O Parlamento do Irã afirmou nesta terça-feira (12) que poderá analisar o enriquecimento de urânio a 90% caso os Estados Unidos retomem ataques contra o país no Oriente Médio.
O percentual é considerado suficiente para a produção de uma ogiva nuclear. A declaração ocorreu em meio ao agravamento das negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano e sobre um possível acordo para encerrar o conflito na região.
O porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Irã, Ebrahim Rezaei, afirmou que a possibilidade será discutida caso o Irã volte a sofrer ofensivas militares dos Estados Unidos.
O parlamentar publicou a declaração na rede social X após novas ameaças do presidente norte-americano Donald Trump relacionadas à retomada dos ataques contra Teerã.
یکی از گزینههای ایران در صورت حمله مجدد میتواند غنیسازی ۹۰ درصد باشد. در مجلس بررسی میکنیم.
— ابراهیم رضایی (@EbrahimRezaei14) May 12, 2026
Como funciona o enriquecimento de urânio
Segundo a Australian National University, enriquecer urânio significa aumentar a proporção do isótopo urânio-235 e reduzir a presença do urânio-238.
O processo é necessário porque apenas o urânio-235 consegue sustentar uma reação nuclear em cadeia, utilizada tanto na geração de energia quanto na produção de armas nucleares.
O urânio encontrado na natureza possui cerca de 99,27% de urânio-238 e apenas 0,72% de urânio-235. Para uso em usinas nucleares, a concentração costuma variar entre 3% e 5%. Já em armamentos nucleares, o percentual normalmente utilizado é próximo de 90%.
O enriquecimento é realizado por meio de centrifugação. Nesse método, o gás derivado do urânio é colocado em cilindros de alta rotação para separar os diferentes isótopos.
O processo precisa ser repetido sucessivas vezes até atingir o nível desejado de concentração do urânio-235.
Por que o nível de 90% preocupa
O Irã já possui aproximadamente 440 quilos de urânio enriquecido a 60%. A passagem desse nível para 90% pode ocorrer em poucas semanas, porque a maior parte do urânio-238 já foi removida durante as etapas anteriores do enriquecimento.
Quanto maior o percentual de enriquecimento, menor e mais leve pode ser uma arma nuclear. Países com arsenais nucleares utilizam urânio considerado “grau armamentista”, normalmente próximo dos 90%.
De acordo com o Informe IOC, o enriquecimento em níveis elevados torna a reação nuclear explosiva. Enquanto níveis próximos de 5% são usados para geração de energia elétrica em usinas, a concentração de 90% permite uma reação em cadeia voltada à produção de bombas atômicas.
Negociações seguem travadas
A nova ameaça iraniana surgiu após Donald Trump rejeitar as exigências apresentadas por Teerã para encerrar o conflito no Oriente Médio.
Como divulgou O Brasilianista, o presidente norte-americano classificou as propostas iranianas como “totalmente inaceitáveis” e afirmou que o cessar-fogo está “por um fio”.
O Irã exige garantias formais de que não sofrerá novos ataques e pede o levantamento de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. O governo iraniano também quer a liberação de ativos financeiros bloqueados em bancos internacionais.
Outro ponto de impasse envolve o futuro do programa nuclear iraniano. Os Estados Unidos defendem a suspensão das atividades de enriquecimento de urânio por até 20 anos e pedem a desativação das principais usinas nucleares do país.
O governo iraniano rejeita desmontar suas instalações e não aceita interromper totalmente o programa.
Papel das centrífugas no programa nuclear
As centrífugas utilizadas no enriquecimento funcionam em velocidades extremamente altas, entre 50 mil e 70 mil rotações por minuto. O equipamento separa os isótopos mais leves dos mais pesados durante o giro contínuo do material gasoso.
O mesmo tipo de tecnologia pode ser utilizado tanto para produzir combustível destinado às usinas nucleares quanto para alcançar níveis adequados à fabricação de bombas.
A diferença está no número de ciclos repetidos durante o enriquecimento e no grau de concentração atingido.
Tecnologias ligadas às centrífugas costumam ser mantidas em sigilo por países que dominam esse processo.
O objetivo é preservar vantagens industriais e evitar disseminação de técnicas consideradas sensíveis para produção nuclear.
Pressão internacional cresce
Inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica monitoram instalações nucleares em diversos países para verificar o cumprimento das regras previstas no Tratado de Não Proliferação Nuclear. O órgão acompanha o programa iraniano há anos.
O nível de enriquecimento alcançado pelo Irã já supera o limite de 20% permitido para fins civis dentro do tratado internacional.
O avanço do programa nuclear iraniano ampliou a pressão diplomática de Estados Unidos, Israel e países europeus.
O novo impasse nas negociações também provocou reação no mercado internacional de petróleo. A incerteza sobre o conflito no Oriente Médio elevou novamente os preços da commodity nesta semana.

