A decisão que atingiu o senador Ciro Nogueira na Operação Compliance Zero coloca o parlamentar no centro das suspeitas investigadas pela Polícia Federal. O documento afirma que os elementos reunidos até agora indicam a existência de “vínculo funcional estável” entre o senador e integrantes de núcleos empresarial e financeiro ligados à estrutura investigada.
O trecho da decisão destaca que esses grupos teriam participação direta em movimentações patrimoniais e em decisões estratégicas relacionadas aos supostos crimes apurados. O texto também afirma que Ciro Nogueira aparece como “principal beneficiário” das condutas investigadas envolvendo possíveis atos de lavagem de capitais.

A proximidade entre o parlamentar e outros investigados poderia influenciar diretamente o andamento da apuração. O magistrado cita risco de alinhamento de versões, combinação de estratégias defensivas e circulação de informações consideradas sensíveis para a investigação.
Foi justamente esse cenário que levou à imposição da medida cautelar que proíbe contato entre o senador e os demais investigados da operação. A decisão sustenta que a restrição seria necessária para preservar a investigação criminal, sem impedir o exercício do mandato parlamentar.
Investigação detalha ligação entre senador e núcleo financeiro
A Polícia Federal aponta indícios de que Ciro Nogueira teria atuado em favor de interesses do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro em troca de vantagens econômicas. Entre os episódios mencionados está a apresentação da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023.
Os investigadores afirmam que a proposta, relacionada ao aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, teria sido elaborada por integrantes ligados ao Banco Master e posteriormente apresentada pelo senador no Congresso Nacional.
O documento cita ainda mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro após a publicação da emenda. Em uma delas, o banqueiro teria afirmado que o texto “saiu exatamente como mandei”.
A investigação também identificou circulação de minutas de projetos legislativos entre pessoas ligadas ao empresário e o entorno do senador. Os autos apontam que documentos chegaram a ser entregues na residência de Ciro Nogueira antes de seguirem para análise e processamento.
Os investigadores identificaram preocupação dos envolvidos em evitar associação direta entre os documentos e o Banco Master. A decisão cita orientação para que envelopes utilizados não tivessem qualquer referência à instituição financeira.
Decisão menciona pagamentos e vantagens investigadas
A apuração também descreve suspeitas envolvendo repasses financeiros e operações societárias. Investigadores identificaram pagamentos mensais de R$ 300 mil, com relatos posteriores de aumento para R$ 500 mil.
Os valores teriam sido operacionalizados por integrantes do núcleo financeiro investigado por meio da chamada “parceria BRGD/CNLF”. Em uma das mensagens citadas nos autos, FELIPE VORCARO pergunta: “Oi, é para continuar pagando a parceria brgd/cnlf? 300k mes?”. DANIEL VORCARO responde: “Sim”.
Os investigadores também apontam suspeitas sobre a aquisição de participação societária ligada à Green Investimentos S.A. A decisão afirma que uma fatia avaliada em aproximadamente R$ 13 milhões teria sido adquirida por cerca de R$ 1 milhão por empresa associada ao núcleo familiar do senador.
O documento sustenta que a operação apresenta indícios de “deságio extremo” e possível transferência indireta de vantagem econômica. A investigação também menciona suspeitas relacionadas ao pagamento de viagens internacionais, hospedagens de alto padrão, restaurantes e uso de imóvel atribuído ao banqueiro.
O conjunto de elementos analisados indica possível prática de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro nacional.
PF e MPF defenderam restrição de contato
A Polícia Federal solicitou medidas cautelares para impedir contato entre os investigados, argumentando que a proximidade entre eles poderia comprometer a coleta de provas.
O Ministério Público Federal concordou com o pedido apresentado pela PF. O parecer afirma que os elementos reunidos indicam relação empresarial, financeira e pessoal entre os investigados, além de possível influência de interesses privados sobre atuação política.
Na decisão, o magistrado afirma que a proibição de contato não representa restrição desproporcional ao senador. O texto sustenta que a medida tem como objetivo exclusivo evitar interferências no andamento da investigação criminal.

