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Economia

Os sinais de alerta que podem anteceder pedidos de recuperação judicial

Alta no número de companhias em reestruturação acende atenção para investidores

Os sinais de alerta que podem anteceder pedidos de recuperação judicial

O número de empresas em recuperação judicial atingiu o maior patamar da série histórica em 2025 e ampliou o debate sobre os sinais que antecedem crises financeiras mais graves.

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Dados da Serasa Experian apontam que 2.466 empresas entraram em processos de recuperação judicial no último ano, alta de 13% na comparação com 2024.

O país registrou 977 pedidos de recuperação judicial em 2025, avanço de 5,5% em relação ao ano anterior.

O levantamento também mostra que o volume é o maior desde 2016 e ocorre em um ambiente de crédito mais restritivo, juros elevados e aumento da inadimplência empresarial.

Para a especialista em finanças, investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, Milene Dellatore, muitos sinais de deterioração aparecem antes de uma empresa recorrer à Justiça para reorganizar suas dívidas.

Ela afirma que parte desses indícios pode ser identificada nos balanços financeiros e também no comportamento operacional da companhia.

“Os principais que eu olho são: geração de caixa operacional negativa por mais de dois trimestres consecutivos, dívida líquida subindo enquanto EBITDA cai, o que deteriora o índice de alavancagem rapidamente, e cobertura de juros abaixo de 1,5x”, afirma.

Pressão no caixa costuma surgir antes da crise

A recuperação judicial continuou sendo utilizada como instrumento de ajuste de balanço em um cenário de crédito seletivo e custo financeiro elevado.

O indicador aponta que o número de empresas envolvidas em reestruturações ficou consistentemente acima da média histórica ao longo de 2025.

Milene destaca que a deterioração do caixa é um dos primeiros sinais concretos de que a situação financeira pode se agravar rapidamente.

Segundo ela, o problema se intensifica quando a empresa passa a utilizar novos empréstimos apenas para cobrir despesas financeiras antigas.

“Quando a empresa está pagando juros com mais juros, o problema já é sério”, afirma.

O ambiente econômico segue pressionando empresas mais expostas ao crédito e à desaceleração da demanda.

Ela explica que o aumento das recuperações judiciais acompanha a dificuldade de renegociação de passivos em diferentes setores da economia.

Balanços financeiros trazem sinais ignorados

A nova metodologia do indicador diferencia o número de processos do total de empresas afetadas pelas recuperações judiciais.

A mudança permite medir de forma mais precisa o alcance econômico das reestruturações e o impacto sobre grupos empresariais.

Milene afirma que investidores costumam concentrar atenção apenas no lucro líquido, ignorando dados considerados mais relevantes para avaliar a saúde financeira das companhias. Ela destaca que o fluxo de caixa livre costuma revelar problemas antes das demonstrações de resultado.

“Lucro líquido pode ser manipulado contabilmente por muito mais tempo do que o caixa. Por isso eu sempre digo: acompanha o fluxo de caixa livre. Empresa que lucra mas não gera caixa está contando uma história”, explica.

A especialista também aponta que mudanças no perfil das dívidas merecem atenção. Segundo ela, empresas que substituem dívidas de longo prazo por crédito mais curto e caro geralmente já enfrentam restrições no mercado financeiro.

“Quando você vê rolagem de dívida com prazos cada vez menores e taxas cada vez mais altas, o mercado de crédito já precificou o risco antes da bolsa”, destaca.

Mudanças internas também podem indicar risco

Os setores de agropecuária e serviços concentraram a maior parte dos pedidos de recuperação judicial em 2025.

A agropecuária respondeu por 30,1% dos CNPJs envolvidos, enquanto serviços representaram 30% do total.

Milene afirma que nem todos os sinais de dificuldade aparecem diretamente nos balanços. Segundo ela, alterações internas na estrutura de comando das empresas podem funcionar como alerta para investidores e credores.

“Troca repentina de CEO, CFO ou auditor, principalmente se o auditor novo for menor que o anterior, merece atenção imediata”, completa.

Ela também destaca que atrasos em pagamentos a fornecedores costumam circular primeiro entre empresas do setor antes de aparecerem oficialmente nas demonstrações financeiras.

Além disso, a emissão de dívidas com garantias mais pesadas pode indicar perda de acesso ao crédito tradicional. “Quando a empresa começa a dar ativos como garantia, ela já não tem mais crédito limpo”, afirma.

Recuperação judicial não significa necessariamente falência

Os pedidos de falência apresentaram queda de 19% em 2025 na comparação com o ano anterior. Foram registrados 698 CNPJs envolvidos em pedidos de falência, número bem inferior ao observado em 2012.

O avanço de instrumentos de renegociação e reestruturação financeira reduziu o uso da falência como mecanismo de cobrança. Atualmente, muitas empresas buscam acordos extrajudiciais antes de recorrerem à liquidação definitiva.

Milene avalia que parte dos investidores ainda interpreta a recuperação judicial de maneira simplificada, sem considerar os riscos de longos processos de reestruturação e perda de liquidez dos ativos.

“Às vezes não é: o pior cenário é a empresa entrar em recuperação, o processo se arrastar por anos, e o investidor ficar preso num ativo ilíquido sem perspectiva de recuperação real do capital”, afirma.

Os dados de inadimplência continuam elevados no país. Em janeiro de 2026, o Brasil registrou 8,7 milhões de empresas negativadas, com dívida média de R$ 23.138,40 por CNPJ e cerca de sete restrições financeiras por empresa.

Milene afirma que investidores precisam avaliar não apenas o potencial de valorização de empresas em dificuldades financeiras, mas também a capacidade de saída do investimento em cenários de agravamento da crise.

“Antes de comprar qualquer empresa em estresse financeiro, a pergunta certa não é ‘quanto posso ganhar se der certo’, é ‘consigo sair se piorar?’”, destaca.

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