O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês Xi Jinping, previsto para esta semana, ocorre em um dos momentos mais delicados da relação entre as duas maiores economias do planeta.
A reunião acontece em meio à guerra comercial iniciada pelos EUA, tensões envolvendo Taiwan, conflitos no Oriente Médio e disputas tecnológicas que ampliaram o choque entre Washington e Pequim nos últimos anos.
Segundo Rodolfo Laterza, mestre em Segurança Pública, especialista em Ciência Política, Sistemas de Segurança e Defesa, historiador e analista em geopolítica, ambos os governos chegam ao encontro tentando reduzir danos econômicos sem abrir mão de objetivos estratégicos considerados centrais.
“Ambos líderes das superpotências poderão tentar alguma flexibilidade pragmática em relação às tarifas e guerra comercial deflagrada por Trump no ano passado”, afirma.
O especialista explica que os impactos econômicos começaram a atingir os dois lados da disputa, principalmente o mercado americano, que sofreu reflexos diretos nas cadeias de produção, investimentos e consumo.
O que Trump quer?
Segundo Rodolfo Laterza, um dos principais objetivos de Donald Trump é reduzir os efeitos econômicos provocados pela deterioração das relações comerciais com a China.
“Nos primeiros quatro meses de 2026, o comércio caiu mais de 10%. A atividade de investimento também foi seriamente afetada”, destaca.
O especialista afirma que Trump chega ao encontro pressionado por grandes corporações americanas interessadas em recuperar espaço no mercado chinês. A expectativa é que empresários acompanhem o presidente americano durante a visita oficial.
Entre os nomes citados por Laterza estão Elon Musk, da Tesla, Tim Cook, da Apple, Larry Fink, da BlackRock, Kelly Ortberg, da Boeing, Michael Miebach, da Mastercard, e Brian Sykes, da Cargill.
Segundo o analista, o governo americano tentará convencer Pequim a ampliar novamente a compra de produtos dos Estados Unidos, especialmente soja, energia e aeronaves produzidas pela Boeing.
“Trump tentará persuadir a China a retomar a compra de produtos dessas empresas”, afirma.
O que Xi Jinping quer?
Segundo Rodolfo Laterza, o principal interesse da China é impedir que a disputa com os Estados Unidos avance para um confronto econômico e geopolítico ainda mais agressivo.
“O objetivo da China, por sua vez, é adiar ao máximo um confronto acirrado com os Estados Unidos”, explica.
O especialista avalia que Pequim chega à reunião em posição considerada mais confortável no curto prazo devido às dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos em diferentes frentes internacionais, principalmente na guerra envolvendo Irã e Israel.
Segundo Laterza, os chineses também buscam preservar estabilidade econômica interna enquanto ampliam sua influência tecnológica e comercial no cenário global.
“O principal trunfo de Pequim nessas negociações é econômico. A China é a maior economia de reexportação do mundo”, destaca.
O analista afirma que a China consolidou presença estratégica em áreas consideradas decisivas para a disputa global, como energia verde, tecnologia digital e produção de terras raras.
Taiwan continua como ponto sensível
Segundo reportagem publicada pelo O Brasilianista, Xi Jinping também deve utilizar o encontro para pressionar os Estados Unidos sobre Taiwan.
O governo chinês tenta convencer Trump a avançar além da política tradicional americana de apenas reconhecer a posição chinesa sobre a ilha.
Pequim quer que Washington aceite formalmente a reivindicação chinesa sobre Taiwan, território que o Partido Comunista Chinês considera parte da China mesmo sem nunca ter governado a ilha.
Aliados dos Estados Unidos na Ásia acompanham a reunião com preocupação diante da possibilidade de enfraquecimento do apoio americano à defesa de Taiwan.
Países como Japão e Taiwan avaliam com cautela a postura americana em meio ao envolvimento militar dos EUA nos conflitos do Oriente Médio.
Guerras internacionais ampliam tensão diplomática
Segundo Rodolfo Laterza, os conflitos envolvendo Ucrânia e Irã também devem entrar na pauta das negociações entre Trump e Xi Jinping.
“Possivelmente o encontro tende a abordar a guerra na Ucrânia e a guerra contra o Irã”, afirma.
O especialista explica que Pequim mantém posição diferente da adotada pelos Estados Unidos em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia. Segundo ele, os chineses defendem negociações diplomáticas sem pressionar diretamente Moscou.
Em relação ao Oriente Médio, Laterza avalia que Trump dificilmente conseguirá apoio chinês contra o Irã devido à relação econômica e estratégica construída entre os dois países.
“Os chineses mantêm o vínculo comercial e estratégico com o Irã e condenam a operação militar deflagrada pela coligação EUA-Israel”, destaca.
O analista afirma que a tentativa americana de pressionar economicamente a China através do bloqueio no Estreito de Ormuz não produziu o efeito esperado porque Pequim diversificou suas fontes de energia nos últimos anos.
Disputa atual vai além da economia
Segundo Rodolfo Laterza, a rivalidade entre China e Estados Unidos ultrapassa atualmente o campo comercial e envolve influência geopolítica, inovação tecnológica e disputa estratégica global.
“Isso levou a um choque comercial, geopolítico, geoeconômico e tecnológico crescente com os EUA”, afirma.
Xi Jinping chega ao encontro tentando preservar apoio político interno e evitar deterioração das relações bilaterais com Washington.
Declaração do ex-conselheiro chinês Wang Huiyao, que afirmou que Pequim possui hoje mais experiência e confiança para lidar com os Estados Unidos após anos de tensões diplomáticas.
Já para Trump, o encontro ocorre em meio ao desgaste provocado pela guerra no Oriente Médio e pelas críticas relacionadas aos impactos econômicos do conflito na economia global.
Segundo Rodolfo Laterza, apesar da possibilidade de acordos pontuais, o cenário ainda é de competição estratégica entre as duas potências, sem perspectiva de solução definitiva para os principais conflitos que marcam a relação entre Washington e Pequim.

