relatoria do Caso Master.
Toffoli foi alvejado pelo Caso Master devido a operações milionárias no Resort Tayayá, empreendimento de sua família localizado no Paraná e que foi usado pelo ministro do STF para receber figuras da elite brasileira, como André Esteves, banqueiro citado por Vorcaro em mensagens como responsável pela derrocada do Master.
O banco de Esteves, o BTG, é alvo de um processo judicial juntamente com o Itaú e o Nubank por ofertarem os títulos podres vendidos pelo Banco Master e que causaram um rombo de R$ 50 bilhões no FGC.
Outro ministro do STF que foi bastante implicado no Caso Master é Alexandre de Moraes, por conta do contrato de centenas de milhões de reais que sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, mantinha com o Banco Master para prestação de serviços jurídicos.
Investigações da Polícia Federal encontraram mensagens do banqueiro para Moraes, que nega qualquer tipo de contato com Vorcaro. Não há registro de resposta do ministro do STF ao banqueiro, que procurou o magistrado pouco antes de ser preso pela PF em novembro de 2025, mesmo mês em que o Master foi liquidado pelo Banco Central (BC).
Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados filiado ao Republicanos, também pode ser afetado pelo Caso Master. A cunhada de Motta, Bianca Medeiros, conseguiu que Vorcaro lhe emprestasse R$ 22 milhões em março de 2024.
Motta também é citado no Caso Master por conta de uma emenda parlamentar feita por ele num projeto de lei sobre crédito de carbono. A sugestão obrigava seguradoras a aportar 0,5% de suas reservas técnicas nesse tipo de investimento, o que injetaria de R$ 7 bilhões a R$ 9 bilhões anuais num mercado visado pelo Master.
A decisão do governador do Paraná, Ratinho Júnior, de não disputar a Presidência nas eleições deste ano foi interpretada como receio do político em ser alvejado pelo Master. Não há provas de que o filho do apresentador Ratinho tenha se beneficiado do esquema, mas os bastidores de Brasília entenderam que o político recuou para não ser alvejado por acusações do banqueiro.
Efeitos
A menção, por Vorcaro, de supostos crimes cometidos por nomes da cúpula política brasileira garantem ao banqueiro que figuras influentes pressionem a Polícia Federal contra a continuação da investigação. Essa tática é comum entre acusados de corrupção em casos com grande repercussão.
A chance de exposição do padrinho político faz com que as engrenagens de Brasília atuem para matar a investigação ou, no mínimo, atrasá-la o máximo possível, para que as regras processuais garantam a impossibilidade de punição por prescrição.
Essa tática também pode funcionar se Vorcaro citar a participação de algum ministro do STF nos esquemas do Master. A menção de um nome da Corte pode reanimar o espírito de corpo do Tribunal, que já anulou inúmeras investigações por erros da PF e do Ministério Público Federal na condução das apurações.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

