Nos últimos anos, uma percepção se tornou praticamente consenso entre diferentes gerações: o dinheiro parece valer cada vez menos. Mesmo com aumento de salários e cargos, está cada vez mais difícil manter o padrão de vida e conquistar patrimônio.
Isso não se deve somente a um novo estilo de vida, talvez mais exuberante do que gerações anteriores. O cenário é curioso: pessoas mais jovens sentem que seus pais e avós conquistaram diversos bens materiais na mesma idade, enquanto eles não conseguem sustentar suas próprias vidas.
O efeito não é somente um fator psicológico de comparação, mas um fato real da economia global, que sofreu uma mudança estrutural nos últimos anos.
Os efeitos da inflação
Para compreender o que aconteceu, é importante conhecer o conceito de inflação. Conforme explica Bruno Guimarães, planejador financeiro CFP pela Planejar, ela é a variação média dos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias, sinalizando o ritmo em que o custo de vida aumenta ao longo do tempo.
No Brasil, a inflação é representada mais comumente pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“O próprio IBGE também mostra que, apesar de avanços pontuais, o rendimento médio real (acima da inflação) do brasileiro tem crescido de forma lenta nas últimas décadas, enquanto despesas essenciais — como moradia, alimentação e serviços — registram aumentos consistentes. Esse descompasso entre renda e custo de vida torna-se um dos principais fatores por trás da perda de poder de compra da população”, afirma Guimarães.
Trata-se de um “novo normal”, de natureza estrutural e global. Segundo ele, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta, em seus relatórios, que o crescimento dos salários em diversas economias avançadas tem ficado abaixo do aumento do custo de vida desde os anos 2000.
Além disso, um fenômeno que agravou significativamente esse cenário foi a pandemia da Covid-19. O estado de emergência global de saúde causou forte choque econômico que desorganizou as cadeias produtivas, gerou inflação e levou à elevação dos juros em nível global.
“O Brasil, que não é uma ‘ilha isolada’, foi impactado de forma semelhante a outros países. Os efeitos citados trouxeram reflexos adicionais, como o encarecimento do crédito e dos financiamentos em geral, baixa produtividade econômica, desestímulo ao empreendedorismo, aumento da desigualdade social e maior insegurança financeira“, destaca.
Jovens podem demorar mais que o dobro do tempo de seus avós para conquistar um imóvel
O sonho da casa própria também é uma realidade distante quando analisado sob a perspectiva de poder de compra do brasileiro.
O Brasilianista informou que uma em cada cinco casas brasileiras é ocupada por pessoas que vivem sozinhas, representando quase 20% das unidades habitacionais do país, de acordo com dados da PNAD Contínua sobre Características Gerais dos Domicílios e Moradores, divulgados pelo IBGE.
No entanto, os imóveis alugados aumentaram 54,1% entre 2016 e 2025, sendo hoje a principal forma como moram os brasileiros. Muitas vezes, o aluguel é uma parte da renda que pode comprometer ou adiar por um longo tempo a compra efetiva de um imóvel, especialmente entre as gerações que ainda estão construindo seu patrimônio.
“A dificuldade de adquirir um imóvel é um dos indicadores mais evidentes desse fenômeno [queda do poder de compra]. Estudos internacionais, como os do FMI (Fundo Monetário Internacional), apontam que os preços dos imóveis cresceram significativamente acima da renda em diversas economias”, alega o planejador financeiro.
É interessante observar a diferença de cenário entre as gerações. No Brasil, dados de mercado e estudos setoriais compilados pelo especialista mostram uma tendência semelhante:
- Geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964): imóveis equivaliam, em média, a cerca de 3 a 5 anos de renda
- Geração X (nascidos entre 1965 e 1981): entre 6 e 8 anos de renda
- Millennials e Geração Z (1981–1996; 1997–2010): frequentemente acima de 10 anos de renda
Ou seja, brasileiros que hoje possuem entre 16 e 45 anos podem levar mais do que o dobro do tempo de seus avós para conquistar um imóvel.
É possível voltar ao cenário das gerações anteriores?
Segundo o especialista, dificilmente. Isso porque as condições econômicas do passado eram diferentes: havia menor urbanização, menor competição global e menor pressão sobre ativos.
“Por outro lado, o cenário pode melhorar e levar a uma estabilização do poder de compra, caso haja controle da inflação, crescimento econômico sustentável no longo prazo e ganhos de produtividade”, reforça.
O que muda no planejamento financeiro de longo prazo?
A conclusão é clara: planejar e investir o patrimônio de forma adequada tornou-se essencial.
“Com maior expectativa de vida e custos mais elevados, cada decisão financeira ganha relevância e precisa considerar horizontes mais longos. Na prática, esse contexto exige maior diversificação patrimonial, com exposição a ativos reais — como títulos indexados à inflação, ações, imóveis e commodities, por exemplo”, considera Guimarães.
Ainda assim, o planejador financeiro reitera que toda escolha de ativos deve respeitar os objetivos, o perfil, o horizonte de investimento e a composição patrimonial de cada investidor.
Esse processo de gestão e organização pode ser conduzido por um profissional devidamente certificado para atuar no planejamento patrimonial das famílias.

