Partidos políticos têm ampliado a busca por artistas, atletas e influenciadores para disputar eleições. A aposta está no alcance desses nomes e na vantagem inicial em relação a candidatos menos conhecidos. Para O Brasilianista, o jornalista, professor aposentado da UnB e consultor político Hélio Doyle explica que essas candidaturas encurtam o caminho da campanha. “Já entram na disputa com um alto índice de conhecimento, pulando assim uma etapa no processo”, pontua.
Além da visibilidade, partidos consideram a capacidade desses nomes de transformar popularidade em votos. Para o consultor, essas figuras costumam reunir um público com maior probabilidade de apoio eleitoral, o que aumenta o interesse dos partidos em convidá-las para a disputa.
O avanço dessas candidaturas também está ligado à rejeição a políticos tradicionais. O especialista afirma que esses candidatos se destacam por reunir popularidade, conexão com segmentos específicos e, sobretudo desde 2018, por se posicionarem como alternativa à política tradicional.
Apesar disso, alcance não significa voto. O especialista observa que engajamento digital e desempenho nas urnas seguem lógicas diferentes, o que leva campanhas a superestimarem o peso de curtidas e seguidores.
Notoriedade não é capital político
A diferença entre fama e trajetória política é um dos pontos centrais na análise. O jornalista esclarece que capital político é construído na prática, a partir de disputas eleitorais, exercício de mandato e posições assumidas. Já a notoriedade pode até abrir portas, mas não substitui essa experiência.
Esse descompasso aparece também no comportamento do eleitor. De acordo com o consultor, o apoio a celebridades costuma nascer de uma identificação prévia com o candidato: “Geralmente é identificação com o ídolo, seja artista, atleta, influenciador, jornalista ou radialista”.
Já o voto em partidos tende a estar ligado à ideologia. Esse vínculo ajuda a demonstrar por que partidos concentram essas candidaturas em eleições proporcionais. Nesses casos, os votos recebidos por nomes populares impactam diretamente o desempenho da legenda.
O efeito puxador e seus limites
O chamado efeito puxador de votos continua presente no sistema eleitoral. Doyle cita casos como Tiririca e Romário, além de Leila, Popó e Alexandre Frota. “Os votos na lista somam para a legenda”, explica.
Nem sempre, porém, a estratégia funciona. Há situações em que celebridades não conseguem convencer seus seguidores de que podem desempenhar bem um mandato. Em outros casos, o público não é numericamente suficiente para garantir a eleição.
Erros de cálculo são frequentes. Partidos podem apostar na fama como fator decisivo e ignorar variáveis como rejeição ou falta de preparo. Segundo o jornalista, há um equívoco recorrente nessa avaliação: “Achar que o fato de serem celebridades assegura a eleição deles ou uma votação expressiva”.
Desempenho e expectativas
O desempenho de celebridades eleitas nem sempre corresponde ao que foi projetado na campanha. De forma geral, os resultados ficam abaixo da expectativa, embora haja exceções. A rejeição também faz parte do processo. Quanto maior a exposição, maior a chance de críticas. “Nem Pelé seria unanimidade hoje”, diz ele.
A tendência, no entanto, é de continuidade desse tipo de candidatura nas próximas eleições, com partidos mantendo a aposta em nomes conhecidos para atrair atenção e votos.

