A Operação Compliance Zero investiga as atividades e envolvidos na fraude bilionária gerada pelo grupo Master. Nesta quinta-feira (07), a Polícia Federal (PF) seguiu para a quinta fase da operação, que atingiu nomes como o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que era financiado por Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, para oferecer vantagens ao banqueiro em Brasília.
Vale lembrar que a operação começou com uma representação do Banco Central (BC) em julho de 2025, após o BC rejeitar a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
Os motivos para a recusa, segundo o BC, eram o fluxo atípico de recursos transferidos pelo BRB ao Master nos primeiros meses de 2025, ultrapassando o limite de exposição do Banco Regional de Brasília.
Vorcaro comprou a participação no banco Master em 2017, assumiu o controle em 2019 e mudou o nome da instituição para Master em 2021. Desde o início da nova gestão, o banco ficou conhecido no mercado por oferecer investimentos de alto retorno e risco.
O BC começou a suspeitar após as negociações do Master com o Banco de Brasília (BRB), uma estatal que aportou R$ 16,8 bilhões em carteiras de crédito na instituição privada. O banco não pagou os investidores e revendeu os ativos do BRB em 2025, recebendo cerca de R$ 12 bilhões em retorno.
As 5 fases da Operação Compliance Zero
De acordo com a Polícia Federal (PF), a primeira fase tinha como foco combater a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras que integram o Sistema Financeiro Nacional. Foi nessa etapa que foi descoberta a fraude de R$ 12 bilhões do Master — a maior de todo o sistema brasileiro.
Policiais cumpriram cinco mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 25 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal.
Na segunda fase, deflagrada em janeiro deste ano, policiais apuravam a prática dos crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Na época, foi desenrolada a “Turma de Vorcaro”.
Foram realizados 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, bloqueando bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões, segundo a PF.
A 3ª fase da operação realizada em março teve o objetivo de investigar a possível prática dos crimes de ameaça, de corrupção, de lavagem de dinheiro e de invasão de dispositivos ao cumprir 4 mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e de Minas Gerais.
Na época, a PF também informou que foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e de sequestro e de bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões.
Já a 4ª fase, deflagrada em abril, investigou esquema de lavagem de dinheiro para o pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos. Policiais federais cumpriram dois mandados de prisão preventiva e sete de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo.
Por fim, a 5ª etapa da Operação Compliance Zero segue investigando a lavagem de dinheiro e corrupção, em que os policiais realizaram dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária, nos estados do Piauí, de São Paulo, de Minas Gerais e no Distrito Federal.
A decisão judicial autorizou nesta última fase o bloqueio de bens, de direitos e de valores no valor de R$ 18,85 milhões, segundo a PF.
Liquidações extrajudiciais
No mesmo dia da deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, o Bacen realizou a liquidação extrajudicial da instituição financeira investigada.
Outras instituições financeiras ligadas ao grupo Master, como Reag e Will Bank, também foram liquidadas. É estimado que o rombo no FGC seja de quase R$ 50 bilhões, o que pode prejudicar toda a cadeia econômica dos próximos cinco anos.
As instituições liquidadas por suspeitas de fazer parte da fraude foram:
- Banco Master S/A, em novembro de 2025;
- Banco Master de Investimento S/A, em novembro de 2025;
- Banco Letsbank S/A, em novembro de 2025;
- Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, em novembro de 2025;
- Reag Trust Distribuidora de Títulos Valores Mobiliários S.A, em janeiro de 2026;
- Will S.A Crédito Financiamento e Investimento, conhecida como Will Bank, em janeiro de 2026;
- Banco Pleno, em fevereiro de 2026;
- Pleno DTVM, em fevereiro de 2026;
- Entrepay Instituição de Pagamento S.A., em março de 2026;
- Acqio Adquirência Instituição de Pagamento S.A., em março de 2026;
- Octa Sociedade de Crédito Direto S.A., em março de 2026.
Vale lembrar que a liquidação extrajudicial é um mecanismo utilizado pelo BC quando uma instituição financeira não consegue mais cumprir suas obrigações ou viola normas essenciais do setor. Ao ser decretada, a empresa tem seu funcionamento encerrado e passa por um processo organizado de retirada do Sistema Financeiro Nacional.
Na prática, todas as dívidas da instituição são consideradas vencidas, novas operações ficam proibidas e os credores precisam seguir um rito legal para tentar reaver valores devidos.
O regulador recorre à liquidação extrajudicial em casos de insolvência irreversível, quando a empresa não tem condições financeiras de se recuperar, ou diante de infrações graves às regras que regem o mercado financeiro.
Oitivas
Durante as oitivas do caso, Daniel Vorcaro afirmou que o modelo de negócio da empresa era 100% baseado no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A carteira de Certificados de Depósito Bancários (CDBs) da instituição subiu de R$ 2,5 bilhões para R$ 40 bilhões em seis anos.
O esquema funcionava assim: o Master oferecia CDBs com retornos muito acima do mercado, o banco utilizava os aportes em investimentos de alto risco e começou a perder sua liquidez de curto prazo.
Caso acontecesse algum problema com a empresa, os clientes seriam ressarcidos pelo FGC em até R$ 250 mil.
As oitivas também receberam relatos de autoridades do Banco Central, além de responsáveis pelo Banco de Brasília (BRB), que ainda passa pelos efeitos do escândalo.
Delação premiada
O ex-dono do Master enviou uma delação premiada à PF na última terça-feira (05), com nomes dos envolvidos no caso. Parlamentares, outros nomes da política, ministros do STF e importantes referências do setor financeiro devem ser mencionadas.
Logo depois do envio, nesta quinta-feira (07), Ciro Nogueira, senador e presidente do PP, se tornou o novo investigado da Operação Compliance Zero.
De acordo com despacho enviado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, o parlamentar era bancado pelo ex-dono do grupo financeiro, Daniel Vorcaro.
Conforme mostrado pelo O Brasilianista, Nogueira recebeu mesada de Vorcaro pelo menos desde 2021. O valor começou em R$ 300 mil, mas aumentou para R$ 500 mil em 2023.
O irmão do senador Ciro Nogueira (PP-PI), Raimundo Nogueira, também se tornou um dos investigados pela Operação Compliance Zero.
A quinta fase da operação, impede que os irmãos mantenham contato com qualquer investigado pela ação — inclusive um com o outro. A Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão em endereços ligados a Raimundo nesta manhã.
Raimundo é acusado de atuar como “agente de sustentação formal e operacional da estrutura empresarial vinculada ao núcleo familiar de Ciro Nogueira”.

