O Brasil aparece entre os países com maior potencial mineral do mundo quando o assunto são terras raras, grupo de elementos químicos considerados estratégicos para setores como tecnologia, defesa, transição energética e indústria automotiva.
Apesar de possuir cerca de 21 milhões de toneladas em reservas conhecidas, o país ainda está distante da posição ocupada pela China no mercado global desses minerais.
A diferença entre os dois países vai além da quantidade de reservas e envolve capacidade industrial, tecnologia, planejamento estatal e domínio do processamento químico.
O debate ganhou espaço nas últimas semanas após o avanço do Projeto de Lei 2.780/24 na Câmara dos Deputados.
A proposta cria diretrizes para a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e busca estimular investimentos ligados à cadeia produtiva das terras raras.
Brasil extrai minério, China domina indústria
O especialista em comércio exterior e sócio da Saygo Comex, Ronaldo Félix, afirma que a principal diferença entre os dois países está no nível de industrialização da cadeia produtiva.
Enquanto o Brasil ainda concentra esforços na extração mineral, a China construiu um sistema integrado que controla praticamente todas as etapas da produção.
“O principal domínio da China está no processamento e refino, e não apenas na extração. Esse é o ponto mais relevante do debate geopolítico atual”, afirma Félix.
Segundo o especialista, possuir reservas minerais não garante liderança econômica ou tecnológica. O maior valor agregado das terras raras surge justamente nas etapas posteriores à mineração, como separação química, purificação industrial e fabricação de componentes utilizados em equipamentos tecnológicos.
“Muitos países possuem reservas minerais relevantes, mas poucos dominam o refino em escala industrial e com eficiência econômica”, explica.
De acordo com O Brasilianista, a China lidera tanto a produção quanto o refino global desses minerais. O país asiático também concentra boa parte da fabricação de ímãs permanentes usados em motores elétricos, turbinas e equipamentos eletrônicos.
Falta de planejamento é apontada como entrave
Para Ronaldo Félix, outro fator que distancia o Brasil da China é a ausência de uma política industrial de longo prazo voltada ao setor mineral estratégico.
O especialista afirma que Pequim iniciou essa estratégia ainda nas décadas de 1980 e 1990, com forte coordenação estatal.
“A China desenvolveu sua cadeia produtiva de terras raras a partir de uma estratégia de Estado de longo prazo, iniciada ainda nas décadas de 1980 e 1990”, destaca.
Segundo Félix, o governo chinês utilizou subsídios, incentivos fiscais, financiamento público e proteção regulatória para fortalecer empresas nacionais ligadas ao setor. Além disso, houve investimento contínuo em engenharia química, pesquisa e qualificação técnica.
“O investimento chinês em tecnologia e refino foi extremamente elevado ao longo das últimas décadas”, afirma.
No caso brasileiro, especialistas apontam que a exploração mineral historicamente esteve mais ligada à exportação de commodities do que ao desenvolvimento de cadeias industriais completas. O resultado foi a manutenção de baixa capacidade de transformação industrial dentro do país.
“O modelo chinês se diferencia do brasileiro principalmente pela presença de planejamento estatal de longo prazo e integração industrial”, explica Félix.
Tecnologia e refino concentram maior valor econômico
A disputa internacional por terras raras ganhou força porque esses minerais são considerados essenciais para diferentes setores industriais.
Eles aparecem na fabricação de semicondutores, baterias, smartphones, carros elétricos, sistemas militares e turbinas eólicas.
Segundo Ronaldo Félix, o maior desafio brasileiro atualmente não está em localizar novas reservas minerais, mas em construir capacidade tecnológica capaz de transformar o minério em produto industrializado.
“Na prática, isso significa que o controle estratégico não está apenas em possuir o minério, mas em controlar a tecnologia e a capacidade industrial necessária para transformar esse recurso em produtos essenciais para a economia moderna”, afirma.
O Brasilianista informa que o país possui regiões consideradas estratégicas para exploração mineral, incluindo áreas em Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas, Maranhão, Ceará e Piauí. Apesar disso, a participação brasileira nas etapas mais lucrativas da cadeia global ainda é reduzida.
Félix avalia que o país corre o risco de permanecer apenas como fornecedor de matéria-prima caso não amplie investimentos em refino, infraestrutura e tecnologia industrial.
“Sem estratégia industrial consistente, existe o risco de o país permanecer apenas como exportador de matéria-prima, capturando uma parcela muito menor do valor econômico gerado pela cadeia global”, afirma o especialista.
Cenário internacional abriu espaço para novos fornecedores
A tentativa de Estados Unidos, União Europeia e Japão de reduzir dependência da China abriu novas oportunidades para países com grandes reservas minerais.
O movimento acelerou discussões sobre segurança energética, produção industrial e reorganização das cadeias globais de fornecimento.
Segundo Ronaldo Félix, o Brasil possui espaço para se integrar a esse novo cenário internacional, mas ainda enfrenta limitações estruturais importantes.
“O Brasil pode ocupar posição estratégica se conseguir avançar em acordos internacionais, segurança jurídica, licenciamento ambiental eficiente e desenvolvimento tecnológico”, destaca.
O especialista afirma, entretanto, que competir diretamente com a China no curto prazo ainda é considerado improvável devido ao domínio tecnológico já consolidado pelos chineses e à escala industrial construída ao longo de décadas.

