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Política

Flávio Bolsonaro confirma pedido de dinheiro a Vorcaro para financiar filme sobre ex-presidente

Mensagens e documentos divulgados pelo Intercept Brasil apontam negociação de cerca de R$ 134 milhões para bancar a produção do longa

Flávio Bolsonaro confirma pedido de dinheiro a Vorcaro para financiar filme sobre ex-presidente

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu nesta quarta-feira (13) que buscou investidores privados para financiar o filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

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A declaração ocorreu após o Intercept Brasil divulgar mensagens, comprovantes bancários e áudios que apontam uma negociação de cerca de US$ 24 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época, envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.

Ao menos US$ 10,6 milhões já haviam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para estruturas ligadas à produção do filme.

Os registros incluem cronogramas de pagamentos, comprovantes de remessas internacionais e conversas entre Vorcaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP).

Em vídeo publicado na rede social X, Flávio Bolsonaro confirmou a existência de um contrato privado para financiar o longa e afirmou que o projeto não utilizou dinheiro público nem recursos da Lei Rouanet.

O senador também declarou que Daniel Vorcaro deixou de cumprir parcelas previstas no acordo e disse que a produção buscou outros investidores para concluir o filme.

O que revelou a investigação do Intercept

As mensagens analisadas mostram que a aproximação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro começou em dezembro de 2024.

O empresário Thiago Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, teria organizado um encontro em Brasília entre o senador e o banqueiro.

Miranda escreveu a Vorcaro que Flávio queria tratar do “filme do presidente” e de assuntos relacionados ao SBT.

A publicação afirma ainda que as conversas posteriores passaram a incluir cobranças sobre atrasos em repasses financeiros destinados à produção cinematográfica.

O Intercept Brasil também divulgou uma mensagem enviada por Flávio Bolsonaro a Vorcaro em novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro.

No texto, o senador escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.

As conversas indicam que Vorcaro tratava o financiamento do filme como prioridade dentro de suas operações financeiras.

Em um dos registros divulgados, o banqueiro afirmou que o pagamento ligado ao projeto era “o mais importante disparado”.

Como funcionavam os pagamentos do filme

Os recursos destinados ao longa eram enviados para o fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, nos Estados Unidos. A estrutura teria ligação com aliados de Eduardo Bolsonaro.

Uma das transferências identificadas foi de US$ 2 milhões enviados pela empresa Entre Investimentos e Participações. O comprovante bancário dessa operação foi anexado ao material analisado pelos jornalistas.

As mensagens apontam dificuldades operacionais para realizar remessas internacionais. Em uma das conversas, Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro, relata recusas do setor de câmbio do Banco Master para concluir as operações.

Vorcaro então orientou que a operação fosse feita “via entre”, referência interpretada pelos investigadores como menção à Entre Investimentos e Participações, empresa que aparece nas transferências relacionadas ao projeto audiovisual.

O que Flávio Bolsonaro disse após a divulgação

Em vídeo publicado no X, Flávio Bolsonaro afirmou que conheceu Daniel Vorcaro apenas em dezembro de 2024 e disse que, naquele momento, não havia acusações públicas contra o banqueiro.

O senador declarou que o filme foi financiado por investidores privados e negou uso de recursos públicos. Segundo Flávio, os atrasos de Vorcaro quase comprometeram a conclusão do projeto cinematográfico.

Ainda no pronunciamento, o parlamentar afirmou que o longa foi concluído e deve estrear nos cinemas brasileiros ainda em 2026.

O senador também chamou o filme de “obra-prima” e disse que Jair Bolsonaro “merece uma homenagem como essa”.

Mais cedo, após ser questionado presencialmente pelo Intercept Brasil sobre as negociações com Vorcaro, Flávio negou inicialmente as informações e classificou o conteúdo como “mentira”.

Empresário confirmou ligação com o Banco Master

O empresário Thiago Miranda confirmou em depoimento à Polícia Federal que atuou na gestão de crise de Daniel Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro no âmbito da Operação Compliance Zero.

Miranda também admitiu ter intermediado a contratação de influenciadores para produzir conteúdos em defesa do Banco Master nas redes sociais. O empresário negou, porém, ter coordenado ataques contra autoridades do Banco Central.

Thiago Miranda apresentou documentos sobre os contratos realizados por sua agência de comunicação, a Mithi, durante os trabalhos ligados à estratégia reputacional de Vorcaro.

Além da atuação na gestão de crise do Banco Master, Thiago Miranda aparece nas mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil como um dos intermediadores das negociações envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”.

Miranda participou de cobranças relacionadas ao cronograma de pagamentos, encaminhou documentos sobre parcelas pendentes e organizou encontros entre integrantes da família Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Relação entre política, cinema e investigação financeira

O cronograma de financiamento do filme coincidiu com o agravamento da crise do Banco Master e com a tentativa frustrada de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).

Nos meses seguintes, aumentaram as pressões financeiras sobre Daniel Vorcaro e cresceram as cobranças feitas por integrantes ligados à produção cinematográfica.

O ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, participa do longa interpretando Jair Bolsonaro. O diretor do projeto é Cyrus Nowrasteh.

O filme tinha previsão de estreia para setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial na qual Flávio Bolsonaro é apontado como pré-candidato.

Caso Master

Como divulgou O Brasilianista, o caso Banco Master se transformou em uma das maiores crises recentes do sistema financeiro brasileiro após a liquidação da instituição pelo Banco Central, em novembro de 2025.

As investigações da Polícia Federal apontam que o banco operava um esquema baseado em títulos com rentabilidade acima da média do mercado e sem lastro suficiente para garantir os pagamentos prometidos aos investidores.

O rombo teria provocado impacto estimado em cerca de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mecanismo mantido por contribuições obrigatórias de bancos que atuam no país.

A PF também investiga suspeitas de uso de empresas de fachada, circulação de recursos entre grupos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro e conexões políticas que ampliaram a influência do banco em diferentes esferas de poder.

As apurações ainda avançam sobre possíveis pagamentos a políticos, operações financeiras consideradas incompatíveis com os valores de mercado e o uso de estruturas públicas e privadas para manter a liquidez do banco.

Relatórios da Polícia Federal citam repasses milionários, viagens internacionais e benefícios atribuídos a agentes políticos próximos do banqueiro.

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