O presidente da China, Xi Jinping, voltou a citar nesta quinta-feira (14) a chamada “Armadilha de Tucídides” durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Pequim.
Segundo o The New York Times, Xi alertou que Washington e Pequim podem entrar em um “lugar extremamente perigoso” caso os Estados Unidos tentem impedir a expansão chinesa em torno de Taiwan.
A expressão faz referência ao historiador grego Tucídides, autor de relatos sobre a Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta entre 431 a.C. e 404 a.C.
O conceito passou a ser usado para descrever situações em que uma potência emergente ameaça substituir outra já dominante, aumentando o risco de guerra entre as duas.
Xi voltou a utilizar a teoria como um alerta diplomático e não como uma previsão inevitável de conflito. O presidente chinês afirmou que China e Estados Unidos precisam encontrar “um novo paradigma” para a relação entre grandes potências.
Conceito surgiu a partir da Grécia Antiga
A teoria da “Armadilha de Tucídides” tem origem na interpretação do historiador grego sobre a rivalidade entre Atenas e Esparta durante a Antiguidade.
Tucídides escreveu que o crescimento de Atenas provocou medo em Esparta, levando as duas cidades-estados à guerra.
O trecho se tornou uma das explicações mais conhecidas sobre disputas entre grandes potências ao longo da história.
O conceito ganhou dimensão moderna a partir dos trabalhos do cientista político Graham Allison, professor da Harvard Kennedy School.
Allison utilizou a expressão para analisar a disputa geopolítica entre China e Estados Unidos no século XXI.
Allison analisou 16 momentos históricos nos quais uma potência emergente ameaçou substituir outra dominante. Segundo o levantamento, 12 dessas disputas terminaram em guerra.
O estudo afirma que a rivalidade entre Washington e Pequim pode repetir padrões históricos observados em outros períodos de transição de poder global.
Rivalidade entre EUA e China ampliou debate
O avanço econômico e militar chinês nas últimas décadas intensificou o uso da teoria nas discussões sobre geopolítica internacional.
O crescimento da China passou a ser interpretado por setores da política americana como um desafio direto à posição de liderança dos Estados Unidos no sistema internacional.
O estudo afirma que conflitos comerciais, disputas tecnológicas, ataques cibernéticos ou incidentes militares no Pacífico poderiam desencadear crises maiores entre os dois países.
A publicação também destaca que tanto Xi Jinping quanto Donald Trump adotaram discursos voltados ao fortalecimento nacional de seus países, aumentando o ambiente de competição estratégica.
Xi Jinping tem defendido há mais de uma década que os Estados Unidos tratem a China como uma potência equivalente, sem tentar bloquear sua influência regional.
Especialistas divergem sobre inevitabilidade de guerra
Parte dos especialistas afirma que a teoria não significa necessariamente que Estados Unidos e China caminham para um confronto militar inevitável.
Segundo o artigo publicado pela Oxford University Press no Chinese Journal of International Politics, diversos pesquisadores contestam interpretações mais deterministas da “Armadilha de Tucídides”.
O estudo afirma que o próprio Xi Jinping rejeitou anteriormente a ideia de que exista uma armadilha inevitável entre as duas potências, tratando o conceito como um risco que pode ser evitado por meio de diplomacia e equilíbrio estratégico.
Parte da discussão internacional considera que o maior perigo está em reações excessivas tanto da potência emergente quanto da potência dominante. O texto defende estratégias de moderação e contenção para evitar escaladas militares.
Há interpretações diferentes sobre o pensamento original de Tucídides. Alguns autores associam o historiador ao realismo político e à busca por supremacia, enquanto outros entendem que seus relatos funcionam como alerta contra excessos de poder e decisões impulsivas.
Taiwan aparece no centro das tensões
A disputa em torno de Taiwan é considerada um dos principais pontos de tensão entre Washington e Pequim.
Xi Jinping mencionou diretamente a ilha ao alertar os Estados Unidos sobre os riscos de tentar impedir a atuação chinesa na região.
A China considera Taiwan parte de seu território e defende eventual reunificação, inclusive com possibilidade de uso da força.
Já os Estados Unidos mantêm apoio político e militar à ilha, mesmo reconhecendo oficialmente o princípio de “uma só China”.
O cenário atual reúne elementos considerados historicamente perigosos em disputas entre grandes potências, incluindo competição econômica, corrida tecnológica, expansão militar e disputas territoriais.
A rivalidade entre China e Estados Unidos pode se tornar o principal eixo geopolítico do século XXI caso não existam mecanismos diplomáticos capazes de reduzir o risco de confronto direto.

